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Sua pesquisa na Prosa: uma conversa com Dejanir Silva

novembro 8, 2011

Ele veio de Mauá. Está hoje no MIT. Dejanir Silva é seu nome, fez graduação e mestrado em Economia na USP e, neste semestre, foi chamado para fazer doutorado em Harvard, MIT, Yale, Columbia, Chicago e Stanford. As tops Harvard e MIT chegaram a disputá-lo. É com esse exemplo de educação e muito esforço que eu converso hoje.

Dejanir, honestamente, tem um muita gente que sonha ser parecido com você. Conta pra gente, de onde vem tanta motivação?

Dejanir – Bem, uma resposta honesta é não sei bem ao certo. Acho que alguns fatores me ajudaram a seguir e continuar nessa trilha que eu escolhi. O fato de trabalhar durante o dia e ter que me deslocar para a USP, por incrível que pareça, acabou me ajudando. Isso me lembrava o tempo todo que se eu não me esforçasse eu ia ficar para trás. Enquanto eu tinha amigos que pegavam as melhores matérias, seja de manhã ou à noite, e tinham o dia todo para se preparar, eu não tinha esse luxo. Então, basicamente, eu aproveitava cada minuto que eu tinha para estudar: caminho até o trabalho ou até a USP, hora do almoço e por aí vai.

A outra coisa é ter curiosidade acadêmica. Tinha muita coisa que eu lia porque eu gostava, porque eu tinha vontade de saber. No fim, isso é meio que complementar com esse lance de motivação. Se você não gosta de economia, fica muito difícil seguir uma carreira. Como um professor me disse, se não gosta de economia, carreira acadêmica é uma péssima idéia, não vale a pena.

Você entrou na USP, e aí, quando veio o primeiro contato com pesquisa?

Dejanir – Na verdade, eu não tive tanto contato direto com a pesquisa durante a graduação. O trabalho não permitiu que eu fizesse uma iniciação científica ou algo do tipo. Mas acho que mesmo durante a graduação eu comecei a minha transição em direção ao contato mais direto com economia moderna. Primeiramente, eu comecei a ter contato com alguns livros de pós-graduação: o Microeconomic Analysis do Hal Varian (o livro da pós dele, não o da graduação) foi o primeiro, e acabou servindo de preparação para a ANPEC. Hoje em dia, um bom curso de graduação em micro é bem próximo ao livro de pós do Varian do final da década de 80.

Mas o meu contato mais direto com pesquisa na graduação foi quando eu comecei a me interessar pelo trabalho de Daron Acemoglu, professor do MIT. Ele tem uma série de trabalhos sobre o impacto de instituições sobre crescimento econômico. Acredito que esse foi o trabalho que realmente fez o Acemoglu famoso na profissão. Eu acredito que eu li vários papers dele sobre o tema na época, além do livro Economic Origins of Democracy and Dictatorship com James Robinson.

Finalmente, no último ano de faculdade eu tive contato com as notas de aula do Acemoglu, que um pouco depois virou o livro dele Introduction to Modern Economic Growth. Apesar de chamar ‘Introduction’ esse é um livro de mais de 1000 páginas, que cobre desde os resultados clássicos no tema, até coisas bem modernas. Eu confesso que eu fiquei um bom tempo me divertindo com esse livro…

Naturalmente, quando fui escrever a minha monografia eu tinha que seguir na linha de crescimento econômico. Eu me deparei com uma pergunta ligada ao processo de crescimento econômico brasileiro: por que o preço relativo de máquinas e equipamentos subiu tanto no Brasil numa época em que caiu o preço do capital no resto do mundo? Qual o impacto isso teve sobre o crescimento brasileiro? Qual a conexão com as políticas econômicas adotadas no Brasil nesse período? No final da contas, eu tinha essa pergunta mas não tinha o tempo ou o ferramental para respondê-la.

Acabei lidando com uma pergunta relacionada, sobre o papel que o preço relativo do capital tem no desempenho econômico dos países e sobre a importância relativa de aumentos de produtividade e acumulação de fatores.

Depois da graduação veio um mestrado também na USP. Você manteve a linha de pesquisa?

Dejanir – Em um certo sentido sim, minha dissertação foi em crescimento econômico. Ao longo do mestrado, no entanto, eu acabei estudando coisas bem distintas. Fiz cursos em economia monetária, finanças, econometria, desenvolvimento e etc. Acho que uma visão ampla da profissão é algo importante hoje em dia, quando ideias de trade são usadas para entender investimentos em filhos, ou tópicos de desenvolvimento são estudados em ambiente macro.

Mas, a minha dissertação acabou sendo sobre tópicos relacionados a minha monografia, sobre como comércio internacional pode ter impactos sobre o preço relativo do capital, produtividade e crescimento econômico. Acredito que essa pode ser uma forma de entender, por exemplo, o papel do II PND sobre o processo de desenvolvimento brasileiro.

Acredito que um dos capítulos mais impressionantes da sua trajetória acadêmica é o fato de após terminar seu mestrado você ter sido cortejado pelas melhores universidades americanas. Além de um bom histórico, quais requisitos você considera fundamentais para ingressar nestas faculdades?

Dejanir – Essa é uma pergunta difícil de responder, o processo de seleção tem muito ruído, mas posso passar a minha impressão de como o processo funciona. Histórico é importante, mas não é tudo. Cartas de recomendação são bem importantes. Aqui eu acho que ter um genuíno interesse sobre os tópicos é bom, mostrar um pouco de maturidade no entendimento da profissão e comprometimento são importantes também.  Esse é o tipo de coisa que não aparece em histórico, e acaba sendo transmitida nas cartas.

Se o interesse é entrar em uma das escolas mais competitivas, como MIT, Harvard ou Stanford, acho que é importante ter um perfil geral bom. Ter um comprovado bom domínio de matemática é bom, bom desempenho acadêmico, boas cartas e contato com pesquisa é algo importante.

Hoje você está cursando o doutorado no MIT. Como foram estes três meses de MIT? Tem sido possível dar continuidade nas suas pesquisas do Brasil ou você mudou de área?

Dejanir – Bem, por enquanto, não tem espaço para pesquisa, basicamente você foca nas matérias básicas. Bem, esses meses de MIT tem sido de muito trabalho, mas tem valido a pena. Ter aulas com caras como Daron Acemoglu, Bengt Holmstrom e Stephen Ross é realmente um privilégio. Além disso, meus colegas de turma são todos muito bons, é muito bacana poder dividir tudo com esses caras.

E sobre pesquisa, acho que existe bastante chance de eu trabalhar com coisas diferentes. Tenho muito interesse nas coisas do Iván Werning sobre política fiscal ótima, acho que é um tema super relevante, ainda mais hoje em dia. Além disso, acho que questões relacionadas as interações entre finanças e macroeconomia, esse é um tema realmente muito excitante e que atrai muito interesse atualmente.

Leia também a matéria “Não sou especial, eu estudo” sobre Dejanir.

Quer participar do “Sua Pesquisa na Prosa”? Saiba mais aqui.

2 Comentários leave one →
  1. André permalink
    novembro 17, 2011 9:33 pm

    Muito boa a entrevista.Parabéns ao Dejanir!

Trackbacks

  1. Calouros, pay attention! As 3 mentiras que te contaram no bar da esquina « Prosa Econômica

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