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Década de 60 e um plano econômico

agosto 24, 2010

Por Luiz Henrique Pacheco

A inflação era um fenômeno que desde os meados do governo Kubitscheck causava certa preocupação devido ao seu crescimento desenfreado. Alguns planos de estabilização foram implementados, como por exemplo, o plano de Lucas Lopes e Roberto Campos, de ataque gradualista, entretanto a falta de continuidade de ministros levou ao insucesso do combate a subida dos preços. Esse texto baseia-se no excelente primeiro capítulo do livro: Paeg e real : dois planos que mudaram a economia brasileira / organização Alkimar R. Moura. Rio de Janeiro : FGV, 2007.

Em 64, os militares tomaram o poder com um cenário econômico altamente desfavorável, havia passado em muito da hora de empregar reformas estruturais para dar fim às anomalias observadas em nossa economia naquele período. A inflação começou a ser combatida já em 64, no PAEG (Plano de Ação Econômica do Governo; 1964-1966), com reformas e com o combate gradualista à inflação. O problema é que a partir de 67, progressivamente, a forma de reajuste dos salários cada vez mais era baseada na inflação passada, a indexação desenfreada da economia causou um engessamento do fenômeno inflacionário.

O que é importante destacar foi que as reformas do PAEG (64-66) criaram as bases para aquilo que mais tarde seria conhecido como “milagre econômico”. Entretanto, apesar do sucesso do plano, a partir de 67 a política monetária afrouxou, viesando, portanto, a condução da política econômica para o lado do crescimento econômico, com endividamento externo.

A desvalorização cambial não tinha impacto na inflação, esta, porém, tinha causas monetárias e fiscais. A inflação era resultado do descontrole fiscal. Pastore testou a memória da série de inflação, averiguando a persistência desta, seguindo a metodologia de identificação do ARMA, conclui-se que a inflação é um AR(6), ou seja, a inflação é um processo com memória, posto que estacionário. Esse resultado significa que até 67 a inflação seria controlável, por se tratar de um processo estacionário, mas dias piores viriam.    

Como indicado anteriormente, os reajustes dos salários elevaram a persistência da inflação, de modo que em 69 não foi rejeitada a hipótese de raiz unitária, indicando que qualquer choque na série demoraria a dissipar-se, perpetuando o contexto de inflação elevada.

No que tange a política monetária, apesar do BC ter sido criado, o Tesouro continuou emitindo títulos e o BB permaneceu com o mesmo poder. A política monetária não era possível através do controle da taxa de juros, somente através da base monetária e do crédito bancário. Contudo, ele mostra que o controle maior da base monetária facilitou a diminuição do déficit do governo, apesar de criticar a o papel ambíguo do BC e o conflito de interesses do BB e do tesouro.

Por último, Pastore ainda mostra que a indexação salarial perpetua a inflação, principalmente se os reajustes incorporarem somente a inflação passada. O PAEG começou bem nesse quesito, entretanto, o governo perdeu a mão nas indexações a partir de 67. Num regime de livre mobilidade de capitais perde-se o controle sobre a política monetária, nesse sentido, o regime de minidesvalorização cambial, visando manter o PPC cria um canal de transmissão entre o cambio nominal e a inflação, que antes não se verificava. Nesse contexto, está caracterizado o porque da inflação no Brasil a partir da década de 70 apresentar tanta memória, pois a conjunção desses fatores: indexação salarial, pass-through da depreciação cambial na inflação e uma política monetária passiva era uma conjunção perfeita mais tarde para caracterizar a megainflação.

Portanto, o PAEG lançou as bases para o forte crescimento econômico observado na década de 70, que Pastore explica pelo subsídio às exportações e pelo crescimento do comercio internacional, apesar do câmbio valorizado ter atrapalhado, mas o ganho de produtividade preponderou. Ainda é frisado que o endividamento externo e choque do petróleo e conseqüente escassez de financiamento internacional rumou o Brasil para o período que ficaria conhecido como “década perdida”.

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