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Retórica em economia

agosto 10, 2010

Por Luiz Henrique Pacheco

É muito comum falar que determinada pessoa é retórica, mas o que significa isso exatamente? A retórica é amplamente usada no direito, em particular pelos juristas que aliados de interpretações a períodos ambíguos nas leis utilizam-se da retórica para fazer valer a sua interpretação do código. Ser retórico, portanto é ter o poder de convencimento sobre uma teoria rival nessa área do conhecimento.

Em economia ser retórico é alcunha indesejada, porque é mais bonito ganhar determinado debate pela superioridade das ideias e não pelo poder de persuasão. Muito embora preterido, nas disputas entre teorias rivais dentro da economia é muito comum sua prática, ou seja, os economistas a utilizam mesmo sendo críticos dela. Por isso que é muito comum ver na televisão dois economistas defendendo posições diferentes, como recentemente, que alguns economistas afirmaram que a crise de 2008 era previsível e outros, por sua vez afirmaram que ela foi fruto do imponderável.

Se existem duas teorias, duas explicações, em qual acreditar? Suas qualidades são expostas, críticas são feitas. A história do pensamento econômico é recheada dessas controvérsias, como em qualquer ciência. Ocorre muitas vezes de um programa de pesquisa ganhar a briga porque foi legitimado por uma maior parcela de economistas na época, como por exemplo o consenso no Brasil de que estabilidade macroeconômica é perseguir uma meta de inflação. A resolução das controvérsias não necessariamente implica numa superação positiva, ou seja, caminhar para um estado mais avançado, portanto mais verdadeiro da ciência, inumeráveis controvérsias em economia não tiveram termo ou conciliação duradora. Monetaristas e keynesianos então são provas desses imbróglios.

Vale ressaltar que nenhuma controvérsia importante na teoria econômica foi resolvida através da mensuração empírica. O pontos mais agudos nunca são esclarecidos pelo empirismo, mesmo porque a hipóteses a serem assumidas nunca são consensuais. A crise de 1929 não prova a Teoria Geral aos olhos dos neoclássicos. Não há como rejeitar uma teoria de forma conclusiva, dado que a maneira como o teste foi feito pode ser contestada.

Daí surge a necessidade do árduo combate entre as ideias, muitas vezes inglório, em que cada parte não perde tempo na hora de fazer valer a posição que tomam parte e não tardam em lançar mão de suas armas de retórica: oferecer soluções aos problemas da teoria rival e reescrever as proposições adversárias em seus próprios termos, por exemplo são algumas delas.

Abaixo estão algumas regras de retórica a serem observadas pelo leitor na hora de se decidir por teorias rivais.

Regras de retórica:

1.       Simplicidade. Explicações simples tem sempre maior plausabilidade do que explicações complicadas

2.       Coerência. Tirar da manga explicações a problemas insolúveis é uma saída fácil, desconfie delas.

3.       Abrangência. Se a teoria ignorar os fatos, ela perde a plausabilidade.

4.      Generalidade. Em uma disputa entre teorias diferentes, a teoria que conseguir explicar a rival como caso particular leva vantagem.

5.       Redução de Metáforas. Quando um argumento é retórico, ele é repleto de metáforas. A metáfora deve ser utilizada como um expediente de pensamento e não de exposição.

6.       Formalização. Se o público for capaz de entender a formalização, não hesite em fazê-la.

7.       Reinventar a tradição. Que nada mais é que reivindicar para si toda uma tradição de pensamento e relegar como uma aberração da tradição seu oponente… “Nunca antes na história desse país”…

3 Comentários leave one →
  1. carol permalink
    agosto 10, 2010 4:10 pm

    Muito,muito bom o pos’t.

    • helder com h permalink
      agosto 11, 2010 11:07 am

      parabés luiz,artigo muito bem escrito.quando vc fala em superaçao das discordias,seria uma escola de pensamento aceitando a critica da escola rival e aprimorando sua teoria para tentar responder as novas criticas,como por ex. os nokeynesianos,neoclassicoas…nesse caso eles fazem uso da dialética?
      abraços
      helder

      • agosto 11, 2010 1:44 pm

        obrigado pelo elogio e pela pergunta,
        quando duas teorias rivais brigam, diversos desfechos podem acontecer, seja a conciliação total, em parte ou rompimento. Pode acontecer sim de uma teoria aceitar a crítica, porém é muito raro. A regra geral é que normalmente a superação acontece no sentido de uma revolução no ato de se fazer ciência, ou superação de paradigma e a teoria perdedora fica na história do pensamento economico, como exercício de curiosidade.
        Dialética: é natural que se utilize desse expediente quando se coloca teorias rivais para brigar, os gregos já utilizavam, mas em se tratando de tese, antitese e sintese, normalmente não ocorre sintese, mas sim rompimento.

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