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O Circo do Tio Rei

junho 19, 2012

“Há tempos não lia tanta bobagem”, Tio Rei.

As tendas foram estendidas, o show não tem hora para acabar. Aqueles que estão acompanhando o embate Reinaldo Azevedo vs JMPM sabem do que estou falando. Para os que chegaram atrasados, posso resumir o espetáculo em uma frase: o jornalista Reinaldo Azevedo (apelidado Tio Rei por si próprio) não gostou de uma pesquisa (que ele não leu) e se exaltou em seu blog; um dos autores do artigo fez uma réplica; e, por fim, Tio Rei publica hoje a sua tréplica.

Então, vamos lá. A pesquisa trata do que mesmo? Errou quem respondeu sonho de valsa. Trata do impacto da bolsa família na criminalidade com dados de SP. A fúria do Tio Rei é advinda do seguinte resultado:

We find a robust and significant negative impact of Bolsa Família coverage on crime.

E a crítica é válida? Sim, sempre é. Basta que o crítico tenha algum embasamento teórico e um pouco de educação.

Muita gente séria considerou oportuno o fato do jornalista ter trazido números que atestam que  a violência e a criminalidade estão aumentando, principalmente onde a bolsa família é mais presente. O problema é que ele pecou na forma, pecou nas palavras, e um debate que poderia trazer bons frutos tornou-se espetáculo de troca de farpas.

É sabido que, não só em ciências sociais, mas, de forma geral, em pesquisa, sempre existe a possibilidade de erro, e críticas são muito frequentes. Por exemplo, o Prof. Cristiano lembrou que na academia existe todo um ritual sério antes (e após) a publicação de artigos em que os autores apresentam a pesquisa em seminários e escutam críticas na tentativa de melhorar o trabalho. Tudo isso tem sim, um enorme efeito positivo nas publicações. Desta forma, o jornalista poderia até valer-se de críticas à especificação do modelo, ou mesmo questionar se o efeito é causal e generalizável para o resto do país.

Bem longe disto, lendo os textos da realeza, fica patente que ele não sabe sustentar o que pensa sem deixar transparecer seu viés ideológico. Em meio a um punhado de ofensas, ele se defende com o seguinte argumento:

Usar o Bolsa Família para explicar a queda de violência em São Paulo é a mais nova farsa influente. (…) Por que, então, houve, na média, aumento da violência no Norte e Nordeste, embora sejam as regiões mais beneficiadas pelo Bolsa Família?

Isso deixa claro que ele não entende a noção primitiva da diferença entre correlação versus causalidade. Mas, se serve de consolo, até a The Economist já cometeu esse equívoco. Outro questionamento recorrente é: por que os autores usaram dados de SP? Os leitores do Tio Rei estão convencidos ser conspiração de petistas para as eleições municipais de SP. Não é preciso nem dizer que, em se tratando do naipe dos pesquisadores envolvidos, certamente esse não é o caso. A escolha de São Paulo é mera questão de disponibilidade de dados, conforme explicado pelo próprio JMPM.

Muito blá foi dito, mas para finalizar isso, a moral da história é que: sem um argumento convincente  os ataques acabaram atingindo a PUC-Rio, a formação profissional dos pesquisadores e até a Econometria, que, nos termos do jornalista, não passa de uma prática de torturar dados. O problema, como ressaltou o Prof. Shikida, está nas externalidades que esta discussão gerou. Estão colocando na mesma fogueira, pesquisadores sérios, um instrumental sólido, e toda a formação de economista.

E assim desperdiçou-se, mais uma vez, a oportunidade de extrapolar o debate para fora da academia.

9 Comentários leave one →
  1. Gustavo Crispim permalink
    junho 19, 2012 4:35 pm

    Só para reforçar a máxima: “Leu na Veja? Problema seu.”
    Agora o blogueiro tá de sacanagem.

    • junho 19, 2012 5:16 pm

      Gustavo, pois é. só naquele dia o jornalista escreveu um milhão de textos. Será que ele leu o paper, refletiu, mastigou, antes de escrever? Deu nissso..

      Ah, o jornalista publicou agora mais um texto sobre o assunto em que coloca um historiador na parada:

      http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/a-melhor-coisa-deste-blog-sao-seus-leitores/#comments

