O blá do Banco Central

Em clima natalino, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu ontem, manter a taxa básica de juros (Selic) no atual patamar, de 10,75% ao ano. Foi a última decisão com Meirelles à frente da autoridade monetária, que deixa o cargo para Tombini, atual diretor de Normas do BC.

Abaixo a íntegra do comunicado:

“Avaliando a conjuntura macroeconômica e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 10,75% a.a., sem viés. Diante de um cenário prospectivo menos favorável do que o observado na última reunião, mas tendo em vista que, devido às condições de crédito e liquidez, o Banco Central introduziu recentemente medidas macroprudenciais, prevaleceu o entendimento entre os membros do Comitê de que será necessário tempo adicional para melhor aferir os efeitos dessas iniciativas sobre as condições monetárias. Nesse sentido, o Comitê entendeu não ser oportuno reavaliar a estratégia de política monetária nesta reunião e irá acompanhar atentamente a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária.”

Pode ser que seja uma impressão espúria minha, mas este foi um dos maiores comunicados pós-Copom que já li do Banco Central. Geralmente, uma ou duas linhas já dizem o necessário. Acontece que estamos num Regime de Metas que atualmente prega a inflação ideal em 4,5% (medida pelo IPCA) e que não está sendo cumprida. Assim, teve blá no comunicado e vai ter mais blá na Ata do Copom semana que vem.

Digo isto porque por trás de um comunicado grande, existe uma inflação que voltou a ficar grandinha. O IPCA de novembro, divulgado pelo IBGE esta semana, fechou em 0,83% na margem. É um índice alto, o maior índice mensal desde abril de 2005. O acumulado do ano está em 5,25% e considerando os últimos 12 meses, o IPCA passou para 5,63%.

A tendência é a de que o índice feche o ano próximo de 6%. Se isso for confirmado, será a maior alta de preços desde 2004, como mostra a planilha com os dados do Banco Central.

Trocando em miudos, relendo o comunicado, o BC entende que seria mais sensato aguardar e avaliar a amplitude das recentes medidas de restrição da liquidez e do crédito – com a elevação do depósito compulsório dos bancos – antes de adotar outras iniciativas, como por exemplo aumentar os juros. Espera-se que o freio no crédito contribua para esfriar a economia e, por conseguinte, a inflação. Com a vantagem adicional de que uma puxada para cima da Selic valorizaria ainda mais o já valorizado real,  o que poderia aumentar as dificuldades no setor externo.

Beleza, só fica então um recado pra presidente eleita e pra nova equipe econômica. Cantar “adeus ano velho, feliz ano novo” não é espantalho para os males que este ano velho nos deixa de herança. E esse clima todo natalino do novo Governo, de conciliação entre o Banco Central e a Fazenda não vai ter blá que explique. Cada um no seu quadrado e daí, quem sabe, o Papai Noel traga uma inflação controlada de presente para o novo ano.

Referências:
Dados do BC: http://www.bcb.gov.br/Pec/metas/TabelaMetaseResultados.pdf
Comunicado do BC: http://www.bcb.gov.br/textonoticia.asp?codigo=2829&idpai=NOTICIAS
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7 Responses to O blá do Banco Central

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  2. Realmente é preocupante esse tipo de atitude que já comentamos aqui mesmo neste blog.
    Da mesma forma que no período pré eleições vemos que o BACEN prioriza o timing político sobre o econômico e a decisão de ontem deixa essa informação ainda mais evidente.
    Evitando mais um revés a ser atribuído ao Governo do Presidente Lula o COPOM segura o aumento do juros e como muito bem expresso pelo colega Adriano Dutra Teixeira faz um blablabla que não engana nem convence ninguém.
    Pilar da estabilidade e do clima de tranquilidade econômico, COPOM e BACEN não podem se prestar a esse tipo de atitude sob pena de minar a todo trabalho de confiança conquistado desde o calote da dívida efetuado pelo Ilustre Sarney em 1987.
    Enfim deixo no ar pairar a dúvida se realmente teria Henrique Meireles saído ou pedido para sair tendo em vista o horizonte que se apresenta para a economia no futuro?

    • Anderson, sem dúvida a hora da verdade será na primeira reunião com Tombini à frente do BC, já na metade de janeiro tiraremos a prova disso. A questão é séria, está em pauta a autonomia do BC e, por tabela, nossa estabilidade. Abs!

  3. Adriano says:

    Até o Lula admitiu preocupação com a inflação. Frase de hoje:

    “Nós estamos com o crescimento muito forte da inflação, na questão do alimento. Eu espero que seja uma coisa sazonal e que seja uma coisa apenas de final de ano, porque nós temos a obrigação política de não permitir a volta da inflação.”

  4. Lula admitiu sim mas negligenciou que a inflação não e mérito apenas do setor de alimentos, muito pelo contrario. O setor de serviços lidera as maiores altas e pelo vista a alta no setor de serviços não tem nada de sazonal.

    • Sim, não foi só o panetone que subiu. É o que costuma-se intitular “índice de difusão”, que mostra se a inflação está concentrada ou disseminada. No IPCA de julho 48,7% dos itens subiram, no último IPCA, a taxa foi para 64,8%. A inflação de serviços, acumulada em 12 meses, já está em 7,5%. Isso já comprova o cenário de difusão.

  5. mattozinhos says:

    Muito bem lembrado o panetone, excelente!!! Valeu

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