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Sua pesquisa na Prosa: uma conversa com Natacha Rodrigues

outubro 2, 2011

Para estrear o quadro “Sua Pesquisa na Prosa!” eu conversei hoje com a minha amiga Natacha Rodrigues. Natacha acaba de voltar de um intercâmbio na Howard University, em Washington. Conversamos sobre a sua viagem e, claro, sobre pesquisas!

Como foi o processo seletivo para o intercâmbio?

Natacha – Eu fiquei sabendo do Projeto Raça, Desenvolvimento e Desigualdade Social através de um cartaz que estava em um dos murais da FEA-RP, se eu não me engano um do Departamento de Economia que agora fica lá no Bloco C. O processo seletivo teve quatro etapas, cada uma consistia na análise do desempenho acadêmico, projeto de estudos e trabalho, entrevista e cartas de recomendação. Aqui tem algumas informações sobre o programa.

Por que você escolheu a Howard University?

Natacha – Bom, no programa Raça, Desenvolvimento e Desigualdade Social os candidatos tinham a opção de escolher duas Universidades para fazer o intercâmbio: a Howard University, que fica em Washington, DC e a Vanderbilt University (Nashville, Tenn). A escolha da Howard University foi principalmente pela história que ela representa, essa Instituição teve um papel importante nos Movimentos Civis na história dos Estados Unidos, tanto que grandes personalidades passaram por lá, como Alan Locke, importante filósofo da Harlem Renaissance, Ralph Bunche, primeiro afro-americano a ganhar um Prêmio Nobel da Paz, Stokely Carmichael, importante filósofo que cunhou o termo “Black Power”, além de atuar na luta pelo direito do voto dos afro-americanos entre outros grandes ícones. Por conta desse legado, a Howard University é reconhecida nos Estados Unidos como a “Harvard dos afro-americanos” e por essa razão a maioria dos alunos é afrodescendente. Como eu tenho minha formação acadêmica pregressa a FEA-RP em escola pública, foi um choque ter chegado a Universidade de São Paulo e perceber que eu era uma das pouquíssimas pessoas negras na minha faculdade. Eu queria saber como era estudar numa instituição de ensino superior em que não apenas há negros, mas em que eles são a maioria; em que o ensino não era eurocêntrico, mas tem o ponto de partida lá na África, sair um pouco dessa visão limitada que a gente tem em toda a nossa formação aqui no Brasil. Por eu ser de origem negra e ter minha pesquisa acadêmica relacionada, me identifiquei muito com a história da Howard, achei que esse intercâmbio seria enriquecedor não apenas para minha formação acadêmica, mas principalmente para minha formação pessoal.

Como é lá, fazer matéria fora é igual a fazer no Brasil? O que foi mais difícil?

Natacha – Lá era bem diferente! Eu cheguei a Washington nos primeiros dias de janeiro, era muito, mas muito frio! Principalmente para quem está acostumado com 30°C no inverno de Ribeirão Preto. Mas em termos da Universidade foi uma experiência muito diferente, em todos os sentidos, desde as pessoas até a infraestrutura da Universidade. Com relação às pessoas, foram todos muito acolhedores, como eu já afirmei a maioria dos alunos era negra, tinham muitos alunos intercambistas que vinham da África e o mais interessante de tudo eram pessoas de renda elevada. Estou falando isso porque posso contar nos dedos quantos negros eu conheço que tem uma renda elevada e que não são jogadores de futebol, cantores ou famosos em geral. Eles eram professores, donos de empresas, congressistas, enfim era possível perceber negros inseridos nas mais diversas atividades econômicas e se saindo muito bem. Isso me deu a sensação de que os negros naquele país têm maior chance ascensão social.

