Impressões da polêmica Reinhart & Rogoff

erros Reinhart e RogoffConsegui, finalmente, pegar a réplica do artigo de Reinhart e Rogoff (R&R) para ler, aproveitei para reler o artigo original e a resposta pública de R&R aos autores. Todos divertidíssimos. Em alguns momentos Herndon et al se valem de indiretas venenosas para se referir à falta de acurácia de R&R. Os resultados não são tão divergentes quanto suspeitava (a The Economist resumiu no gráfico ao lado).

Deslizes de Excel e de ponderação são os erros apontados pelos autores. A ênfase maior, desde a publicação do artigo, tem sido dada ao erro do Excel vindo da exclusão de cinco países da análise. É uma falha grave, mas só mudou o resultado em 0,3 pontos percentuais. A maior parte da diferença de resultados está na ponderação das estatísticas. R&R deram o mesmo peso para cada país (dentro de um mesmo grupo da dívida) não levando em conta o número de anos que cada país esteve em dado perfil. Esta é uma estratégia questionável, mas o padrão usado na réplica (ponderando por país-ano) também não está claro de ser o mais adequado (ao menos para toda a blogosfera).

O que mais me chamou a atenção foi, no entanto, a repercussão que tudo isso tomou. A reação nos blogs e no Twitter foi, em geral, de ataques. Pouco tempo depois da publicação do artigo surgiram muitos comentários, muitos atacando a austeridade, outros dizendo “está provado a relação dívida/PIB não importa” e outros preferiram atacar todos os artigos empíricos. Alguns tweets, inclusive, se posicionaram no estilo “Gandalf, leitor indignado do Reinaldo Azevedo”, atacando logo a coitada da “regressão múltipla”. O fato é que, não sei dizer quem, destes que prontamente responderam, parou para ler o artigo que havia acabado de sair.

Entre os que leram (suspeito que a blogosfera internacional o tenha feito) a interpretação do novo artigo pareceu, para alguns, que a nova descoberta era prova irrefutável de que a austeridade não funciona. O erro ocorreu no artigo do R&R mas Krugman não perdeu a oportunidade de criticar Alesina, que vem estudando com afinco o impacto econômico de corte de gastos e impostos. Logo em seguida Mark Thoma publicou post querendo saber quantos desempregos R&R geraram devido aos erros do artigo — não é de duvidar, assim, que novo paper seja publicado com uma estimativa disso.

Parte (reduzida) da blogosfera foi menos agressiva, e portanto, mais prudente. Russ Roberts comentou que a precisão da pesquisa de R&R nunca foi a única razão para se reduzir os déficits. Tyler Cowen enfatizou que R&R em momento algum de seu artigo apresentam o nível de 90% como um ponto de emergência; no artigo não há, de fato, menção de que o aumento da relação dívida/PIB causa um menor crescimento, ou qualquer recomendação política foi feita. Ryan Herzog e Garett Jones lembram que R&R não foram os únicos a analisar os efeitos da dívida, eles apontam para o paper do Cecchetti et al (2011) cuja mensagem é bastante parecida com a de R&R.

Fico com a impressão de que esse debate deixou muito mais perguntas do que respostas. Existe um ponto de inflexão para a dívida do governo? O que sabemos sobre a austeridade? Os erros de R&R foram graves, “vexaminosos” (diria Reinaldo Azevedo), mas podem trazer boas lições ao servir de alerta para novos trabalhos, seja para a revisão de artigos antes da publicação ou mesmo para como interpretamos nossos resultados. Estimativas podem ser frágeis, agora, mais do que se imaginava.

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6 Responses to Impressões da polêmica Reinhart & Rogoff

  1. marco bittencourt says:

    Há de se responder simplesmente a questão: Qual é a dívida pública ótima? Já dei minha resposta sobre isso, mas recomendo a leitura do artigo de Marco Martins – JPE 1980 – http://www.aeconomiadobrasil.com.br/artigo.php?artigo=93

  2. Anonymous says:

    da onde vc tirou que o errou de excel representa 0.3 pp???

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