O acionista e os dividendos.

Em 01 de março de 1923 morria em Petrópolis – RJ, Rui Barbosa, uma figura controvertida da história brasileira. Foi político, jurista, escritor e fez uma breve incursão no campo da economia. Defensor do liberalismo político defendeu o federalismo na primeira Constituição da República. Mas, no campo espinhoso da economia política não há opinião comum entre os estudiosos do período. Para alguns agiu certo na questão da emissão monetária, para outros ele criou uma quimera que ficou mais intrincada no encilhamento que teve de ser resolvida no funding loan de 1898. Abaixo um conto cujo protagonista era um grande fã do Rui.

Nosso herói aparece para o mundo no final do segundo império. Momento peculiar da nossa economia. Com a proclamação da República e a transição para o trabalho assalariado, a multiplicidade da emissão monetária se fez necessária. A reforma monetária ocorreu em janeiro de 1890. Rui Barbosa não quis nem saber. Mandou o M1 para fora da escala do gráfico observada até 1889. A economia respondeu e prosperou. Rui nem se preocupou com a crítica dos metalistas. Para ele a falta de numerário deixava a economia do Rio de Janeiro em apuros na época da safra do café, e só aos poucos o dinheiro ia voltando para ter aos bancos da capital. Desse jeito o acionista, nosso herói, não conseguia recursos para suas emissões acionárias e ficava em sérios apuros.

De certa forma Rui salvou sua pele. É graças ao grande jurista e orador que se popularizou no Brasil a utilização do papel como moeda, ou seja, o aceite de moeda fiduciária inconversível e com lastro em título de dívida. Com tantos papéis circulando, nosso querido acionista, atrás dos dividendos, que na sua visão eram os primeiros rebentos do capital, entra nesse negócio dos papéis. Compra ações na bolsa e enceta empresas com o único fim de recolher dividendos.

Seguindo o exemplo do sapiente Rui, nosso herói começa a procurar sócios, e, já que os bancos integralizavam 1/3 das emissões monetárias em forma de capital, ele decidiu que comprar ações de empresas que não integralizavam o capital era uma boa. O governo dava o exemplo, o importante era descontar os cupons que vinham na ação escritural. Seria até lúdico, pensava ele, participar das reuniões dos acionistas mensalmente, e sacar os dividendos, é claro. Ele só comprava ações que retornavam pelo menos 8% do capital ao ano, caso contrário ele ficaria no negócio dos imóveis, que muito enriquecera seu pai, um arrivista confesso.

Tudo são papéis, pensava consigo o nobre acionista. Ele passou inclusive a ser um apreciador dos discursos do Rui Barbosa. Passou a desacreditar no ouro como reserva de valor. Já que a economia crescia mais que a oferta do ouro e da prata, não havia por que segurar a emissão monetária, era isso que dizia o Rui. Nosso acionista subscrevia essa ideia. Passando pela Rua Direita e pela praça XV de Novembro escutava o pregão: “- O fundo é variável, mas certo.” E corria para fechar mais um negócio, e seguia para seu sobrado em Botafogo agitando os papéis entre os dedos.

O velho baú do seu pai que antes era cheio de jóias, ouro e utensílios de prata tinha dado lugar a uma pilha de ações ordinárias, debêntures. Nosso rentista havia até contratado um mancebo para auxiliá-lo na administração dos seus papéis. O jovem acabara de voltar de Coimbra. Mas não fora estudar as letras latinas nem a letra da lei. A jurisprudência estava em baixa. A moda agora era estudar a engenharia, a tábua de cálculo e as regras das finanças derivadas diretamente da cartilha dos Rothschild. Sua função era ler as notícias na Gazeta de Notícias, atentar às datas dos rateios e dar conselhos de novos papéis.

Seu jovem financista o alertara uma certa manhã que as emissões estavam comprometendo o orçamento. Estava previsto para o ano de 1891 um déficit boçal. No que nosso herói respondeu: “- Por que meter o déficit entre as minhas preocupações se não tenciono cobri-lo? Se houver saldo, viria o Estado dividi-lo comigo? Preocupe-se com os dividendos.”

Em meados de janeiro Rui sairia da pasta da fazenda. Mesmo com a ausência de seu ídolo e mestre nas finanças, o acionista continuou convicto de que os papeis ainda eram a melhor escolha para aplicar os frutos do seu capital e continuou a realizar negócios na bolsa durante todo o ano.

Em face ao comportamento pessimista do seu conselheiro nas finanças, dispensou-o e colocou em seu lugar um antigo escravo, que agora de sapatos havia aprendido a ler e calcular. Em novembro desse ano de muitos negócios, foi ao senado assistir ao discurso do Rui. Saiu de lá com a impressão de que a baixa do câmbio não tinha relação com o abuso do papel. Era culpa dos ventos que soprava da terra da Rainha Vitória.  Na ultima reunião acionária que ele participou nesse ano, ninguém se preocupou com o câmbio em torno de 12 pence por mil-réis.

Mas como em toda história de heróica, essa não acaba bem. O ano de 1892 foi deveras ruim para nosso acionista. Ele que havia comprado uma vultosa quantia de ações da Companhia Geral das Estradas de Ferro na baixa, ficou perplexo em saber de sua falência logo no começo desse ano, deixando 314 mil contos de déficit para os acionistas. E as colheitas minguaram. Nem mesmo as primeiras flores do capital, que são os juros, floresceram. A inflação comia seus ganhos reais, em retrospectiva ele agora acreditava que debêntures a 4% eram um péssimo negócio com a subida dos alugúeis. Mas já era tarde. Seus sócios sumiram da praça. O pregão ficou taciturno. O câmbio bateu 8 pence. Uma catástrofe. Nosso herói tirou a gravura do Rui de sua estante, colocando-a dentro do baú, junto com os papéis que agora voltaram a ser somente papéis, já um pouco amarelados.

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