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Inflação, sempre ela

novembro 12, 2010

Por Luiz Henrique Pacheco

Algumas ideias nascem pejadas. Lendo o post do Adriano sobre miopia temporal, me ocorreu uma. A miopia intertemporal que não se restringe aos eleitores, na verdade é um mal que acomete uma grossa parcela da população. Mas o assunto que vou me deter não é bem esse, pois pensando no problema da miopia, nasceu no pensamento, a prole dessa ideia: a inflação.

Evidente que a inflação não é decorrência exclusiva de uma lei psicológica, muito pelo contrário, ela pode ter diversas origens, as duas mais conhecidas são: 1) fenômeno da economia monetária e 2) fenômeno da economia real. No primeiro caso temos a situação clássica em que a autoridade monetária imprime moeda sem se preocupar com a sua respectiva demanda. Em geral, esse expediente é utilizado para salvar a pele do Tesouro. A autoridade monetária imprime moeda para enxugar os títulos do Tesouro, jogando dinheiro na economia, aumentando a demanda agregada, criando um descompasso com a oferta agregada, que no curto prazo é inelástica (sem capacidade ociosa) o resultado é um processo inflacionário para restabelecer o equilíbrio.

Já no segundo caso, é muito comum haver choques na economia. Por algum motivo as pessoas passam a consumir mais (choque de demanda) ou por qualquer outro motivo, a economia passa a produzir menos (choque de oferta). Mais uma vez o descompasso entre a oferta agregada e a demanda agregada, fará subir os preços até que o equilíbrio volte.

É muito difícil no calor dos acontecimentos constatar que a semente do fenômeno inflacionário está vingando no substrato das trocas. Em retrospectiva é muito fácil tocar o nervo da questão. O Brasil entre 1980 e 1994 viveu um período de severa enfermidade. Uma mistura de choques, crises, ajustes, estagnação e o pior dos males: inflação e hiperinflação deixou a economia muito doente, em que todas as simples decisões se mostravam muito atabalhoadas, em que, paulatinamente, todas as tentativas de cura se mostravam frustradas. Então veio o elixir supremo: o plano Real que convalesceu a economia desses males.

No período citado, diversos diagnósticos de inflação foram proferidos. O da inflação inercial, cujo mecanismo de acionamento era processo de indexação da economia. Ocorre que no plano Cruzado que aceitava esse diagnóstico tentou desindexar a economia, não deu certo, de 220% a.a. a inflação pulou para 607% em 86. No plano Collor, de 1990 a inflação mensal chegou a 81% no mês de dezembro, um absurdo.

Olhando a série, percebe-se que os planos corromperam a “ordem natural” do processo inflacionário brasileiro. As “quebras” nítidas ocorrem exatamente nos anos dos planos, que visivelmente elevou o patamar inflacionário, que vinha crescendo, embora lentamente. Tivemos o plano Cruzado em 86, o plano Bresser em 87, plano verão 89 o plano Collor I em 90 e o plano Collor II em 91 e por fim o plano Real em 94. Esses planos evidenciam a propensão da sociedade brasileira em adiar o ajuste e deixar para cuidar do amanhã depois.

Não se engana os agentes com estratagemas, foi o que esse período comprovou. Eis que em 94, orientado do diagnóstico de inflação enquadrado no primeiro caso desse texto: déficit público. A economia se recuperou, muito embora os efeitos colaterais tenham se materializado no parco crescimento econômico observado desde 1994, mas isso é assunto para outro texto.

3 Comentários leave one →
  1. novembro 12, 2010 2:52 pm

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  2. Adriano D. T. permalink
    novembro 12, 2010 7:29 pm

    Ótimo post Luiz, concordo contigo que a miopia intertemporal não se restringe aos eleitores, o excesso de imediatismo é um fenômeno que atinge muitos e em uma gama de outras perspectivas.

    Sobre o seu post é interessante notar que a disparada da inflação ocorreu de maneira conjunta com uma perda de dinamismo, em termos de PIB, da nossa economia. Não dá pra tirar o mérito do Plano Real no que diz respeito a queda da inflação. Com o plano, a elevação da demanda provocou a expansão da atividade econômica. E isso pôde ser observado pelo aumento significativo da produção industrial alguns meses após ser introduzido o Plano Real, principalmente nos setores de bens de consumo e bens de capital. Abraço!

  3. Luiz Henrique permalink
    novembro 16, 2010 2:01 pm

    Você tem razâo, e está sempre bem informado. Logo após o Plano Real, a atividade econômica voltou sim, e com vigor. As empresas voltaram a depender do faturamento da produção e não dos seus respectivos departamentos financeiros, na ciranda da inflação.
    O problema na minha opinião foi justamente o da expansão do consumo. Devido ao controle cambial, o preço dos tradables diminuiu, ao passo que os non-tradables aumentaram de valor, causando distorçoes nos preços relativos e na distribuiçao de renda. Daí que veio o remédio amargo das altas taxas de juros.

    Abraços.

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