Okun vive!

Uma das relações mais famosas estudadas em macroeconomia é a Lei de Okun. A lei, proposta pelo economista Arthur Okun, foi baseada na constatação empírica de que existe uma relação negativa entre a mudança no desemprego e o crescimento do produto. Os livros de macro costumam apresentar a Lei dessa forma:

Lei de Okun

Em que o crescimento do produto acima do normal estaria associado a uma diminuição da taxa de desemprego e o crescimento do produto abaixo do normal associado a um aumento da taxa de desemprego. Para se ter uma ideia da importância da Lei, Tobin, que foi colega de Okun em Yale, disse considerar a Lei “uma das regularidades empíricas mais confiáveis da macroeconomia”.

Ocorre que tem sido propagado por aí a notícia de que a Lei de Okun teria, digamos, morrido. De fato, Tyler Durden colocou há algum tempo um gráfico no Zero Hedge que nos faz ficar em dúvida:

Okun broken

Há aqui outro gráfico que apresenta uma correlação praticamente nula entre as variações do produto e do desemprego. Tudo isso vem servindo de argumento para alguns pesquisadores (Gordon e McKinsey, por exemplo) afirmarem que a recuperação pós-recessão tornou-se “sem emprego”, com um desemprego acima do que a Lei de Okun seria capaz de prever.

Seriam estas evidências de que a lei não vale mais? Três pesquisadores do FMI vieram a público esta semana para dizer que não, a lei continua valendo. Eles trazem consigo um novo artigo (pdf) entitulado “Okun’s Law: Fit at 50?”, discutido também no Vox.

Segundo eles, dois ajustes são necessários para restaurar a Lei de Okun: (i) levar em conta as diferenças na duração das recessões e (ii) levar em consideração que os coeficientes da Lei de Okun diferem entre países. Há um box no livro de Macro do Blanchard chamado “A Lei de Okun de um país para outro” que discute exatamente esse ponto: os coeficientes da lei variam de país para país e também de acordo com a época que se está avaliando. Estes dois ajustes são suficientes para deixar a Lei revigorada (vide também o gráfico 5 do artigo mencionado):

Grafico Okun ajustado

Portanto, as novas evidências sugerem que a Lei está funcionando sim, forte e estável. Claro que não é como uma lei da Física, mas é uma relação empírica, que com os dados utilizados correspondeu muito bem ao que Okun previa. Sendo assim, os autores da pesquisa enfatizam que quando o produto se recuperar, o emprego voltará. Para terminar, fiquei com a sensação de que o desfecho do artigo vai mais ou menos nessa linha: Querem duvidar de uma relação macroeconômica? Comecem pela Curva de Phillips! ‘Okun is alive and well’.

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6 Responses to Okun vive!

  1. Antônio Galdiano says:

    Intuitivamente, pode haver crescimento econômico e aumento do desemprego. Basta que um setor capital-intensivo cresça a geração de riqueza total, digamos 5% do PIB, e um setor trabalho intensivo diminia sua participação do PIB, digamos 4,8% do PIB. Se a diferença de intensividade do trabalho for suficientemente alta, é possível haver crescimento do PIB e aumento do desemprego…
    Podemos ainda conjecturar sobre a dinâmica das relações intersetoriais de intensividade no trabalho em uma sociedade cada vez com maior soma de capital, em que o trabalho doméstico remunerado e outros trabalho de menor qualificação técnica passam a ser inviabilizados por leis de salário mínimo; mas qualquer conclusão sem maiores averiguações seria puro achismo.
    Essa suposta “regularidade empírica” possui requisitos econômicos bastante reais para se cumprir, não acham?

    Dizer que a relação de Okun é uma lei… Aí vai de cada um, mas não de mim.

    Ainda assim, a relação de Okun é infinitamente superior à Curva de Phillips. Esta sim é uma vergonha!
    Quem quiser dar uma olhada no que a Escola Austríaca acha da CP, pode começar por esse artigo.
    http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1099
    Recomendo a todos, de gregos a troianos!

    • adutroid says:

      Antônio, concordo contigo, não sei quem cunhou o termo “lei”, mas na minha opinião é um pouco exagerado. Ah, e valeu pelo artigo da curva de Phillips, suas sugestões de leituras são sempre ótimas!
      abraço

  2. Thobias Silva says:

    Como explicar a mesma lei no Brasil; Onde a taxa de desemprego está no seu piso de 4,6% e o crescimento do PIB não será menor que 1%. Ou seja as pessoas estão ocupadas, mas o produto da economia não cresce? Será que isso vai se sustentar para continuar provando a “lei empirica de Okun”?

    • adutroid says:

      É meio complicado avaliar só com a observação de 1 ano… de qualquer forma taí um questionamento bastante pertinente. Se alguém souber de pesquisas que testem a Lei de Okun com dados brasileiros, por favor, escreva aí…

  3. Francisco Alves dos Santos Jr says:

    Parece-me que a baixa taxa de desemprego não representa boa renda e então creio que seja por isso que o PIB está tão baixo, em face do baixo consumo.

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