Uma Resenha de “A Imaginação Econômica”

imaginacao-economicaÉ muito difícil afirmar o que determina um livro a ser considerado excelente, talvez devemos começar com a escolha de um bom tema que funcionará como o fio condutor de toda a história, depois necessitamos de uma boa capacidade de escrita, de modo a, cativar o leitor. Por último, e não menos importante, o livro não pode terminar com o fim das páginas, ele deve permanecer em nossas mentes, nos remeter a questões. Nem todos os livros conseguem ser excelentes.

Somente agora li o tão esperado livro da Sylvia Nasar Grand Pursuit: The Story of Economic Genius traduzido para o português como A Imaginação Econômica e publicado pela Companhia das Letras. Para quem não se lembra, a autora foi aclamada pela crítica por ter escrito Uma Mente Brilhante, livro sobre o matemático ganhador do Nobel de Economia Jonh Nash, que deu origem ao filme de mesmo nome. Por conta do bom histórico produtivo da autora, esse livro foi extremamente esperado e discutido após seu lançamento.

O livro se propõe a entender a transformação econômica ocorrida a partir do século XIX, que possibilitou o homem tomar rédea do seu destino econômico não ficando mais subjugado às intemperes dos problemas sociais. Mais do que isso, o livro tenta mostrar como os pensadores econômicos se inserem nesse contexto, a partir da desnaturalização dos problemas econômicos e das circunstâncias sociais. Será através desse fio condutor que a autora nos propõe caminhar por praticamente dois séculos de história econômica e de ideias econômicas geniais.

Apesar de a leitura ser extremamente agradável e a autora demonstrar um grande conhecimento de cultura geral, fazendo ao longo do livro inúmeras referências à literatura e ao pensamento econômico, o livro não consegue realizar aquilo que se propõe. Termina-se a leitura com uma sensação de que a resposta à pergunta inicial não foi satisfatoriamente respondida. Aparentemente o tema só cobre um terço do livro (chegando ao máximo no capítulo do Schumpeter), todo o resto surge como um grande apêndice para se completar dois séculos de história. Nesse sentido, o livro carece de um fio condutor claro, capaz de cobrir todas as páginas e oferecer uma coesão interna à obra.

A outra crítica é que a autora é incapaz de explicar de maneira eficaz as contribuições dos gênios para a teoria econômica, ela se dedica muito pouco em analisar as contribuições teóricas de cada autor e inseri-las na teoria econômica. A cargo de exemplo, a autora tenta explicar a contribuição de O Capital no finalzinho do capítulo do Marx, ocupando uma página. O Nobel de economia, Robert Solow, deixou isso bem claro em sua resenha.

Em muitos momentos não sabemos se o livro é sobre história econômica ou sobre história do pensando econômico, como pode ser entendido pela análise do professor de Princeton, Ashenfelter. Alguns capítulos parecem estar no livro apenas para cumprir a necessidade de se cobrir um período histórico. A segunda metade do livro é, talvez, a que mais sofre com esse problema.

Uma outra questão que gerou críticas foi a escolha dos gênios (Marshall, Marx, Keynes, Fisher, Hayek, Schumpeter, Robinson, Samuelson, Friedman, Beatrice Webb, Amartya Sen). Segundo a autora, Marx entrou para criar o caminho para o Marshall que percebeu que os ganhos de produtividade gerariam aumentos dos salários reais e diminuiriam a pobreza. Os outros fizeram parte do livro, pois ajudaram a avançar tal ideia. Tal escolha é no mínimo questionável.

Por conta de todas essas questões, o livro não correspondeu a todas as expectativas. O que não quer dizer que a leitura não vale a pena, o livro é cativante e recheado de histórias sobre a vida dos economistas geniais. É aquele tipo de livro que a gente lê sem sentir, o que prova o talento literário da Sylvia Nasar. Além disso, o livro pode nos remeter ao questionamento sobre a importância da História do Pensamento Econômico e sobre a importância de ideias já mortas (ou nem tão mortas assim).

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Prosa 1: Inúmeras outras resenhas foram feitas sobre o livro. Em português temos a do Drunkeynesian e em inglês temos a do NY Times. O INET fez uma entrevista com a autora.

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