Às vésperas da Rio+20 o que preocupa são os hotéis
Um dos tipos de discriminação de preços mais discutido e polêmico é aquele em que o vendedor de algum bem ou serviço cobra mais caro de turistas. Principalmente nas cidades turísticas, e capitais, o fato de os turistas pagarem mais caro parece ter se tornado uma prática comum. (Veja este teste realizado em Salvador, por exemplo).
Isso não é pra menos. Em geral, a disposição a pagar dos turistas é mais elevada que a dos moradores comuns. Além disso, existe muita assimetria de informação associada. A situação piora quando essa discriminação está associada a grandes eventos. Isso porque a realização de grandes eventos provoca considerável aumento na demanda por quartos de hotel, restaurantes, táxis, etc.
A bola da vez é a Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento que será realizada em junho. O valor dos pacotes que os hotéis do Rio de Janeiro estavam cobrando assustou algumas delegações, que ameaçaram não comparecer na conferência. O resultado foi um acordo entre o Governo Federal e a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio de Janeiro, que promete reduções dos valores cobrados de 25 a 60%.
Mas antes que você pense que essa discriminação de preços é “coisa nossa”, fique sabendo que ela existe no mundo todo. Para se ter uma ideia, durante a copa do mundo de 2010, as companhias aéreas internacionais chegaram a triplicar o preço das passagens durante a competição. E por falar em copa, 2014 está chegando. Qual será o efeito dessa discriminação de preços durante a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016?
A espiral da competição
Todos nós sabemos que quanto mais progressivo é o imposto sobre a renda do trabalho, menor é o incentivo para trabalhar além de uma taxa ótima. Em trabalho recente um grupo de economistas foi averiguar se os dados corroboravam essa teoria. Para isso, eles dividiram a amostra em dois grupos (mulheres e homens) com dados dos EUA e União Europeia (cross-country) e correlacionaram a taxa de imposto com as horas trabalhadas por ano. Para os homens nenhuma novidade, a correlação entre horas trabalhadas e alíquota imposto de renda é negativa (-0,7), corroborando a teoria. Mas, para as mulheres não existe correlação alguma (zero). Veja a figura 1 abaixo.
Isso indica que a mulher é menos afetada na decisão de ofertar horas de trabalho no mercado. Seguindo a investigação, os pesquisadores averiguaram os dados de incidência de divórcios e horas trabalhadas. Eles descobriram que mulheres divorciadas trabalham mais, com uma correlação positiva de 0,6. Já os homens não se deixam afetar pelo divórcio na hora de ofertar sua mão de obra, com correlação zero. Isso indica que países com maiores taxas de divórcio, têm mais mulheres dispostas a trabalhar e, portanto, avessas a ficar tão dependente financeiramente do cônjuge. Veja a figura 2.
Estendendo a análise para o estudo entre os países, descobriu-se mais uma causa para a diferença de 30% menor das horas trabalhadas da Europa em relação aos EUA (Prescott, 2004). Além da tributação e benefícios trabalhistas, a estabilidade da união civil é fator importante na oferta de mão de obra.
Portanto, esses dados mostram que a força de trabalho feminina afeta a atividade econômica de forma não negligenciável. Nesse caso em particular, ajuda a explicar o diferencial de oferta de horas-trabalho entre os EUA e UE. Podemos nos estender e comentar algumas consequências sociológicas da mulher competindo em pé de igualdade com os homens.
Notadamente, é no trabalho que o homem busca sucesso para impressionar as mulheres que lhes despertam o desejo. Ocorre que, quando essa mesma mulher atinge os mesmos feitos dos homens, o que este pode fazer? Trabalhar mais e superar a pretendente, claro.
Portanto, desde que o trabalho ganhou maior natureza intelectual, as mulheres tomaram essa cena de assalto. Esse fato gerou maior competição e com isto, acelerou ainda mais a luta para suceder na vida. Com as mulheres participando ativamente, o sucesso para impressioná-las terá de ser ainda maior. Esse fato gera uma espiral que aumenta o desempenho da economia, mas, por outro lado, afeta a vida conjugal, levando a maiores taxas de divórcio. E, como vimos, mais divórcio implica em mais trabalho feminino que por sua vez aumenta a competitividade no mercado de trabalho e esse ciclo se repete ad infinitum.
O fato é que apesar das mulheres ainda ganharem menos, na média, a consolidação do gênero feminino no mercado de trabalho está introduzindo uma competitividade maior nesse mercado. A batalha dos sexos não é mais pelo controle remoto, mas pelos bônus.
