Europa: o que 2012 reserva

Escuro, meio sombrio, sem fogos e até um pouco sem graça, foram os relatos do meu irmão sobre a virada do ano em Paris, cidade que todo turista espera encontrar luz. A verdade é que, para os europeus, não há o que comemorar. 2011 foi pior que o ano anterior e as coisas não parecem animadoras para 2012, tendo em vista que é quase certo que a Zona do Euro mergulhe em uma nova recessão.

Saiu hoje um documento com as previsões de crescimento da Economist Intelligence Unit para este ano. Como se vê no gráfico logo abaixo, as economias europeias são destaque entre os países em que é esperada alguma contração. (O Sudão lidera a lista dos lanterninhas porque, segundo o relatório, o país perdeu três quartos das suas reservas de petróleo para o Sudão do Sul na separação em julho.)

Previsões da European Economic Forecast sobre o nível da dívida-2011 em relação ao PIB projetam um aumento do razão da dívida-PIB em 2011-12 para quase todos os países da eurolândia. Uma inversão da evolução da dívida-PIB com base em cortes no déficit é improvável no curto prazo, porque é extremamente custosa e nem eficaz (estimativas da OCDE indicam que a austeridade, caso implementada, levará a uma nova recessão, que por sua vez pode levar a uma maior razão dívida-PIB do que antes).

Passado o ano, fica mais fácil fazer o balanço e ver com mais precisão o que ocorreu de errado. A crise é complicada, porque combina crise financeira com questões de governança sob difíceis condições macroeconômicas. A verdade é que os economistas não convergiram em um diagnóstico comum, que sem dúvida contribui para muitos ruídos entre os formuladores de políticas. Por exemplo, porque a crise permanece tão arraigada na Zona do Euro? Argumentos em torno da ausência de disciplina fiscal e o risco moral são os mais consensuais. Mas existe uma boa dose de erros de política, justamente porque não havia e nem há um diagnótico preciso sobre a crise, o que favoreceu o surgimento de teses enganosas.

O professor de economia Charles Wyplosz, CEPR Research Fellow de Gênova, diz, por exemplo, que culpar a especulação do mercado ou as avaliações de risco das agências de rating ou se preocupar com os riscos inflacionários são erros comuns. Austeridade elevada e redução “voluntária” da dívida também não vai resolver nem no curto nem no longo prazo. Um artigo do economista traça uma guisa de algumas preocupações que o ano passado nos deixou:

“A visão surpreendente de políticos aparentemente dominados pelos problemas que eles enfrentam é, sem dúvida, o aspecto mais preocupante da crise. Há pouca dúvida de que as crises financeiras são eventos complexos. Elas exigem uma compreensão dos mercados financeiros e de equilíbrios múltiplos. Ninguém espera que os políticos, espontaneamente, dominem este tipo de conhecimento, mas esperamos que eles são devidamente informados e que suas propostas são cuidadosamente avaliadas antes de serem apresentadas. Infelizmente, este não foi o caso, e a questão é por quê.”

Como forma de pôr fim à crise, o economista enumera condições fundamentais a serem satisfeitas. Primeiro, os governos que perderam o acesso ao mercado devem ser socorridos. Segundo, esse resgate deve ser feito pelo Banco Central Europeu (BCE), porque as quantias necessárias são a perder de vista. Aqui, o professor explica que:

“O valor total da dívida pública da Zona do Euro é de cerca de €9 trilhões. O Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF) pode mobilizar, no máximo, €200 bilhões, e o FMI pode colocar uma quantidade similar. “Amigos” como a China não vão acrescentar muito. Só o BCE pode mobilizar qualquer quantia de dinheiro que se tornar necessária.”

Terceiro, a recapitalização dos bancos deve ser feita, se possível antes que o default aconteça. Por fim, pensar em risco moral exige rápido estabelecimento da disciplina fiscal na zona do euro. O professor Charles é cético ao dizer que a trajetória traçada pelas autoridades até agora é pouco provável que leve a algum lugar. Como alternativa para um novo acordo ele sugere a “Disciplina Fiscal Board” (através da criação de um órgão independente para examinar o quadro de política fiscal de cada país membro) e regras de garantia impostas pelo BCE, que ajudariam, mas sem dúvida não são implementadas do dia pra noite.

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