Skip to content

Custos da tragédia: a gota d’água foi só o começo

janeiro 27, 2011

Por Juliana Oliveira

O montante de 300 mm de chuva em 24 horas (dados do Instituto Nacional de Meteorologia, Inmet) que atingiu a área serrana do Rio de Janeiro devastaram a região. Vendo as fotos nem parece que naquele cenário existiam cidades. Mais de 800 mortos. Inúmeros desaparecidos e desabrigados. Considerado um dos 10 piores deslizamentos no ranking da ONU. Prejuízos e custos incalculáveis. Como mensurar o “valor” das perdas humanas ou os “custos” dos “danos psicológicos” causados pela tragédia?

Segundo entrevista com Sílvio Tavares, da Embrapa, a área serrana do Rio de Janeiro é mais que propicia ao evento que ocorreu. “As vertentes são muito íngremes e muito longas. E esse é um processo natural de formação do solo nas baixadas.” Segundo ele, o correto seria que estas regiões não fossem ocupadas. Isto porque, segundo dados oficiais, no Brasil, 5 milhões de brasileiros vivem em áreas de risco. Para Sílvio, o planejamento urbano deveria conter uma ação de mapeamento das áreas de risco, evitando assim ocupação das mesmas, e quando o custo de retirada fosse inviável, reduzir o risco com obras de contenção, o que exigem muito recursos.

R$ 36 milhões poderiam ter evitado a tragédia da região se tivessem sido aplicados para tanto, como foi proposto no plano do PAC 2 de 2010. O dinheiro seria gasto para que além da utilização de sistemas de radares, houvesse uma equipe de apoio para observação e contato direto com a Defesa Civil.

O governo agora se propõe a financiar o possível, liberando saques de bolsa-familia, adiando pagamento de impostos. Para os desabrigados, o Estado comprometeu-se com o pagamento de um “bolsa-aluguel”, porém a expectativa do mercado é que não haverá moradia para todos e, portanto, já é esperado que o preço das mesmas supere o valor deste auxílio. O FGTS será liberado para cerca de 170 mil trabalhadores de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo conforme o Conselho Curador do fundo, numa estimativa de R$ 492 milhões do fundo a ser sacado, sendo o limite de 10 salários mínimos por pessoa. Outros R$ 400 milhões foram liberados via MP, que serão financiados pelo BNDES para servir de capital de giro e investimento, aos juros de 5,5% ao ano, para as empresas e empreendedores, neste caso não só para as áreas da região serrana mas para todas que declararem estado de emergência ou calamidade pública, dadas as circunstâncias das chuvas. Ainda, o governo já havia liberado outros R$ 1,18 bi ao Rio, para ajuda emergencial e outros R$ 780 milhões para recuperação das cidades devastadas.

Quanto às perdas econômicas calculáveis, o governador do estado do Rio, Sérgio Cabral afirmou que o prejuízo na agricultura deve chegar à R$ 270 milhões devido a perdas de safras, infra-estrutura e problemas no escoamento da produção. O isolamento das regiões, afetado pela destruição da maioria das vias de acesso à mesmas, além de afetar o escoamento e ajuda, também prejudica o turismo. Em Petrópolis, onde esta atividade representa cerca de 20% da economia, as perdas devem chegar à R$ 1,6 mi, principalmente devido ao cancelamento de reservas para os próximos meses.  O declínio do turismo afeta outras áreas econômicas, elevando assim o impacto negativo nas contas dos municípios.  O ministério da cultura ainda não conseguiu mensurar todos os danos causados pelas chuvas na zona histórica desta região: além destes não poderem ser reparados da mesma forma que o de outras construções, sua contabilização irá elevar todo o custo desta tragédia. Em Nova Friburgo, estima-se uma perda de R$ 300 milhões, incluindo só os danos materiais.

Concordo com o comentado pelos jornalistas do Manhattan Connection na Globo News:  não é só o Brasil que sofre com os problemas de enchentes. Na Austrália, onde choveu bem mais que aqui, morreram cerca de 30 pessoas isto graças à eficiência dos mecanismos de gestão de desastres ambiental. Este desastre mostra a fragilidade do Brasil frente à força da natureza. Uma fragilidade que até certo ponto é responsabilidade do poder público. Para o Le Monde, “a nova tragédia (na região Serrana no Rio), como outras no passado, ilustra a negligência criminosa de algumas autoridades eleitas. Por demagogia ou interesses eleitorais, eles deixaram que o concreto tomasse os morros, ou mesmo encorajaram a especulação imobiliária”, afirma o artigo. O artigo cita as falhas nas previsões, sistema de alerta e ocupação em áreas de risco.

Segundo Debarati Guha-Sapir do Centro de Pesquisas sobre a Epidemiologia de Desastres (Cred), “Este foi o 37º deslizamento de terra no Brasil em menos de dez anos”.  A professora considera um absurdo o país não conseguir enfrentar este “perigo natural”. “Imagine se o País também enfrentasse terremotos, vulcões ou furacões. O Brasil não é Bangladesh, não tem desculpas”, afirma.