Referências:
Gikovate, Flávio (1982). O homem, a mulher e o casamento. São Paulo: M. G. Ed. Associados.
Chakraborty, Indraneel, Hans A Holter and Serhiy Stepanchuk (2012). “Marriage Stability, Taxation and Aggregate Labor Supply in the US vs. Europe”, Working Paper.
Prescott, Edward C (2004), “Why do Americans Work so Much More Than Europeans?”, Federal Reserve Bank of Minneapolis Quarterly Review, 28:2-13.
Pleno emprego no Brasil? Pelo jeito ainda não
Recentemente tem ganhado espaço a discussão sobre se o país estaria ou não em situação de pleno emprego, dado o patamar de desemprego apresentado nos últimos tempos. Desde setembro de 2010, a taxa medida pela PME não supera 6,5%, número bastante baixo para os padrões históricos brasileiros.
Estudo (pdf) publicado pelo Ipea, no entanto, faz algumas ressalvas sobre a possível situação de pleno emprego no Brasil. A principal delas diz respeito ao desemprego oculto pelo trabalho precário e pelo desalento.
Ao levar em consideração o desemprego aberto (pessoas que procuraram emprego nos últimos 30 dias e não o exerceram nos 7 dias anteriores à entrevista), os números referentes ao trabalho precário (atividade eventual sem perspectiva de continuidade) e o desalento (pessoas que não possuem trabalho nem procuram emprego) acabam por ser mascarados. Assim, uma medida mais adequada da situação brasileira deveria levar em conta o desemprego oculto.
Ao utilizar a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) do Dieese, é possível verificar que, quando levados em consideração o desemprego oculto pelo trabalho precário e pelo desalento, a ideia de que o Brasil está em uma situação de pleno emprego perde sustentação.
O futuro que queremos: utopia
O objetivo da Rio +20, conferência da ONU que acontecerá no Rio de Janeiro entre os dias 13 e 22 de junho é debater em nível mundial uma forma de conciliar crescimento econômico e preservação do ambiente.
EUA, Alemanha e Inglaterra não virão. Os EUA estão preocupados com a eleição presidencial e Alemanha e Inglaterra estão concentradas na crise da zona do euro.
Enquanto ocorria a Rio 92 o grande debate do momento era sobre as causas do aquecimento global. Discutia-se se realmente a atividade humana estava afetando o clima do planeta. Vinte anos depois, e essa questão ainda não é uma verdade granítica na sociedade científica, mas o enfoque dessa reunião não é o clima.
Os países em desenvolvimento liderados pelos BRIC’s colocaram em cima da mesa a seguinte proposta aos países desenvolvidos: “nós sabemos que o processo de desenvolvimento implica em transformar o ambiente. Dominá-lo, e transformá-lo mais suscetível à ação humana. Ocorre que nesse processo florestas são consumidas, espécies de animais desaparecem, o ar e a água ficam mais poluídos. Por isso nós propomos que vocês deem assistência para que nós cheguemos ao clube dos ricos sem maiores custos. Ou seja, queremos 0,7% do PIB de vocês anualmente e que a tecnologia seja transferida de graça. Caso contrário vamos nos desenvolver degradando o planeta em uma taxa equivalente a que vocês empreenderam no século XIX .”
Naturalmente o texto final da reunião não será aprovado nesses termos. Em relatório recente, a WWF afirma que o consumo humano exigirá o equivalente a duas terras em um futuro próximo. É claro que conciliar a ideologia verde com o paradigma de consumo da sociedade atual é tarefa difícil. Cada país terá que traçar seu próprio caminho, esse futuro que queremos não será alcançado com conferências e cartas de boas intenções.
Já disse isso outro dia. O Stata é legal, basta ter paciência para usá-lo…
Se para você o Stata é sinônimo de econometria, você já pode rever seus conceitos. Agora, além de ser um espaço para brincar de econometria, o Stata virou também uma plataforma para jogar Blackjack, aqui no Brasil é mais popularmente chamado de 21.
Essa foi uma dica do Justin Wolfers, do Freakonomics. Já instalei, e claro, fiz a estreia do joguinho. Olha só que legal, é muito fácil.
Passos para instalação:
+ Requisito: ter o Stata 11 ou superior em seu computador.
+ Baixe este arquivo e salve provisoriamente na área de trabalho. Após feito o download, vá na sua pasta do Stata (geralmente fica em “C:”): entre na pasta ‘ado’ e siga este caminho: ‘ado’>’base’>’b’.
