A Economia da Obesidade

Fateconomics

Por vezes, ao comentar a área em que faço minha pesquisa na faculdade recebo alguns olhares de surpresa pelo assunto: Economia da Obesidade. Afinal, qual a serventia da Economia no estudo da obesidade?

A Economia, em especial a Teoria do Consumidor, oferece uma abordagem teórica amplamente aceita para o comportamento humano via maximização condicionada. Assumimos que os indivíduos maximizam a utilidade que é uma função de como os indivíduos alocam seu tempo, de quais alimentos consomem, do consumo de todos os outros bens, do peso e da saúde.

Todavia o mundo mágico da monotonicidade defronta-se logo com as restrições orçamentária, do tempo e biológica. Estas restrições geram tradeoffs. As pessoas devem escolher entre ter saúde e outras coisas, à medida em que pretendem aumentar a utilidade. Devem decidir também entre consumir alimentos mais baratos e mais dos outros bens, ou consumir alimentos caros e menos dos outros bens. Devem decidir quanto tempo usar para trabalho e quanto para exercícios físicos.

Existe entretanto um contraste considerável entre as abordagens econômica e da saúde pública. A saúde pública preocupa-se em como as pessoas devem comportar-se de forma a maximizar a saúde e garantir a longevidade. Economia estuda como as pessoas realmente comportam-se quando tentam maximizar a utilidade. As diferenças são evidentes, a área da saúde lida com afirmações normativas, trata a saúde como um objetivo sob uma perspectiva paternalista. Já a Economia lida com informações positivas, trata a utilidade como um objetivo sob a hipótese da racionalidade.

As publicações na Economia da Obesidade muito utilizam da econometria como ferramenta e vão no sentido de tentar entender as causas, implicações e em discutir quais seriam as políticas públicas a serem efetivadas para lidar com as crescentes taxas de obesidade no mundo.

Com relação às causas, existe uma enorme dificuldade em determiná-las. Em geral, as pesquisas verificam que o aumento da obesidade está associado a mudanças nos preços relativos, no emprego ou mesmo em mudanças nas restrições:

  • Lakdawalla e Philipson: encontraram que cerca de 40% do crescimento recente no peso parece ser devido à inovação na produção agrícola que reduziu os preços dos alimentos, enquanto 60% é devido a fatores de demanda, como o aumento da produtividade que contribui para o declínio de atividade física;
  • Cutler: constatou que as mudanças tecnológicas mantiveram os alimentos industrializados mais baratos;
  • Anderson: constatou que o aumento do emprego materno contribui para a obesidade infantil;
  • Chou: encontrou que o aumento dos preços do cigarro explica cerca de 20% do aumento da obesidade.

No quesito das consequências, através de “experimentos naturais” a Economia tem sido capaz de estimar os impactos da obesidade:

  • Cawley: a obesidade diminui o salário das mulheres, sem penalidades para os homens;
  • Morris: a obesidade diminui a probabilidade de emprego;
  • Finkelstein: os gastos com saúde para um jovem obeso  de 20 anos aumentam cerca de quatro vezes em relação a um jovem com peso normal e estes gastos aumentam proporcionalmente ao Índice de Massa Corporal;
  • Conley e Glauber: a obesidade está associada com uma redução de 25% da renda das mulheres e uma redução de 16% na probabilidade de casamento para mulheres;
  • Bhattacharya e Sood: as externalidades da obesidade geram um custo social de cerca de $150 per capita.

Finalmente, resta a pergunta: o que fazer? Existem muitas soluções a serem discutidas. Politicamente, é inviável taxar o excesso de peso. Deveria então o governo subsidiar a atividade física? Taxar ou subsidiar certos alimentos pode ser outra saída visto que o consumo de certos bens é bastante sensível ao preço. No entanto, como definir quais os alimentos deveriam ser subsidiados e quais tributados? O refrigerante diet, por exemplo, deve ser subsidiado ou tributado?

