Contra a maré

O mundo assiste em choque aos desdobramentos de uma tragédia pós-tsunami que já entrou pra História. As imagens são impressionantes  e têm despertado preocupações em todos que por elas passam os olhos. Aviso de antemão que não pretendo entretanto descrever nenhuma das imagens. Elas já dizem muito por si só.

Não está fácil encontrar análises econômicas da tragédia até mesmo em colunas de economistas calejados. Krugman escreveu: “Obviamente, o assunto não é minha especialidade; estou apenas assistindo às imagens horrorizado como todos.” A realidade é deveras dura, mas a vida continua, os mercados continuam a negociar e os investidores já colocam um preço sobre os danos causados. É hora de superar o susto e discutirmos o recomeço. Repensarmos nossas matrizes energéticas e começarmos a interpretar as consequências econômicas para o Japão e para o mundo.

Nos últimos instantes, procurei saber como a economia japonesa se encontrava antes que a terra tremesse e o mar revoltasse.

A Economia do Japão está prevista a gradualmente sair da fase corrente de desaceleração e retornar ao caminho da recuperação moderada.

Frase retirada do último relatório do Banco do Japão (BOJ) de fevereiro. De maneira pragmática, separo o estado da economia japonesa em alguns pontos, os dados foram retirados de relatórios do BOJ e do FMI.

1)    O Japão teve uma queda de 1,3% de seu PIB no último trimestre de 2010 (vide gráfico) devido principalmente ao enfraquecimento do consumo privado, que representa 60% da economia.

Fonte: BOJ

O BOJ previa que o país crescesse 1,8% durante este ano fiscal de 2011.

2)    O Japão vinha tendo aumentos sucessivos nas exportações (vide gráfico), reflexo de melhoras nas condições econômicas externas. Apesar das exportações líquidas, em termos da balança comercial real mostrarem sinais de recuperação, é preciso notar que o Japão tem sofrido com a insuficiência da demanda doméstica. A produção industrial vinha subindo mas as vendas no varejo continuavam caindo.

Fonte: BOJ

3)    A situação do emprego mantinha-se grave para os padrões do país, mas o grau de gravidade havia diminuído um pouco. A última taxa de desemprego estava na casa dos 4,9%.

4)    Outro problema japonês é a deflação. O principal índice de Preços ao Consumidor (IPC) para o Japão foi recolocado em 100 em 2005 e em janeiro de 2011 estava em 99,4 (vide gráfico).  Depois do estouro da bolha imobiliária japonesa, os preços estão caindo há duas décadas. A queda, na margem é quase imperceptível mas é na espiral deflacionária que mora o perigo. Faz com que os consumidores adiem as compras, as empresas vendem menos e os salários são reduzidos. Além de reduzir a arrecadação visto que a maioria dos impostos incide sobre os preços e aumentar as dificuldades para quitar a dívida.

Fonte: BOJ

5)    Falando em dívida, o tamanho da dívida nacional japonesa é outro problema. A recessão severa e o estímulo fiscal significativo empurraram para cima a dívida pública do Japão de 188% do PIB em 2007 para 218% do PIB em 2009 (vide gráfico). Relatório do FMI já projeta que essa proporção possa chegar a 250% em 2015. A Agência Mood’s já alertou hoje inclusive que o desastre natural pode antecipar o momento de uma crise financeira.

Elaboração: Prosa Econômica com dados do FMI. Obs: os valores de 2010-2015 são previsões do FMI.

6)    Além da pesada dívida nacional, o Japão tem executado enormes déficits fiscais nos últimos anos. Segundo o último relatório fiscal do FMI, o Japão incorreu um déficit fiscal de 10,2% do PIB em 2009 e espera um déficit fiscal de cerca de 9% neste ano, ou melhor, esperava. Todas estas previsões nem sonhavam com um terremoto.

Tentando resolver o problema, o governo japonês anunciou um orçamento recorde de 92,41 bilhões de ienes para o ano fiscal de 2011. No entanto, existem riscos graves embutidos nesse orçamento. É esperado que a receita fiscal japonesa seja cerca de 41 bilhões de ienes e a emissão de títulos seja algo em torno de 44,3 bilhões de ienes. Significa que a receita fiscal caiu tanto que já está de volta ao nível dos anos 1980 e, agora, a emissão de títulos será superior a receita fiscal, fato que não acontecia desde a Segunda Guerra Mundial.

Qual o impacto do terremoto e do tsunami?

O Japão terá que lidar principalmente com as influências sobre a indústria agrícola e sobre as fontes de energia. Os arrozais contaminados com a água do mar não são suscetíveis de produzir qualquer cultura de arroz nesse ano. Indústrias de outros setores permanecem ainda fechadas e temos que esperar e ver quando vão reabrir.