+ Coloque na pasta ‘b’ o arquivo que você acabou de baixar cujo nome é ‘blackjack.ado’.
Pronto. Já está instalado.
Como jogar:
+ Entre no Stata e digite o comando: blackjack
Aparecerá algo do tipo:
. blackjack
Adriano has $ 500
Bet Amount? .
+ Digite o valor que você deseja apostar de 0 a 500.
+ Aparecerá na tela suas cartas e uma carta do oponente. Daí pelas cartas recebidas você tem que decidir entre “HIT” (digitando h) ou STAND (digitando s). Você deverá escolher Stand (manter) se você estiver satisfeito com sua mão, e Hit (batida) se desejar mais uma carta. Lembrando que ganha quem chegar mais próximo de 21, sem ultrapassar esse valor. As regras detalhadas estão aqui.
Austeridade: o gráfico que deu o que falar
Uma briga feroz de ideias se instalou na mídia internacional nos últimos dias. Tudo começou com esse gráfico de Veronique de Rugy, pesquisadora da George Mason University:
A pergunta que se faz é: onde estão os cortes selvagens de gastos que assolam a zona do euro?
Ao contrário, após anos de aumentos de gastos o gráfico mostra que países amplamente citados pela adoção de medidas de austeridade (como Espanha, Reino Unido, França e Grécia) não reduziram significativamente os gastos nos últimos anos. Segundo ela, em alguns países os cortes de gastos foram sim desprezíveis e, para a Europa como um todo, o aumento dos impostos foi um componente muito maior do que cortes de gastos.
O debate ganhou fôlego quando Tyler Cowen mencionou esse gráfico em seu blog. A partir de então, Ryan Avent da The Economist e correspondentes do Washington Post, além de pesquisadores do naipe de Justin Wolfers, escreveram uma série de respostas contestando frontalmente o que foi dito por Tyler Cowen e sua companheira Veronique de Rugy. Uns disseram que o gráfico não deveria estar em termos nominais, outros disseram que existe problema na escala do gráfico e, a partir daí, surgiu uma série de outros gráficos.
De fato, se você olhar o déficit estrutural/PIB as coisas parecem mudar de cara (gráfico de Blad Plumer, Washington Post):
Tyler Cowen rebateu as críticas dizendo que eles não estão pensando “profundamente o suficiente”. Para ele, quando se quer julgar se a política fiscal é contracionista ou expansionista em termos macroeconômicos: “não se deve ajustar automaticamente a porcentagem do PIB e a inflação”. Deve-se em vez disso, iniciar analisando “os gastos nominais do governo, e então talvez dar uma olhada no PIB nominal ou medidas afins. A teoria, afinal, é sobre valores nominais, acima de tudo no curto prazo.”
E acrescenta:
Na maioria das vezes “austeridade” é uma palavra enganosa e conceitos mais precisos – facilmente inteligíveis, devo acrescentar – estão disponíveis.
Em resumo, esse embate vem servindo para lembrar que existem várias formas de austeridade na tentativa de reduzir a relação dívida/PIB ou o déficit, e que o termo “austeridade fiscal” ainda carece de uma definição precisa. Ressalta-se então, que a austeridade não pode ser confundida como uma política exclusiva de corte de gastos, mas também de aumento dos impostos, ou ainda uma mistura de ambos.
O debate não deve parar por aí. A discussão já virou novela, está tão animada que até o twitter vem sendo usado para colocar a briga em dia. Tem sido bem divertido de acompanhar.
Existem muitos estudos por aí que são no mínimo curiosos. São do tipo que você lê e diz: “Nossa, tem gente que estuda isso?” Depois do estudo sobre os personagens da ficção mais ricos (veja o post), agora é a vez da estimação dos custos dos desastres das ficções.
O estudo é feito pela Kinetic Analysis. Para quem não conhece, a Kinetic Analysis Corporation é uma empresa especializada em estimar custos de desastres (sejam eles naturais ou provocados pelo homem) sobre a economia. Segundo algumas de suas estimações, os ataques de 11 de setembro custaram cerca de US$ 83 bi, o furacão Katrina custou US$ 90 bilhões, e o tsunami do ano passado no Japão custou US$ 122 bilhões.
A pedido de um site sobre cinema, a Kinetic Analysis estimou o custo da batalha entre os heróis e vilões do filme “Os vingadores”. O relatório (pdf) foi feito como se a invasão na cidade de Nova York tivesse mesmo ocorrido. Segundo o relatório, o custo total estimado é de US$ 160 bilhões, sendo de US$ 60 a US$ 70 bilhões os danos físicos, e de US$ 90 bilhões os impactos econômicos secundários referentes aos impactos nos negócios, no comércio e custos de limpeza.
