O caso dos sacos plásticos

Os supermercados são assunto de discussão aqui no estado de São Paulo. Isso sucede porque eles tiraram de circulação a sacolinha plástica. Com o mote “vamos tirar o planeta do sufoco” a APAS (associação paulista de supermercados) decidiu que seus afiliados deveriam parar de fornecer os sacos plásticos. Pelo que eu entendi, não existe uma lei estadual para o banimento das sacolinhas. Trata-se de um acordo assinado pelo governo, representado pelo ministério público e a APAS.

O fato é que quem vai ao supermercado tem que trazer as compras em caixas ou em sacolas reutilizáveis. Podemos analisar os aspectos econômicos dessa decisão de banir as sacolas.

A motivação da campanha de tirar o planeta do sufoco é inválida. A produção de plástico destinada a carregar as compras no comércio corresponde a uma pequena parcela da demanda da indústria de embalagens plástica e segundo a fábrica de plásticos APM Bags, dos EUA, 85% dos sacos plásticos são feitos com gás natural e não petróleo. Ou seja, no que tange a recursos naturais, banir a distribuição de sacolas descartáveis não é a solução.

Claramente o problema está no descarte das sacolinhas. A descartável convencional leva entre cem e quatrocentos anos para degradar-se, enquanto a oxi-biodegradável leva dezoito meses. Portanto, a externalidade associada ao consumo é que deve ser internalizada.

Interpõe-se duas alternativas, a primeira é orientada ao mercado e a segunda é produzida através de uma canetada do administrador público. A primeira advém da tributação em cima do consumo da sacolinha. Suponhamos que a demanda pelas sacolas de supermercado seja inelástica. Então o peso morto de uma tributação unitária será pequeno. No curto prazo não há muito o que fazer, dado a dificuldade de sustituir o consumo desse item. Mas, ao longo do tempo, haverá alternativas ao uso do plástico e paulatinamente essa demanda irá ficar mais elástica, indicando que as pessoas estão substituindo o plástico por outras alternativas. Se o substituto for de fato as sacolas reutilizáveis (ecobags), todos ganham. Mas, já prevejo que os setoristas da indústria nacional de sacolas reutilizáveis tentarão proibir a importação dessas sacolas da China. O problema dessa alternativa é que se a demanda for elástica o peso morto será grande, introduzindo muita ineficiência. E mesmo que aceitemos a ineficiência em prol do meio ambiente os custos de tributação e controle seriam impraticáveis em um país como o Brasil. Nesse caso a primeira alternativa é inviável.

A segunda alternativa surge de um ato do administrador público, nesse caso em conjunção com a APAS. Decidiu-se banir a sacola descartável dos supermercados membros da referida associação. Essa é uma alternativa segundo melhor (second-best alternative). Sabendo da dificuldade de tributação desse item e que a consciência ambiental não maximiza o bem-estar do agente em termos de consumo ótimo, decidiu-se pela opção menos indicada do ponto de vista econômico. O problema dessa alternativa está no fato que ela leva a um equilíbrio sub ótimo de consumo de embalagens para as compras em supermercados. Vê-se, amiúde, as pessoas tendo que colocar suas comprar em caixas de papelão e misturando produtos de limpeza com mantimentos porque não há sacolas reutilizáveis disponíveis para vender na quantidade demandada. Isso ocorre porque o ministério público estabeleceu um preço único para esse tipo de sacola, que leva à escassez.

De fato, ser administrador público não é fácil. Se por um lado o impacto do descarte do plástico no meio ambiente é ruim para a sociedade, os impactos da correção dessa externalidade gera problemas aos agentes na fase de adaptação. Mas, em pouco tempo as sacolinhas nem farão falta, dado que seu consumo em larga escala é recente.