Em relação à energia, a geração nuclear compreende 54 usinas em operação o que corresponde a cerca de 30% da matriz energética japonesa. Pelo menos por um tempo, é razoável esperar que as indústrias sofram com blecautes e o país dependa mais da importação de petróleo.

Significa então que o Japão poderá ter alguns trimestres problemáticos até retornar à sua capacidade produtiva e para conseguir reaquecer a já insuficiente demanda doméstica. A reconstrução será dolorosa e agravará ainda mais os problemas da dívida nacional e do déficit fiscal.

Para o resto do mundo, o Japão ficará no curto prazo ainda mais dependente da importação de alimentos, os reflexos poderão ser vistos com alguns repiques inflacionários dos alimentos. Raciocínio semelhante vale para os preços de petróleo.  Na reerguida do país, dependerá também da importação de materiais como aço e alumínio.

As medidas do BOJ

O que o BOJ não pode fazer é cortar as taxas de juros. Isto porque elas já estão em 0,1%. Pode pura e simplesmente elevar a oferta monetária e adicionar liquidez. Aliás, já começou a fazer isso desde o início da tragédia.

O Japão teve várias tentativas com o Quantitative Easing (QE) ao tentar superar a “década perdida” que já estende-se por 20 anos. Nos desdobramentos do ocorrido, o governo já anunciou um salto no QE de 5 trilhões de ienes para 15 trilhões de ienes.

O desenrolar econômico só está no começo, mas não custa lembrar que historicamente o Japão é um país que já se revelou capaz de levantar essas quantias, principalmente porque a maior parte da dívida pública tem sido financiada pelos poupadores japoneses e instituições nacionais que estão habituados a fazer empréstimos ao governo. Nas cirscuntâncias atuais, o povo japonês está mais do que nunca determinado a emprestar ao governo. A certeza coletiva japonesa é de que é preciso, mais uma vez, recomeçar.

 

Sobre isto, leia também: Otimismo na tragédia?

This entry was posted in Japão, Macroeconomia. Bookmark the permalink.

5 comments on “Contra a maré

  1. Priscila Saito on said:

    Primeiramente, parabéns pelo blog, estou apaixonada!

    E sobre o último post, com as informações detalhadas da economia japonesa, só constatou o que passou vagamente em minha mente inquieta: a deflação, a dívida pública e a dependência significativa das importações vai agravar (bem como outros fatores, os quais não cheguei a cogitar) ainda mais a recuperação nipônica. Mas como conheço de perto a persistência e principalmente a gana por trabalho dos japoneses, certamente irão superar mais esse desafio. Espero muito que não seja mais uma luta contra a radiação, que já devastou esse país que tanto amo, meu segundo lar.

    Um abraço.

    • Prosa Econômica on said:

      Olá Priscila! Muito obrigado pelo elogio e pela sua divulgação do blog junto ao seu professor pelo twitter! Se a Prosa tem alguma repercussão hoje é porque existe pessoas como vc. Sempre digo, aqui quem manda são vcs!
      Sobre a situação do Japão, é de comover mesmo… Em pensar que só agora o país estava mostrando os sinais de recuperação depois de 20 anos difíceis. Sem dúvida, a primeira grande preocupação é com os níveis de radiação, passado isso, a força de vontade japonesa dará conta do resto.

      Te enviarei um email diretamente pelo blog com um link pra vc receber os novos posts por email, vc precisará clicar dentro do link do email para confirmar. É uma forma de continuarmos proseando.
      Abraço!
      Adriano.

  2. João H Baldo on said:

    Parabéns novamente Adriano o conteúdo está rico e fluente.

    Compartilho das mesmas percepções abordadas e pegando o gancho do que Priscila Saito comentou, a disciplina japonesa e o sentimento de unidade presente em seu povo serão fatores, ao meu ver, diferenciais na recuperação do país, pois o apoio popular às ações do governo fortalecem significativamente o efeito da mesma. A consciência que virão tempos difíceis, mas que podem ser superados já reflete grande diferencial.

    Um abraço.

    • Prosa Econômica on said:

      Olá João, muito obrigado! Não tenho dúvidas… O povo japonês quando é preciso reerguer seu país eles fazem o que for preciso. Chega a ser uma questão de identidade cultural. Espero que consigam também recuperar logo a economia japonesa, esta também está merecendo todos os cuidados.
      Abraço!
      Adriano.

  3. Pingback: Otimismo na tragédia? « Prosa Econômica

Leave a Reply

Se preferir, conecte-se com:

Your email address will not be published.

HTML tags are not allowed.