O Tempo da Ciência

Em um recente post do blog Free exchange, provavelmente o melhor blog da revista britânica The Economist, o autor descreveu de maneira sucinta e clara a história do pensamento macroeconômico, dando ênfase na maneira como os teóricos da ciência lúgubre sempre trataram o sistema financeiro. Na parte mais marcante do post, o autor nos diz que a interpretação e as ideias tiradas da Teoria Geral por Samuelson, que definiu a agenda da economia no pós guerra, deixaram de lado os insights de Keynes sobre a natureza do mercado financeiro. Assim, o mercado financeiro passou a ser visto como um simples véu que separa os poupadores dos tomadores de empréstimo:

“By the late 1940s, the Depression was over and Keynes was dead. Paul Samuelson was the man who set the agenda for the coming decades by taking some of the ideas from Keynes’s General Theory of Employment, Interest, and Money and articulating them in mathematical models. (For those who are interested, Keynes’s entire book can be read for free online here.) Samuelson’s contributions were important but unfortunately he left many things out, particularly Keynes’s insights on the nature of the financial system. To Samuelson and his disciples, banks and other intermediaries were merely a “veil” between savers and borrowers in the nonfinancial sector, rather than profit-seeking firms that make loans opportunistically. While there were some early dissenters, notably John Gurley and Edward Shaw, the mainstream believed that finance was unimportant right up until the crisis.”

Essa visão perdurará por todo o desenvolvimento da macroeconomia, influenciando o mais recente e importante modelo geral da macroeconomia, o DSGE. Assim, os economistas não tinham armas para prever a crise e agora não têm armas para achar soluções para ela. Não à toa, as respostas conflitantes dos economistas sobre a dificuldade na recuperação da economia americana. O post termina com um parágrafo de esperança sobre o nascimento de novas ideias e teorias que tentam endogenizar o mercado financeiro.

De fato, os modelos gerais da economia tratam o mercado financeiro como um simples véu. No entanto, isso não quer dizer que os economistas não tenham, ao longo dos anos, se debruçado seriamente no entendimento desse tipo de mercado. Só para dar um exemplo, Ben Bernanke passou a sua vida acadêmica estudando as crises financeiras. Assim, não me parece verdade que os economistas tenham subestimado a importância desse tipo de mercado, eles apenas não conseguiram incorporar toda a complexidade do mercado financeiro nos modelos gerais.

O tempo da ciência se diferencia bruscamente do tempo dos acontecimentos econômicos. Enquanto o primeiro depende de pesquisa, discussão e sistematização, o segundo só depende das escolhas individuais. Assim, demandar que um ramo científico tenha respostas para todo acontecimento de seu objeto de pesquisa (mutável) é o mesmo que esperar que os dois se desenvolvam na mesma velocidade. O que é impossível. Os economistas não escolheram não estudar o sistema financeiro, não escolheram não endogenizar o mercado financeiro nos modelos de equilíbrio geral. O que os economistas escolheram foi desenvolver modelos simples, e que dado a sua simplicidade, poderia oferecer respostas poderosas. A partir daí, novas variáveis e questões seriam incluídas, de modo a permitir, ao modelo responder uma gama maior de questões, mantendo o rigor das respostas.

Demandar uma maior atenção dos teóricos para um mercado, por conta dos acontecimento da economia mundial é salutar. Esperar que as respostas e as soluções sejam imediatas é infantilidade. A compreensão do mercado financeiro e das crises financeiras é obra de séculos, não de anos.

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