Com relação à infraestrutura era simplesmente absurdo comparado com os padrões da nossa faculdade. Para você ter uma idéia, a pró-aluno deles é no mínino quatro vezes maior que a nossa, os computadores eram Apple (eu não tinha nem idéia de como usá-los..rsrs), não tinha limite de impressão, tinha scanner, funcionava 24 HORAS POR DIA, enfim era bem diferente da nossa querida pró-aluno. A biblioteca tinha uns 6 ou 7 andares com várias e várias e várias estantes de livros, que em geral, você poderia ficar por 2 ou 3 semanas, além de abrir aos sábados e domingos, e também as feriados (nos períodos de provas). Eu morava em um prédio dentro do campus da Universidade, que tinha 10 edifícios de residências de alunos. Eu não sei ao certo quanto cada edifício tinha em número de apartamentos, mas eles eram enormes. (http://www.howard.edu/residencelife/reshalls/Plaza-E.htm)

As provas eram também bem diferentes, lembro de ter feito prova online e prova escrita (alternativas, preencher lacunas, responder por extenso). Outra questão que me chamou muito atenção foi o fato dos alunos se interessarem muito pelas aulas e toda hora interromper o que o professor falava para fazer alguma colocação, era nítida a necessidade de interação professor-aluno, não eram aulas maçantes, eram bate-papos. Eu adorava! Apesar do trabalho que isso exigia, pois para poder ter essa troca com o professor era necessário ler todo o material para aquela aula, além de tentar trazer algum paralelo com o Brasil, eles cobravam muito que eu buscasse alguma relação entre o tema da aula e o Brasil e levasse para eles. E isso demandava horas de leitura e Google tradutor!…rsrsrs

O mais difícil para mim foi me adaptar a comida, que em geral era chinesa, mexicana ou jamaicana. Pois eu já tinha enjoado do Mcdonalds na segunda semana em que estava lá. Mas depois que eu descobri “o bandejão”, que apesar de custar $8,00 era um restaurante de luxo comparado ao nosso, e também com o passar do tempo ficou tudo mais fácil, na verdade eu acho que eu fui me acostumando.

O grande apuro que eu passei foi ter ficado doente. Eu fiquei muito, mas muito doente, por conta do frio e da má alimentação, logo no começo de fevereiro. Foi uma longa semana para eu me recuperar, mas a Universidade tinha um hospital e eu também tinha convênio médico, então ficou tudo mais fácil de ser resolvido. Mas de qualquer forma, é muito ruim ficar doente fora de casa.

Você já fazia pesquisa aqui antes de viajar?

Natacha – Sim, eu fazia pesquisa na área de História Econômica com a Professora Maria Lúcia Lamounier. Eu fiz duas pesquisas a primeira entre 2009 e 2010 intitulada: “Café, Ferrovias e Mão-de-obra em São Paulo, 1860-1890” e a segunda em 2010, que foi interrompida por causa do intercâmbio, intitulada: “Café, ferrovias e mão-de-obra: Ribeirão Preto (1870-1910)”.

Além das matérias, sobrou tempo para participar de alguma outra atividade na faculdade? Lá em Howard você desenvolveu alguma pesquisa?  

Natacha – Bom, além das matérias eu fiz um curso de inglês no Instituto de Línguas. Mas usei a maior parte do meu tempo livre para viajar mesmo.

Lá iniciei uma pesquisa, que inclusive será o tema da minha monografia, que é muito relacionada às pesquisas que eu já vinha atuando aqui no Brasil. Eu estudei bastante sobre a South Carolina Company, que foi uma ferrovia grande e importante e que tinha a peculiaridade de ser a maior detentora de escravos em seu poder. Poucos sabem, em geral só quem estuda sobre o assunto mesmo, mas no Brasil era proibida a utilização de escravos na construção de ferrovias, já nos Estados Unidos, era muito comum que eles fossem os construtores das linhas férreas, tanto que a South Carolina Company chegou a ter os seus próprios escravos. Ressalto que isso se deve ao fato deles serem muito disputados com os fazendeiros, principalmente na época de colheita da safra, que no caso americano era de algodão. Enfim, o objetivo da minha pesquisa, que ainda está em andamento, é analisar as semelhanças e diferenças entre a South Carolina Company e a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro.

Quer participar do “Sua Pesquisa na Prosa”? Saiba aqui.

2 Comentários leave one →
  1. helder permalink
    outubro 2, 2011 6:47 pm

    parabéns natacha e adriano,ótima entevista!

  2. outubro 3, 2011 10:09 pm

    Parabenizo o blog pela brilhante iniciativa e também a Natacha que experiência incrível!!!

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