Não vou discutir aqui os critérios do estudo, ou mesmo os métodos, até porque o relatório não diz nada concreto sobre os métodos da estimação. Enfim, o “estudo” pode até ser curioso, mas não vai mudar sua vida.
Nesta semana ganhou destaque no noticiário a eleição de François Hollande, do Partido Socialista, à Presidência da França. Uma de suas mensagens após a vitória me chamou a atenção: “minha missão é dar à construção europeia uma dimensão de crescimento, de emprego e de prosperidade”.
Mais do que sintetizar alguns dos principais objetivos de seu governo, o discurso mostra uma preocupação crescente da esquerda com questões econômicas. Em última instância, a “prosperidade” não pode ser dissociada do “crescimento” e do “emprego”, é a condição financeira favorável que possibilita a manutenção do estado de bem estar social.
De um modo geral, assistimos nos últimos anos a uma convergência tanto de esquerda quanto de direita para o objetivo comum de expansão econômica. O que difere, no entanto, são os meios utilizados para alcançá-la.
Para os partidos mais à esquerda, a fórmula seria uma maior intervenção do governo por meio de políticas ativas para o crescimento e um dispêndio mais elevado em práticas de assistência social. Para os mais à direita, o segredo estaria na austeridade fiscal e diminuição da carga tributária. Perto das discussões entre socialistas e capitalistas, as divergências atuais são perfumaria.
Ibmec Conference
Está acontecendo no Ibmec-RJ um evento que promete trazer grandes nomes. Apresentação:
Na conferência já estiveram presentes o Nobel de Economia Amartya Sen e o ex-ministro da fazenda Maílson da Nóbrega. As próximas palestras serão com:
> 16/05 – Roberto DaMatta
> 23/05 – Eike Batista
> 30/05 – Gustavo Franco
> 05/06 – Roberto Civita
“Passaporte” da Conferência: R$ 1800. Sem dúvida, está fora do alcance dos estudantes. Mas, a boa notícia é que me parece que o Ibmec está disposto a colocar as palestras no YouTube. Bom, pelo menos a do Nobel você já pode assistir aqui. Avisarei caso as outras forem publicadas.
O malogro de Roberto Campos
O economista liberal Roberto de Oliveira Campos teve uma ativa participação em alguns momentos políticos brasileiros. Defensor do liberalismo econômico começou sua vida política como ministro do planejamento do governo Castello Branco e conjuntamente com Gouvêa de Bulhões criou uma série de medidas que levaria ao milagre econômico do governo Médici. Entre elas a criação do mercado de capitais, reforma tributária e antes, no segundo governo Vargas, a criação do BNDE.
Além de economista prático com atuação bastante profícua no governo, foi justamente o seu lado idealista e polêmico que me chamou a atenção em seu sistema de pensamento. Campos é o típico pensador que é interessante citar tanto pela contundência em que se expressa quanto pela sua ironia. A respeito da Constituição de 1988 ele disse: “enquanto o cruzado pretendia abolir a inflação por decreto, a Constituição quer acabar com a pobreza pela lei.” Participou da constituinte e recusou-se em assinar a carta magna porque a considerava muito socialista para seu gosto.
Contumaz crítico da esquerda brasileira, a qual lhe rogou a alcunha de “Bob Fields” devido ao seu pensamento liberal adquirido nas universidades americanas, não poupava o governo em dizer que “o Estado não dá nada ao povo do que dele não tenha tirado.” Malogrou em seu esforço em ver a economia brasileira caminhando a passos largos para um contexto liberal.
Depois que o governo Collor fracassou no seu combate a inflação, Roberto Campos escreveu que “só há três saídas para o Brasil: Galeão, Cumbica ou liberalismo.” Com o governo FHC, Campos acreditou que a ultima saída estava sendo utilizada. As reformas neoliberais estavam levando economia ao estado mínimo. Os objetivos de reduzir continuamente os gastos públicos estavam no caminho certo. Contudo, veio a crise asiática, o governo Lula e o compromisso de sediar dois eventos mundiais a expensas do contribuinte brasileiro.
Portanto, Campos, que faleceu em 2001 não viu o Brasil entrar no clube dos ricos. Não viu a pobreza ser drasticamente diminuída pela economia de mercado. O assistencialismo governamental disparou e o intervencionismo econômico só cresceu e não vemos nenhum economista liberal se destacando nos debates públicos.