Em linhas gerais, esses são alguns dos questionamentos com que lida a já consagrada Fateconomics. Naturalmente, devido a extensão que esta área tomou foi necessária a escolha para a minha pesquisa de um dos ramos em que ocorre a interferência social da obesidade. Isso eu conto em outro post.

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8 Responses to A Economia da Obesidade

  1. Ikari says:

    Bem interessante, Adriano!

    Realmente, a saúde pública tem uma visão bem distinta da realidade em relação a economia. Para confirmar isto, basta qualquer um ir a um dos congressos/conferência da Assosiação Brasileira de Economia da Saúde (ABRES), cujos participantes vão desde profissionais da área de saúde (médicos, enfermeiros) aos “cratas” (aqueles que, teoricamente, apenas ficam em suas meses analisando a realidade, como economistas e alguns analistas do governo).

    Os mesmos temas são abordados como algo distinto. Particularmente, tive que deixar pelo meio uma das palastras dos profissionais da saúde… rsrsrs

    Apesar de atuar mais na economia do setor público (ou finanças públicas, como preferirem… apesar de eu ver ambos com certa diferença), estou realizando minha monografia com a aplicação do setor público como “ônus ou bônus” para a saúde, e por isso tive a oportunidade de estudar bastante os dois lados.

    Este lado da economia (a dita “economia da saúde) defronta-se com particularidades que dificultam ainda mais a análise, por incluir restrições não existentes em outros setores, além das externalidades.

    Parabéns pelo post! Os economistas estão sempre buscando explicar “a razão de ser” de várias áreas, e é muito gratificante ver o quão longe a nossa ciência está conseguindo ir.

    Abraço!

  2. Patrícia Alves says:

    Bem,
    Comigo não foi diferente. Também fiz meu trabalho de conclusão de graduação sobre o tema da Economia da Obesidade. Imagino que já tenha encontrado na internet meu trabalho, caso ainda não tenha lido, recomendo que o faça! rsrsrsrs
    Fiz uma extensa revisão bibliográfica, sei que o trabalho não ficou 100%, o tema é tão fascinante que cada vez eu lia algo diferente e uma coisa puxa a outra e chegou o prazo para a entrega do trabalho e não consegui revisar da maneira como gostaria. Também achei mais complicado elaborar o trabalho com dados do Brasil, que não são muitos… Mas enfim, gostaria muito de trocar uma ideia e ajudar de alguma forma na sua pesquisa.
    Um grande abraço e ….Boa sorte!!!
    http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/25375

    • Olá Patrícia! Opa, temos muitas figurinhas pra trocar! Já fiz o download da sua pesquisa e estou lendo! Parabéns pelo trabalho! Como disse no texto, na pesquisa dei uma afunilada no tema, acabei ficando com os impactos do excesso de peso no mercado de trabalho, comentarei mais sobre isso em posts futuros.
      Abraço!
      Adriano.

      • Patricia Alves says:

        Tenho interesse sim em continuar a pesquisa, estou agora concluindo uma especialização em gestão em saúde oferecida pela fundação fiocruz para compreender um pouco mais do “lado” da saúde. Como uma boa geminiana sou “multitarefas”, também faço um MBA em finanças. Tenho interesse na prática e acho que as Ciências Econômicas têm muito á contribuir com a área da saúde. No caso da Fateconomics, a teoria econômica consegue correlacionar possíveis causas e as consequências da obesidade, mas para mim, falta a questão comportamental, cultural, ambiental, enfim, que a economia não contempla de maneira “que me convença”.
        Mas sem dúvida, o tema é fascinante!

  3. erikeoc says:

    Muito interessante o post Adriano, alias o blog esta de parabéns o “Prosaeconomica” para mim significa um ótimo conteúdo na internet. Agradeço a oportunidade de aprender com o Prosa.

  4. João H Baldo says:

    Excelente Post.
    A relação Econômica, por bem ou mal, está intensamente relacionada aos anseios individuais de cada um, por exemplo, os costumes que levam ao excesso de peso e claramente isso reflete não só no emprego, mas no leque e dotação de produtos nas importações e exportações.

    Meu parabéns pelo material. O blog como sempre está fantástico.

    Abraços.

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