Há cerca de quinze anos atrás me lembro de que semanalmente minha mãe ia à feira com três dessas sacolas que hoje é vendida com o nome “ecobags”. Uma era para legumes e verduras, outra para frutas e a última para o peixe. Aos sábados meu pai ia ao açougue com uma dessas sacolas para comprar carne. O pão e o leite vinham diariamente da padaria da esquina. Algumas viandas mais especiais vinham do mercado municipal da cidade, como o bacalhau na páscoa ou as frutas secas (na mesma sacola da feira). Ia-se ao mercado para a compra dos mantimentos do mês e a quantidade de sacolinhas acumulada no “puxa-saco” não era muito grande.

Atualmente, os supermercados absorveram toda a sorte de produtos e serviços que uma família precisa. Do pão francês (ou média), passando pelo açougue, peixaria, confeitaria, rotisseria e hortifrutigranjeiro até produtos e serviços para o carro. Tudo se encontra lá, embalado em cômodas sacolas descartáveis. Criou-se uma dependência em relação a esses estabelecimentos. A padaria faliu ou virou bar, a feira minguou e ficou cara, o açougue só em último caso, o mercadão virou consumo de nicho, a quitanda – o que é quitanda? É difícil passar uma semana sem ir ao supermercado. Agora, o mesmo “puxa-saco” virou dois e estão abarrotados.

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3 Responses to O caso dos sacos plásticos

  1. luiz fernando antonio says:

    E afinal de contas como ficou? as sacolinhas plasticas não vão ser distribuidas somente pára os supermercados que são associados da Apas?
    tambem por que vamos salvar o mundo somente com as sacolinhas plasticas? e os demais produtos ( talvez milhares) que tambem são embalados em sacos plasticos, sacolas, etc.So para ilustrar: refrigerates ( coca-cola), margarina, produtos de limpeza, produtos alimentcitios, recentemente vi até vi nho esta sendo embaldo em plastico, etc sera que estes não poluem? E sera que os associados da Apas vão retirar dos preços os altos custos que tem para distribuir as sacolinhas? E o Administrador publico ( da cidade de São Paulo ou do Estado) ira ser promovido; afinal de contas somente aqui que temos esta aberração. Agora temos que pegar as caixas de papelão que sobram, disputando com os demais clientes, coloca-las no chão para poder acomodar nossas compras, levar para o carro ( que muitas vezes não cabe no porta malas), etc. Isto tudo se resume numa falta de respeito ao consumidor com a omissão de nossas autoridades.
    O que realmente esta faltando para alguns grupos e empresas são profissionais qualificados para administrarem seus negocios; fazer economias onde não se deve, sempre traz um prejuizo maior. A imagem das grandes cadeias de supermercados sai arranhado por tão pouco e tão ingenua medida, acreditando que todo consumidor é estupido e embarca nos releases das midias que tambem não tem profissionais qualificados.

    • Luiz Henrique Pacheco says:

      Quem não é associado da Apas pode continuar a fornecer a sola, sem problemas. Mas, eles não vao continuar distribuindo porque tem custo e já que o concorrente nao distribui, é melhor segui-lo. É lógico que o primeiro mercado independente que furar o acordo terá grande chance de faturar mais.

      Apesar do transtorno da medida, eu apoio o banimento dos sacos plásticos. O passivo ambiental é muito grande causado por esse ato de consumo. É claro que esse pensamento de que as sacolinhas são a ponta do iceberg e não resolve nossos problemas soa lógico, mas não é. A lei dos grandes números diz que a contribuição de uma parte ao todo é neglicenciável, mas a soma das partes faz toda a diferença quando a contagem cresce. Banir a sacola é essa parcela irrelevante agora, mas essa medida vem grávida de outras. Em breve quando agente perceber que não é tao importante assim as sacolas iremos questionar o uso do plastico em outros intens, e a partir daí a soma das partes começará a fazer efeito.

  2. Paula says:

    Aqui em Belo Horizonte, já faz mais de um ano que elas foram banidas. Embora já esteja virando hábito, é um sofrimento chegar ao caixa e lembrar que não trouxe a ecobag, cada sacolinha plástica oxi-degradável (que rasgam à toa e não aguentam nem uma caixinha de suco) custa 19 centavos.

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