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Um Brasil sob a miopia temporal

novembro 1, 2010

Por Adriano Dutra Teixeira

Duas palavras retratam parte do que aconteceu no período eleitoral: miopia temporal. Com tal comportamento, no caso das eleições, o candidato vê com muita intensidade aquilo que está próximo – por exemplo, as imperfeições do candidato adversário -, mas não consegue ter a mesma clareza em relação ao seu interesse futuro. As propostas, é segredo, não digo. Todos cegos, cegos para os projetos concretos, para a equipe que o ajudará a governar, olhos vendados para o que realmente importa. Em poucas palavras, os candidatos mostraram uma enorme incapacidade de cuidar do nosso próprio amanhã.

É interessante que muitas vezes as palavras de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa refletiram-se nas atitudes dos candidatos:

Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…

Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,

E assim será possível; mas hoje não…

Não, hoje nada; hoje não posso.

A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,

O sono da minha vida real, intercalado,

O cansaço antecipado e infinito,

Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…

Esta espécie de alma…

Só depois de amanhã…

Hoje quero preparar-me,

Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…

Ele é que é decisivo.

Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…

Amanhã é o dia dos planos.

Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;

Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…

[…]


Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.

Só depois de amanhã…

[…]

Depois de amanhã serei outro,

A minha vida triunfar-se-á,

Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático

Serão convocadas por um edital…

Mas por um edital de amanhã…

Hoje quero dormir, redigirei amanhã…

Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?

Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,

Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…

Antes, não…

Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.

Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.

Só depois de amanhã…

[…]

Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…

Sim, talvez só depois de amanhã…


O porvir…

Sim, o porvir…”


Os candidatos disseram programaticamente: “Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã…”. Quase trinta milhões de brasileiros responderam: “Talvez depois de amanhã meu voto seja seu.”

4 Comentários leave one →
  1. novembro 1, 2010 1:29 pm

    Uma observação: os quase 30 milhões referidos no final do texto representam o total de abstenções, o equivalente a 21,5% dos eleitores.

  2. Melissa Leal permalink
    novembro 1, 2010 3:59 pm

    Saalve salve! como vcs sabem, ja acompanho vcs há um bom tempo no twitterr. Conversamos bastante lá, né? Legal esta cobrança de vcs com os candidatos para a apresentação de propostas concretas. Sobre as abstenções, como vcs mesmo disseram “É a nossa democracia em peso na praia.” Sobre a vitória da Dilma, realmente, nas palavras de vcs são “Dois Brasis e duas verdades.” mas prefiro ver como a vitória da democracia. A verdade é que Lula fez um aauê todo e só conseguiu transferir metade de sua popularidade pra Dilma. Continuem escrevendo!bjos..

    • novembro 7, 2010 3:24 pm

      Olá Melissa, venho agradecer sua participação aqui no Blog e no nosso twitter @ProsaEconomica. Obrigado também pelo incentivo, fique tranquila, continuaremos a escrever. Grande abraço, Adriano.

Trackbacks

  1. Inflação, sempre ela « Prosa Econômica

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