Mentira tem perna curta também na economia

Recentemente a The Economist anunciou que por não acreditar nos dados oficiais argentinos sobre inflação deixará de publicá-los. Em seu lugar, passarão a figurar os números calculados pela empresa PriceStats, sediada nos EUA, longe, portanto, da interferência do governo de Cristina Kirchner.

De acordo com informações do Estadão, a discrepância é enorme. Oficialmente, a Argentina fechou 2011 com uma inflação de 9,7%, menos da metade da apontada pela PriceStats (24,4%).

Mas por que um governo mentiria sobre tais dados? Uma das razões para tentar “maquiar” essas informações é que uma inflação mais alta no presente tende a contaminar as expectativas dos agentes sobre o futuro e, como consequência, gerar novos aumentos de preços.

Essa “trapaça” funciona? No curto prazo, pode até ser que sim. No entanto, enganar muita gente por muito tempo é difícil. As pessoas sentem no bolso mudanças no poder de compra em decorrência de variações nos preços e, ao comparar com os números oficiais, começam a ver que há algo de errado. Aí, além de se tornar praticamente inócua, tal medida passa a ter um agravante, a falta de confiança nos dados apresentados. Ou seja, na economia também vale o ditado de que mentira tem perna curta.

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6 Responses to Mentira tem perna curta também na economia

  1. Antônio Galdiano says:

    Não estaria o governo brasileiro incorrendo em erro ao estimar a inflação futura da forma como está sendo feito do que realmente há possibilidade de ela estar? O BC alega sistematicamente que o governo tem promovido a contenção dos gastos, mas isso é verdade? Os gastos públicos têm realmente caído enquanto proporção do PIB (se alguém souber onde consultar isso e fornecer a informação eu agradeço)?
    Ainda que esteja havendo algum corte de gasto, o perfil do gasto melhorou ou piorou?
    Creio que nossa política monetária possa estar sendo direcionada aos interesses de curto prazo do governo em vez de defesa do valor da moeda, e nesse sentido, logo poderemos estar discutindo sobre perda de credibilidade da autoridade monetária do Brasil.
    No caso argentino, verificamos que a comunidade internacional entende que o governo argentino esteja agindo de má-fé, disseminando informações inverídicas e pagando o preço por isso. Mas e o caso brasileiro? Não devemos nos preocupar? Vocês confiam na independência dessa atual gestão do BC? Gostaria de saber a opinião dos postantes do “prosa” sobre isso.

    • Eu acredito na autoriadade monetária brasileira em termos de credibilidade dos dados, mas eu nao acredito na independencia dessa gestão do BC. Tanto é que quando foi anunciada a inflação brasileira no teto da meta, o governo emitiu uma carta ao mercado comemorando. Sendo que nos últimos anos o BC sempre havia entregado a inflaçao no centro da meta, sem alarde. Isso demonstra o viés político da gestao da presidenta.

      Sobre os gastos, eu nao tenho acompanhado, mas quando o cobertor é curto; puxa de um lado, descobre de outro.

      • Antônio Galdiano says:

        Tenho forte desconfiança quanto a política monetária desencadeada pelo BC na gestão do Tombini.
        Quanto aos gastos, tudo que vi no noticiário foi a respeito de redução do nível de investimentos do governo, enquanto que não observamos nenhum movimento significativo do governo para buscar ganhos de eficiência do gasto público ou no trato da coisa pública. A população é passiva à má destinação de recursos e se dá por satisfeita com o crédito relativamente farto. Estaria o Brasil condenado a ser um Estado Paternalista? É esse o desejo “ad eternum” da população ou uma posição momentânea?
        Nossas necessidades são diversas, mas seria o governo quem deveria saciá-las? Será isso a visão que o brasileiro toma como ideal?
        Parece-me que tanto a destinação dos tributos quanto a gestão monetária são incompatíveis com a visão de busca de eficiência estatal e quanto à visão de longo prazo, percebo muito discurso e pouca ação. Nesse momento de relativa bonança, não seria a hora de pensarmos seriamente a educação e tomarmos atitude nesse sentido a fim de nos prepararmos para momentos mais difíceis que inevitavelmente virão?

        • Eu endosso tudo que disse. Estamos deixando passar um momento muito raro em nossa história economica. De fato somos uma ilha de prosperidade num mar de turbulência. Temos a perspectiva da copa e olimpíadas. É uma excelente hora para deixar de ser o país do futuro e subir a escada, mas para isso o governo tem que se debruçar em reformas. Aí a coisa enngrossa. Por que mudar time que tá ganhando? Seria bom diminuir o tamanho do governo. Deixar o livre mercado funcionar!

          A abundancia de credito ao consumidor dá uma falsa sensaçao de segurança, Poucos percebem que a sociedade brasileira está descontando recursos a uma taxa elevada para ser perdido em consumo, sem impacto algum no PIB potencial.

          Os déficits de b. comercial tá sinalizando que nossas mercadorias perderam competitividade. E se o BP colapsar? Sim existem reservas. Mas enfrentar uma crise de cresimento estando tão perto de ser um país macroeconomicamente robusto irá frustar.

    • Jorge says:

      Autonomia completa do BC é algo difícil. Na minha opinião, o Brasil ainda está bem longe do caso argentino. No entanto, não colocaria a minha mão no fogo pelos dados do IPCA de 2011, que registrou alta de 6,5%, no teto da meta (quando o mercado esperava 6,55%). Nesse caso, mesmo que tenha havido uma “ajudinha” para não romper o teto, ela foi de uma magnitude incomparavelmente menor do que no caso argentino.

  2. Pingback: Contabilidade criativa, Jabuticaba, Brics e Gimme MORE: o que estamos lendo « Prosa Econômica

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