A Solidão na ilha

“[Na América Latina] onde as estirpes condenadas a cem anos de solidão tenham, enfim e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra.” (Gabriel García Marquez)

Internet a 256k de velocidade. Computadores com arquitetura de processamento da década de 1990. Uma fila de jovens dispostos a pagar 5 pesos por 1h de acesso.  É um custo elevado se considerarmos que o salário médio é de 385 pesos. Essa é a realidade que enfrenta quem quer ser internauta em Cuba.

As autoridades do governo põem a culpa do atraso na conectividade ao embargo americano, fato que impossibilitou a ilha de conseguir instalar uma ligação de fibra ótica com servidores de outros países do Caribe e da América Latina. Desde 1996 o acesso à WWW é feito por um satélite da Venezuela. Condição que deixou a conexão cara e limitada.

Ocorre que em 2011 foi feita uma ligação submarina de cabo de fibra ótica bidirecional entre a Venezuela e Cuba, entretanto a promessa em se aumentar em 3000 vezes a velocidade ainda não foi cumprida. Agora o governo culpa a própria infraestrutura telefônica da ilha. E a melhor conectividade ainda fica restrita a órgãos públicos e empresas.

A população segue resignada à solidão imposta pelo regime autoritário. Rebentos de uma realidade desaforada, com insuficiências de recursos para tornar a vida acreditável. Essa falta de acesso à internet é explicada pela imperícia do governo em fornecê-la ou o irmão do Fidel teme que dar acesso à informação livre, sem restrição colocará em sério risco a continuidade da ditadura?

O fato é que tecnologias como a internet são altamente benéficas porque introduzem competição no mercado das ideias. Hayek, que nos anos 50 não previa a criação da internet já enfatizava que o conhecimento livre e irrestrito era fundamental para forjar o sistema de escolhas individuais.

Nesse sentido, a internet tem o poder de derrubar governos opressivos, vide primavera árabe. O fato é que contrapor um governo de decisão centralizada com um universo de informação descentralizada leva inevitavelmente ao questionamento. A informação que emerge com a tecnologia gera liberdade e autonomia para agir. O problema é que governos opressores não concordam em tirar das trevas seu rebanho.

Essa situação da ilha de Cuba remete ao fio condutor da obra clássica de Gabriel Garcia Marquez. Os habitantes do arquipélago cubano estão condenados à mesma condição dos Buendía em Macondo: “Estirpes condenadas a cem anos de solidão não tem uma segunda chance sobre a terra.”

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6 Responses to A Solidão na ilha

  1. Henrique (Economista) says:

    Infelizmente é a população de Cuba que vem pagando este alto preço, de uma briga simplesmente politica entre dois paises. Penso que para acabar com isso basta o bom senso entre os dois governos e podemos ter a certeza que o mundo ganharia com o fim a este embargo, pois Cuba é um país maravilhoso e claro o turismo na ilha com certeza aumentaria levando renda aquela população esquecida pelo governo.

  2. Antônio Galdiano says:

    Ainda acho que o efeito da internet sobre a vida política um instrumento superestimado. Ao mesmo tempo em que temos “A informação que emerge com a tecnologia gera liberdade e autonomia para agir”, 1) não conseguimos observar os efeitos políticos nos países com largo uso de internet em escala suficiente para promover qualquer alteração mensurável, 2) o conhecimento “per se” não gera ação, a despeito da possibilidade daquele subsidiá-la e 3) a internet, assim como a televisão, virou um grande negócio: nesse sentido, não creio que o uso corriqueiro da internet se preste a esse tipo de ação (particularmente, a única coisa que vi correlacionado a ação política na internet foram as manifestações contra o SOPA e o PIPA – manifestações inclusive amplamente subsidiadas pelas grandes corporações prejudicadas). Essa superestimação, creio, funciona muito mais como torcida de alguns para que a internet seja um instrumento efetivo e democrático de manifestação política, mas nada do que observo sugere um destino diferente que o da televisão (função de entretenimento para grande parte dos usuários). Até porque ” Uma fila de jovens dispostos a pagar 5 pesos por 1h de acesso” não parece ser o perfil de qualquer contestador (ao menos não parece verossímil a mim).

    • “Na distância que separa o pensar do agir e o falar do fazer existem mais coisas do que sonha nosso débil autoconhecimento.” Conhecer de fato não implica em agir. Mas a liberdade e a autonomia são construídas com o conhecimento e isso a internet proporciona largamente. A ciência econômica precisa da capacidade de escolha para funcionar. Se não houvessem desejos e os recursos não fossem escassos, não haveria problemas econômicos. Os jovens precisam ter a liberdade de fazer o que quiserem com a internet, seja para mudança social ou para atualizar status no facebook, porque gosto não se discute.

      Eu acho que a internet se distancia muito da tv. Existe entretenimento, mas a alimentação da internet ocorre de forma descentralizada, a tv é uma organizaçao gerenciada pelos donos e orientada pelos gostos dos telespectadores.

      • Antônio Galdiano says:

        De fato, a alimentação de dados na internet é descentralizada (não fosse assim não teríamos esse espaço), mas ainda assim está sob estrutura de mercado com escassezes (custo real ou de oportunidade dos demandantes de informações e o custo real ou de oportunidade de quem fornece-as) e preferências, só que em uma estrutura menos monopolizada na produção da informação (nem tanto quanto á distribuição da informação – vide google). Sabemos também que, como negócio, os canais da internet dependem de propaganda para funcionar ou simplesmente impõe-se um custo de oportunidade aos que a alimentam com informações. Sabemos ainda que todos os fornecedores de informações estão sujeitos à concorrência. O que foi questionado, pontualmente, foi a capacidade de a internet ter efeito significativo sobre a vida política simplesmente por considerar que a vida na internet reproduz boa parte da vida cotidiana, a qual não nos envolvemos, enquanto povo, com discussões políticas.
        O ponto crucial é muito simples e provavelmente concordamos quanto a ele: em sociedades com uma escassez muito grande de informações, vide Cuba, todo e qualquer efeito que traz a nova informação é maior que aos países em que é ampla a divulgação daquelas (retornos decrescentes); e que os efeitos políticos políticos gerais das informações fornecidas por internet são não só fracos como são superestimados.
        Não sei se internet é a melhor forma de se fazer valer seus direitos, fazer reivindicações. Só acho que a internet é um ambiente de socialização não mais propício a tais intentos que os demais já disponíveis. Nesse sentido, não creio que a liberação de conteúdo de internet tenha efeitos políticos maiores que a liberação total de conteúdos jornalísticos. O ponto é que talvez estejamos gastando esforços em defender algo não tão incisivo qual a mídia livre, e nesse sentido sendo ineficientes quanto à promoção da liberdade.

        DE FORMA ALGUMA eu defendo a restrição do lazer na internet, foi somente um julgamento pontual sobre os efeitos políticos que a internet produz.

        Quanto a frase usada “Na distância que separa o pensar do agir e o falar do fazer existem mais coisas do que sonha nosso débil autoconhecimento.” gostaria de saber o autor, se possível.
        Uma que costumo usar no mesmo sentido é “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.”, de Karl Marx.

        • Eu concordo com tudo que disse em seu comentário. De fato eu não sei a eficácia da internet fazer valer nossos direitos. A citação é de Eduardo Giannetti em “Vícios Privados, benefícios Públicos?”

          Obrigado pela sua participação, o debate é sempre importante. Abraço.

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