Números da religião: o que os microdados não dizem

Saiu hoje na primeira página do Jornal O Globo essa notícia sobre alguns resultados dos microdados do último CENSO:

RIO – A Igreja Católica sofreu a maior queda no percentual de adeptos no Brasil, entre 2000 e 2010. Segundo dados do Censo 2010 divulgados nesta sexta-feira pelo IBGE, o número de católicos no país caiu 12,2% na última década. No mesmo período, a população evangélica cresceu 44,1%. Esse aumento, porém, é menor do que o detectado entre 1991 e 2000, quando o número de evangélicos aumentou 71,1%.

Os números mostram queda no número de fiéis católicos. Isso é fato. A grande questão está em entender a fundo os motivos. Por exemplo, hoje durante a missa em uma paróquia de Copacabana, o padre comentava dessa notícia dizendo que ao contrário do retratado pelo Censo, as igrejas estão cada vez mais cheias. Então o IBGE está mentindo? Não necessariamente…

O religioso citou o seguinte argumento: há algum tempo atrás ser católico era moda, muitos mesmo não sendo católicos praticantes se identificavam como pertencentes à igreja. Hoje em dia, argumenta o padre, as pessoas católicas não-praticantes estão começando a assumir sua falta de religião (daí o aumento deste grupo) ou migram para outras religiões.

De fato, este argumento não é de todo “viajado”. Não dá pra dizer que esta seja a “causa” da queda do número de católicos, mas, talvez ajude a explicar parte dela. Na linguagem da econometria o que padre está argumentando é que por um tempo existiu (e talvez ainda exista) erros de medida na contagem dos adeptos da religião católica, isto é, as pessoas respondem uma coisa na enquete sendo que a verdade é outra. Quem estudou um pouco de econometria sabe que erros de medida são problemáticos pois podem gerar viés e inconsistência nos estimadores.

Será que esse problema é coisa do passado? Será que hoje as pessoas estão assumindo de verdade suas crenças (ou a falta delas)? Nada disso os microdados vão responder.

Fica a questão a ser pensada. O que será que vem acontecendo com aquele grupo católico não praticante de tempos atrás: será que continua respondendo ser católico ou já partiu para outra?

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2 Responses to Números da religião: o que os microdados não dizem

  1. Alvaro says:

    Bem, como economista e católico (daqueles que vai à Missa todos os dias), da minha perspectiva o padre está certo; e a sua explicação é bem apropriada.
    É notável que o número de pessoas que vão à Missa aumentou, porém também é notável o número de conhecidos que com o tempo passaram a se enquadrar como “sem religião definida”. Muitas pessoas se cansaram de responder que são católicas pq os pais o são e passaram a se dizer “sem religião”, sejam ateus ou não.
    Abraços!

    • Sim, é um dos motivos, existem muitos outros. O aumento dos evangélicos também é inegável o que justifica pensar que parte considerável dos católicos tenha migrado para este grupo (até mesmo pela semelhança na doutrina). O que não dá pra dizer é se esses “migrantes” realmente praticavam sua religião antes da mudança.
      obrigado pela participação.

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