A revisão de expectativas na escadinha da Selic

Há uma semana o assunto não é outro, economistas e jornalistas tentando prever qual seria o novo degrau  a ser atingido pela taxa básica de juros (Selic). Uma semana de espera por um resultado que seria divulgado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na noite de ontem, dia 21 de julho. Perguntado pela Reuters dias antes,  Meirelles, presidente do Banco Central, não quis adiantar nada e somente reiterou levar em conta todos os dados da economia brasileira disponíveis até as reuniões.

Até o início da semana, os dados divulgados eram o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) que ficou estável em junho, o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) que subiu menos que o esperado, em 1,06%, e os dados da produção industrial que ficaram estáveis em maio sobre abril, reduzindo a marcha da indústria em consequência da retirada de incentivos tributários. Em posse disto, havia um consenso esmagador em torno de uma previsão de alta da Selic em 0,75 ponto porcentual na reunião de ontem.

As coisas mudaram. Às vesperas da decisão do Copom, uma ponta de dúvida surgiu quando  novos dados econômicos relevantes foram divulgados.  A Conferação Nacional da Indústria (CNI) informou que a confiança do industrial está no menor patamar desde outubro e o Índice de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA-15) mostrou deflação de 0,09% em julho, queda que foi puxada por produtos alimentícios, ônibus urbanos e combustíveis.

Os agentes passaram então a rever suas expectativas em relação à Selic. Um cenário de dúvida tomou conta dos analistas de mercado. No mercado futuro de juros por exemplo, as apostas de elevação de 0,50 ponto percentual chegou a 70%, ante 30% para 0,75 ponto. Até o meio da semana passada, 100% das apostas eram para um aumento de 0,75.

Tentando adiantar o futuro, a AE News fez uma sondagem relâmpago com economistas do mercado financeiro e constatou que, embora em menor número, a maioria dos economistas mantiveram a expectativa de ajuste de 0,75. A justificativa dada para isto foi que os economistas são mais constantes em suas previsões do que os operadores de mercado, salientando para o fato de a economia, apesar de menos aquecida, estar acima do potencial.

Ontem às 20:25 o Copom põe fim na ansiedade de todos e revela o tamanho do degrau a ser subido. A decisão foi um aumento da taxa Selic em 0,5 ponto percentual indo para 10,75% ao ano. E o Copom deixou um recadinho:

“Avaliando a conjuntura macroeconômica e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic para 10,75% a.a., sem viés. Considerando o processo de redução de riscos para o cenário inflacionário que se configura desde a última reunião do Copom, e que se deve à evolução recente de fatores domésticos e externos, o Comitê entende que a decisão irá contribuir para intensificar esse processo.”

Representantes do Comércio e Indústria, como de costume, não ficaram satisfeitos com a alta da taxa básica de juros. Em defesa do setor produtivo brasileiro argumentaram que a alta de juros seria “desnecessária” e criticaram a dose do conservadorismo do Copom.

Já para o colunista José Paulo Kupfer o referido abrandamento do ritmo do aperto monetário pode ser considerado aceitável. A decisão, segundo Kupfer, seria compatível ao quadro econômico desenhado para o futuro próximo, qual seja, um quadro de acomodação de atividades, não de estagnação ou recessão. E tudo indica, segundo o colunista, que a inflação voltará a ser positiva e moderada nos próximos meses. Em síntese, é um cenário para não atrapalhar o crescimento “exuberante” tão desejado pelo presidente Lula.

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