A viagem de Delfim

Por favor, não me entendam mal! Eu respeito e admiro muito o Ministro e Professor Delfim Netto, porém não pude deixar de notar que o mesmo concorda com uma hipótese sobre o Euro sem nenhum suporte da teoria econômica, mas que surgiu apenas de discursos políticos tentando salvar a moeda única. Seu artigo disse o seguinte sobre a crise atual europeia:

A grande crise (a tragédia dos 27 milhões de desempregados e a instabilidade política) está longe de terminar, mas a percepção do custo insuportável parece ter alcançado o cérebro dos europeus. Em meio ao tumulto financeiro, o abandono do euro seria simplesmente a desintegração da Europa, um retorno àquele distanciamento entre nações, umas desconfiando das outras. Imagine o que seria o renascimento da ideia de que os regimes autoritários são mais eficazes para resolver as crises, o que num prazo mais longo conduziria ao encontro de uma tragédia muito maior do que a que muitos países estão sofrendo para salvar a moeda única.

O Ministro preza tanto a moeda única que se permite substituir qualquer argumento científico/econômico por uma “viagem”, no mínimo, pouquíssimo provável. Por que não usar argumentos como a robustez do comércio exterior ou qualquer outra coisa – não consigo dar muitos exemplos, pois como deixei claro neste post sou contra a moeda – ao invés de colocar Hitler na história?

E eu sou apenas uma formiga dentre gigantes que pensam a mesma coisa, como Krugman, que disse: (na íntegra aqui)

“(…) as pessoas que obrigaram a Europa a adotar uma moeda comum e que estão forçando Estados Unidos e Europa a adotarem medidas de austeridade – não são tecnocratas. Pelo contrário, são românticos irrealistas.

E, com certeza, trata-se de uma classe de românticos peculiarmente maçantes, que se expressam numa prosa grandiloquente em vez de poesia.

E as coisas que exigem em nome das suas visões românticas são cruéis, envolvendo enormes sacrifícios dos trabalhadores e suas famílias.

Mas Persiste o fato de que essas visões são impelidas por sonhos de como as coisas deveriam ser e não por uma avaliação fria da maneira como as coisas realmente são.

E para salvar a economia mundial precisamos derrubar esses românticos perigosos dos seus pedestais.

Comecemos com a criação do euro. Se acha que este foi um projeto motivado por um cálculo cuidadoso dos custos e benefícios, você está muito mal informado.

A verdade é que, desde o início, a marcha da Europa na direção de uma moeda comum foi um projeto questionável sob qualquer análise econômica objetiva. As economias do continente eram muito discrepantes para funcionarem sem percalços com uma única política monetária para todas e, muito provavelmente, condenada a experimentar “choques assimétricos” em que alguns países entrariam em colapso, ao passo que outros prosperariam. E, ao contrário dos Estados do território americano, os países europeus não fazem parte de uma única nação com um orçamento unificado e um mercado de trabalho ligado por uma linguagem comum.”

Adicionalmente, o professor Bruno S. Frey, da Universidade de Zurique diz que o fim do Euro pode ser visto como uma oportunidade da Europa evoluir em direção a um futuro melhor, além disso, fala sobre o argumento de que o Ministro Delfim diz concordar como sendo um exemplo de “careless statements” e dizendo, o que para mim parece ser muito mais sensato, que essa visão de uma provável guerra entre, especialmente, França e Alemanha, é um sério erro, já que a criação do Euro só foi possível devido ao clima de paz por muitos anos entre os dois países.

Em outro artigo, o ministro demonstra (o que ninguém tem dúvida), que sabe exatamente o que está acontecendo, mas mesmo assim não usa outro argumento para defender sua posição do que a união das nações. Desculpe ministro, mas eu adoraria saber seu real argumento por trás desse argumento, no mínimo, questionável.

Se fosse assim deveríamos unificar a moeda dos países do Oriente Médio, quem sabe assim não acabamos com uma guerra milenar?

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