Coisas “inexplicáveis” da nossa balança comercial: Brasil está importando até a Bíblia

Gráficas brasileiras estão a espera de um milagre

Tem gente achando o cúmulo o Brasil, país cristão em sua maioria, importar a Bíblia de países como China e Índia, que não acreditam na fé cristã. Veja um trecho da notícia do Estadão de hoje:

“Depois do livro didático, as gráficas brasileiras enfrentam agora forte concorrência das importações de bíblias. A Palavra de Deus está sendo impressa em português em gráficas na China, na Índia e no Chile, entre outros países, a custos considerados imbatíveis pela indústria.”

É evidente, o produtor nacional sai perdendo nessa história. Com muitas demissões feitas nos últimos dias, as gráficas brasileiras estão, de fato, a espera de um milagre divino. Segue mais um trecho da reportagem:

“Aí, o editor vai lá e faz a Bíblia completa e vende aqui dentro sem pagar imposto nenhum. Como é que pode?”, questiona o executivo de uma gráfica nacional.

Bom, o tema é controverso e dá margem a muitas interpretações. Pode-se inclusive citar a retórica agostiniana da predestinação, para tentar argumentar o motivo da produção ocorrer lá e não aqui. Também não dá para deixar de mencionar o princípio das vantagens comparativas de Ricardo, que tem como base a razão de produtividade que cada país possui.

Em meio a diversas teses, vem a cabeça: o que quer o setor gráfico nacional? Proteção. É mais um setor que chora, chora e chora e muitas vezes acaba conseguindo. Isto porque os políticos acabam se comovendo com a situação e dão preferência aos ganhos de curto prazo.

Não acho que esta seja uma boa saída se pensarmos no médio e longo prazo. As decisões que têm como base a defesa ao mercado interno, seja via elevação de impostos ou qualquer outra forma de barreira comercial, podem trazer ganhos imediatos, mas esse benefício se perde na queda de trocas comerciais e na piora da competitividade da economia. Isto sem falar na redução da eficiência dos fabricantes, já que a falta de concorrência com os produtos estrangeiros deteriora a qualidade e encarece o bem protegido.

Enfim, embora o caso extropole as questões econômicas interferindo também no âmbito religioso, não consigo ver esse caso de outra forma. A sensação do ganho no curto prazo é enganadora porque gera alívio, evidentemente inferior aos ganhos do livre mercado no longo prazo. Os políticos costumam preferir ter ganhos no curto prazo, embora o ideal seria tornar a bíblia nacional mais competitiva (via diminuição da carga tributária ou incentivo à produtividade) ou, em último caso, até sair do mercado.

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5 Responses to Coisas “inexplicáveis” da nossa balança comercial: Brasil está importando até a Bíblia

  1. Igor Lima says:

    Se com o dólar a 2 reais esses produtores nao conseguem competir, só lhes resta uma alternativa: “pede pra sair!!”.

  2. Gustavo Crispim says:

    O próximo passo dos produtores é tentar diminuir o número de páginas da bíblia nacional, que já é impressa nos papéis mais finos que as páginas de livros já viram. Ou diminuirão ainda mais a letra, ou pularão trechos menos importantes. Isso vai ser interessante.

  3. Antônio Galdiano says:

    Essa questão remete a discussão “falha de mercado x falha de governo”. Algo semelhante ocorre com o salário mínimo: como que com a arrogância de querer acabar com a escassez via canetada, os legisladores votam por salários mínimos cada vez maiores. No curto prazo, os empresários até tentam manter os funcionários na esperança de que alguns atinjam produtividade compatível com o novo salário, até porque o estado dificulta o ajuste de mercado (contratações/demissões). Como a canetada não derroga a realidade, boa parte não consegue manter o novo requisito mínimo de produtividade imposto pelo governo. Como demora um tempo para se manifestar os efeitos nefastos da discriminação forçada que o governo impõe aos participantes do mercado, a cognição da maioria fica prejudicada e a culpa da falha promovida pelo governo é entendida como um plano maquiavélico “empregadores malvados”.

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