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Explicação do debate morno entre os presidenciáveis

agosto 6, 2010

Por Adriano Dutra Teixeira

Ontem, no primeiro debate dos presidenciáveis foi notável a posição política assumida pelos candidatos. Em especial, os economistas Dilma e José Serra mostraram não ter esquecido os princípios da Teoria da Escolha Pública aprendidos na graduação.

Os candidatos usaram e abusaram dos seus conhecimentos do Teorema do Eleitor Mediano, uma espécie de  lema de Hotelling aplicado à política. Segundo o teorema, um político racional que pretende ganhar a eleição, maximizará as chances de vitória se estiver no “meio”. Ou seja, pensemos em “meio” como sendo a média das preferências de um grupo, aquela que representa o eleitor mediano. Trocando em miúdos, o teorema garante que a melhor forma de aglutinar mais eleitores ao seu lado é mostrar-se no meio.

Tal teorema pode ajudar a explicar o tom conciliatório marcado pelo debate visto, por exemplo, quando os candidatos foram perguntados qual setor seria priorizado: educação, saúde ou segurança. A resposta, ou a falta de uma resposta satisfatória, foi unânime. Ninguém arriscou priorizar um setor com medo de tender para um lado e como consequência perder votos.

O teorema explicou também a escolha da cor vermelha da gravata usada pelo candidato José Serra ontem no debate, na tentativa de mostrar-se simpatizante do governo Lula e desvirtuado de suas origens partidárias. Por várias vezes o candidato disse pensar na execução de políticas públicas que promovem melhorias à população que sejam desvinculadas de interesses de ideologias, além de tentar resgatar votos de esquerda ao afirmar apoio às lutas sindicais e de tentar satisfazer o eleitorado feminino ao prometer ampliação do número de cirurgias para cataratas, próteses e varizes.

Um cuidado deve ser tomado. O ministério da popularidade do candidato adverte: o Teorema do Eleitor Mediano deve ser usado com moderação. O comportamento exageradamente conciliatório entre Dilma e Serra tornou-os  sem realce. Foi uma oportunidade então para a candidata Marina destoar apresentando seu compromisso com um realinhamento histórico através de uma maior porcentagem do PIB destinada à educação e do até então desconhecido Plínio de Arruda apresentar-se como o candidato das posturas radicais nas políticas sociais.

A frase do Plínio de Arruda poderá marcar o que está por vir: “Estamos vendo muita convergência aqui, agora vocês verão a divergência”. Daqui pra frente, é importante que os candidatos continuem no meio mas, merecerá a vitória aquele que conseguir inovar.

4 Comentários leave one →
  1. Yuri permalink
    agosto 7, 2010 12:41 am

    Saudações Adriano, e demais colegas.

    A estratégia de J. Serra de não pressionar a Dilma R. no primeiro debate, pode estar ligada a eleição de 2006, na qual Lula não compareceu aos debates do primeiro turno, prática que o FHC já havia utilizado anteriormente.
    Por motivos claros para todos que assistiram ao debate, ou outras entrevistas da candidata Dilma, essa manobra poderia ser necessária.
    A candidatura da Dilma tende a ser avessa ao risco, um estímulo a mais poderia tirá-la dos futuros debates mais próximos a eleição.
    Mas não vejo o teorema do eleitor mediano como o ponto central da análise e explicação deste debate, o J. Serra tem raízes vermelhas, suas propostas de são condizentes com sua postura política.

    Um abraço, e até mais!

    Continuando…

    Apesar da alcunha de liberal, e de toda a animosidade que isso desperta na ala esquerdista, J. Serra não é representante da direita. Ele não estava – apenas – tentando agradar a esquerda. Ele é a esquerda. De posição e partido social-democrata, pode ser considerado o mais moderado presente no debate e colocado a direita dos demais em uma reta contínua na qual podemos situar cada um dos candidatos, para a análise.
    Não tão distante ideologicamente, e à esquerda de Serra representando a corrente moderna do PT, Dilma R. com seu projeto de adoração/continuação do mandato de Lula.
    A outra candidata relevante, Marina S., representa um mistério nessa reta dos candidatos. A princípio a colocaria a esquerda de Dilma R., por suas dissidências com o PT, por exemplo.
    Mas ela se apresenta como a terceira via, adota uma cor diferente das que temos no nosso modelo, e não se posicionou de maneira clara frente às questões político-econômicas.
    De fato existem evidências empíricas – adquiridas em conversas com amigos – que revelam a existência para alguns da indecisão entre Marina S. e J. Serra.
    No plano de duas dimensões que estamos falando não tem sentido a dúvida. Precisaríamos de um terceiro eixo pra eleger um dos três candidatos graficamente, segundo as regras do TEM.
    Com outros fatores relevantes como o carisma, notadamente crucial na política (e que nenhum dos candidatos tem de forma marcante) isolados, nossa eleição gráfica passa a ser mais plausível. Oque acha?

    Até mais!

    • agosto 7, 2010 1:57 am

      Caro Yuri, é deveras importante este diálogo aqui feito. Penso tanto no Serra e em Dilma como candidatos de “origem” de direita e esquerda respectivamente. No entanto, reparou que nenhum destes candidatos (incluindo Marina) citou alguma vez alguma proposta que delimite os interesses de seus respectivos partidos? Vejo o Teorema do Eleitor Mediano como uma bazuca que ajuda a explicar isto. Serra não ganhará as eleições caso apresente como um candidato tucano típico de oposição ao Governo Lula. Já Dilma aprendeu bem a lição do TEM com Lula, o atual presidente teve de passar por uma longa transformação para sair da extrema esquerda. Só assim, o medo de um esquerdista lunático dissipou.

      Vejo que o Teorema também pode ser aplicado no caso de Marina. A candidata em muitos momentos mostrou-se uma incógnita e na dúvida, escolheu sambar no meio. Se fez o certo é outra história.

      Bom, o meio já estava lotado de candidatos. Para Plínio foi fácil destoar, uma oportunidade singular para dizer suas propostas radicais.

      Talvez a ansiedade e a falta de carisma dos candidatos os colocaram no meio por uma questão de medo. Seja como for, é importante que sejam explicadas de maneira clara as propostas de cada um, caso contrário, o diferencial advirá de factóides. Valeu a participação! Abraços!

  2. Holandês Voador permalink
    agosto 9, 2010 6:36 pm

    Muito bom esse blog! Adorei!!!!

    Nunca pensei em aplicar o “teorema do eleitor médio” para entender a cor da gravata do Serra, isso foi fantástico. Estarei sempre por aqui para ouvir as curiosidades que vocês economistas tem a dizer. Vamos continuar com a prosa, prosa econômica!

    • agosto 13, 2010 12:46 pm

      Agradecemos o carinho! Sim, este é o nosso propósito, encontrar acontecimentos corriqueiros e tentar interpretá-los pelo olhar de um economista. Abraços!

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