  2. Antônio Galdiano permalink
    junho 20, 2012 10:58 am

    Tenho indícios que a proteção, pura e simples, não leva ao crescimento pessoal ou institucional de nada. Vejamos os casos da indústria de informática que se tentou fomentar no Brasil ou o caso ainda vigente da indústria automobilística brasileira. Oras, se o estado se arroga conhecedor em dizer até que ponto vai a incapacidade humana e consequentemente que ele deve tutelar os mais desprotegidos para que esses se fortaleçam com o tempo e adquiram autonomia (ou não é esse o argumento usado?), por que isso não deu certo nos demais setores já citados? O estado (e isso sob a hipótese “heróica” de que a totalidade de seus integrantes estão lá para agir somente em prol à sociedade) realmente deve se impor à sociedade, impondo sua verdade em detrimento do uso livre do recurso alheio?
    Talvez a questão não seja nem se a aplicação do recurso gera resultado ou não. Talvez estamos diante de uma questão de valores: podemos impor a sociedade uma tributação pornográfica para melhorar a vida de alguns ao custo dos outros? Se entendemos que a educação tem o efeito, na média, de melhorar os salários das pessoas, o estado, com o monopólio de exercer a força, tem o direito de impor à sociedade que 80% das horas de lazer passem a ser horas obrigatórias de estudo sob pretexto de que somos incapazes de dirigirmos nossas próprias vidas? Até que ponto essa idéia de bem maior advogado por “autoridades iluminadas” deve ser aplicada? (Se é que deve ser aplicado)?
    A parte, a crítica à estatística ou à modelação matemática da realidade é algo trivial: não se pode captar a realidade humana do que virá. O uso de hipóteses sobre o comportamento futuro humano sempre estará sujeito a erros, uma vez a racionalidade dos construtores dessas hipóteses é inegavelmente limitada. Tais modelos não produzem resultados errados, simplesmente produzem truísmos, verdades dentro daquele contexto construído sob racionalidade limitada, que não existe qualquer obrigação dos reais agentes econômicos em cumprir com as hipóteses de qualquer modelo que seja. Eu pessoalmente não acredito que podemos prever exatamente qualquer coisa em se tratando de comportamento humano, inclusive em economia. Qualquer observamos algum erro de previsão é exatamente em decorrência da incapacidade de se observar o comportamento futuro. Felizmente os meios de se aprender o comportamento humano são escassos,e é justamente por isso que é interessante o convívio humano, caso contrário, poderíamos substituí-lo por continhas ou robôs, certo?

    • junho 20, 2012 2:15 pm

      Antônio, esta polêmica tomou diversas ramificações. Uma delas é exatamente a que você bem citou: a questão da limitação do uso da econometria. Não creio que o estudo seja inválido (coforme muita gente vem dizendo), acredito que deve ser repensada a forma como esses estudos vem sendo interpretados (dentro e fora da academia). Afinal de contas, a polêmica começou devido uma versão de segunda mão publicada no Globo.

      Nesse ponto, acho que se o debate sério tivesse efetivamente ocorrido todos seríamos beneficiados com uma troca sadia de ideias.

      • Antônio Galdiano permalink
        junho 21, 2012 9:52 am

        Eu particularmente possuo a seguinte visão sobre econometria: “O uso de hipóteses sobre o comportamento futuro humano sempre estará sujeito a erros, uma vez a racionalidade dos construtores dessas hipóteses é inegavelmente limitada. Tais modelos não produzem resultados errados, simplesmente produzem truísmos, verdades dentro daquele contexto construído sob racionalidade limitada, que não existe qualquer obrigação dos reais agentes econômicos em cumprir com as hipóteses de qualquer modelo que seja.”
        Creio que o sr. possua uma visão diferente a respeito. O senhor sugere alguma interpretação diversa a minha?
        Concordo 95% sobre a enunciação feita: “se o debate sério tivesse efetivamente ocorrido todos seríamos beneficiados com uma troca sadia de ideias”.
        Os 5% de discordância se dá em decorrência do meu entendimento pessoal de que mesmo as idéias postas de forma verbalmente agressivas devem ser analisadas, sob pena de ignoramos irresponsavelmente fontes diversas de cconhecimento. Entendo que o método empregado na divulgação da idéia não guarda correlação com a aceitabilidade da idéia em si. Apesar de preferir formas polidas de comunicação (uma forma, ao meu ver, mais eficiente de transmissão de conhecimento), reconheço que, mesmo entre os que preferem ser não-polidos, há conhecimentos suficientemente respeitáveis a ser minimamente refletidos.

        • junho 21, 2012 9:24 pm

          Antônio, apesar das inúmeras limitações (e são muitas!!) vai do “econômetra” reconhecê-las. Não deixa a meu ver de ser um instrumental poderosíssimo no teste e determinação de teorias econômicas.

          É claro que existem outras visões, a austríaca por exemplo considera a econometria inútil, pois segundo esta escola não podem ser usados experimentos externos para refutar a teoria (já que a teoria vem da ação humana e é verdadeira a priori). Enfim, é um outro paradigma, ambos devem ser respeitados.

          Entendo seu ponto. Ocorre que o caso desta semana deixou claro uma briga entre surdos, onde parecia que ganharia quem gritasse mais alto. Não acho que este seja o tipo ideal de debate.

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