Roda a Roda: um Banco Central propenso ao risco

O Banco Central divulgou hoje mais cedo a Ata da última reunião do Copom. Ao ler a Ata, percebi que a instituição fez duas grandes apostas: a primeira sobre o cenário externo e a segunda sobre o interno. Ambas são apostas, e por isto são aqui tratadas de maneira semelhante à “fézinha” de um jogo do bicho.

Primeira Aposta: ‘No curto prazo, o mundo vai acabar. Com isso, a inflação não será mais problema. O Brasil se salvará.’

O Banco Central vê ímpetos negativos no ar, setor externo aleijado, e por isto a primeira aposta é de que vai dar camelo. Por que camelo? Não sei, pergunte a quem apostou. Na Ata segue que:

“Aumentaram as chances de que restrições às quais hoje estão expostas diversas economias maduras se prolonguem por um período de tempo maior do que o antecipado. Nota ainda que, nessas economias, parece limitado o espaço para utilização de política monetária e prevalece um cenário de restrição fiscal. Dessa forma, o Comitê avalia que o cenário internacional manifesta viés desinflacionário no horizonte relevante.”

Parece claro, para o Banco Central, que existem sinais inequívocos de que a economia mundial está no limiar de uma crise profunda. O BC tem motivo para trabalhar com a hipótese da deterioração da situação externa. A questão é que mesmo assim, não se sabe ainda se no curto prazo o mundo vai entrar em recessão, não está no radar da maioria dos analistas, grupo do qual a instituição pertence. Não se sabe também quais serão os reais impactos dessa crise no Brasil.

Além disso, é difícil de acreditar que se “manifesta viés desinflacionário”. Hoje, o cenário que vemos é o de uma inflação de 7,23% em 12 meses. O problema inflacionário externo pode aliviar nos próximos meses – se relevarmos quaisquer problemas climáticos nas commodities agrícolas – , mas ainda teremos de lutar contra as pressões internas, como o impacto do novo salário mínimo e o de uma inflação de serviços cada vez maior. O risco de subestimar a inflação é o de alimentar o dragão que ceifou a economia brasileira por mais de duas décadas.

Segunda Aposta: ‘Política fiscal vai colaborar.’

No cenário interno o BC acredita que vai dar porco, que representa herança próxima, lucros inesperados. Na Ata vê-se que:

“O cenário central para a inflação leva em conta a materialização das trajetórias com as quais trabalha para as variáveis fiscais. Importa destacar que a geração de superávits primários compatíveis com as hipóteses de trabalho contempladas nas projeções de inflação, além de contribuir para arrefecer o descompasso entre as taxas de crescimento da demanda e da oferta, solidificará a tendência de redução da razão dívida pública sobre produto. A propósito, cabe enfatizar que, desde o início deste ano, importantes decisões foram tomadas e executadas, e reforçam a visão de que está em curso um processo de consolidação fiscal. A esse respeito, na avaliação do Comitê, a recente revisão do cenário para a política fiscal torna o balanço de riscos para a inflação mais favorável.”

Desta forma, em relação ao corte de gastos públicos, a Ata vem alinhada com o atual discurso de Guido Mantega, de que está em curso um processo de consolidação fiscal no Brasil.

Aqui, o professor Rogério Werneck, da PUC-Rio, lembra que há menos de um ano Mantega parecia dizer exatamente o contrário “Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Essa história de dizer: ‘Faz ajuste fiscal que vai baixar o juros’ é um equívoco, é não entender o sistema de metas de inflação.” (Folha de S.Paulo, 25/10/2010).

De fato, parece que hoje o discurso é outro. A prática ainda não sabemos se vai mudar. Hoje, o que temos de concreto é um anúncio de aumento do superávit primário, garantido exclusivamente por aumentos generosos na arrecadação. Fica evidente então que o Banco Central está contando com a política fiscal, antes mesmo que tais rumores de aperto se concretizem.

Quem aposta em porco, sabe que pode dar… lambança zebra.

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