Considero que o custo com a prevenção desta tragédia seria muito menor que sua reparação. Friamente, fico apenas pensando no “déficit” que esta tragédia vai criar nos cofres do governo: são os custos de reparação, ajuda mais os custos de prevenção, que agora deverá ser implantando. Gastos em dobro. Ninguém ensinou nossos políticos a utilizar o dinheiro de forma econômica? O ideal é evitar e não remediar. Frente a toda a responsabilidade pública sobre tal acontecimento, espero que os administradores aprendam com esta tragédia que dinheiro é pra ser usado de forma EFICIENTE e não a benefício político.

Custos da tragédia: a gota d’água foi só o começo

janeiro 27, 2011

Por Juliana Oliveira

O montante de 300 mm de chuva em 24 horas (dados do Instituto Nacional de Meteorologia, Inmet) que atingiu a área serrana do Rio de Janeiro devastaram a região. Vendo as fotos nem parece que naquele cenário existiam cidades. Mais de 800 mortos. Inúmeros desaparecidos e desabrigados. Considerado um dos 10 piores deslizamentos no ranking da ONU. Prejuízos e custos incalculáveis. Como mensurar o “valor” das perdas humanas ou os “custos” dos “danos psicológicos” causados pela tragédia?

(mais…)

23 Comentários leave one →
  1. janeiro 27, 2011 10:00 pm

    Os comentários abaixo que começarem o nome com ‘@’ são respostas que nossos seguidores nos enviaram via Twitter. Deixe seu comentário também!

  2. @elderSilvaBa permalink
    janeiro 27, 2011 10:02 pm

    Desastre causado pela irresponsabilidade da falta de planejamento urbano do Estado.

  3. @Caio_Tito_ permalink
    janeiro 27, 2011 10:03 pm

    Pra mim, a destruição material foi a menor de todas. Foi uma destruição ideológica, da forma como concebemos a natureza.

  4. @mefleal permalink
    janeiro 27, 2011 10:06 pm

    Perspectiva econômica da tragédia? então estamos falando de custo de oportunidade. Ah se o governo soubesse disso…

  5. @mefleal permalink
    janeiro 29, 2011 4:48 pm

    Sim. Quanto se perdeu com todo o desastre que poderia ter sido evitado com prevenção, que sairia bem mais barato.

  6. @natanfontenele permalink
    janeiro 29, 2011 4:50 pm

    No mundo, os desastre naturais causaram um prejuízo de US$ 109 bi em 2010! Isso é assustador!

  7. @ Gabrieloeen permalink
    janeiro 29, 2011 4:50 pm

    A economia é afetada pelos consumidores que perderam seus bens, e que agora tem que usar os seus recursos para recomeçar.

  8. @FalahSerious permalink
    janeiro 29, 2011 4:52 pm

    As pessoas em geral pensam somente no hoje .. se alguns meses atrás fizessem obra de prevenção, diriam que era desnecessário.

  9. @mefleal permalink
    janeiro 29, 2011 4:53 pm

    A chuva era prevista. Não houve prevenção alguma. O resultado de tanto descaso foi a maior catastrofe da historia do Brasil.

  10. @FalahSerious permalink
    janeiro 29, 2011 4:53 pm

    O que mais assusta as pessoas na verdade é perder a ilusão de que estamos no controle de nossas vidas.

  11. @Gabrieloeen permalink
    janeiro 29, 2011 4:54 pm

    A economia é afetada pelos consumidores que perderam seus bens, e que agora tem que usar os sers recursos para recomeçar

  12. @Gabrieloeen permalink
    janeiro 29, 2011 4:54 pm

    + enquanto poderiam estar usando esses recursos em outros pontos da econômica, vêem-se obrigados a reconstruir suas vidas.

  13. @Airtonteves permalink
    janeiro 29, 2011 4:55 pm

    Pra mim, os governos municipais. Eles tem obrigação de manter os moradores pobres da construção em terra barata.

  14. @Airtonteves permalink
    janeiro 29, 2011 4:56 pm

    Os municipais, já que é nas cidades que a dinâmica de crescimento e ocupação desordenada se dá. As outras esfera, não adivinham

  15. @LPerdomoGestao permalink
    janeiro 29, 2011 4:57 pm

    Quem tem a responsabilidade de organizar e fiscalizar o uso do solo? De aprovar construções? O Municipal.

  16. @Gabrieloeen permalink
    janeiro 29, 2011 4:57 pm

    Todos, pois nenhum apresenta projetos concretos e sucessivos de proteção ao meio ambiente

  17. @opinionatico permalink
    janeiro 29, 2011 4:58 pm

    Quem é responsável pela segurança e bem-estar da minha família? O governo?

  18. @ Gabrieloeen permalink
    janeiro 29, 2011 4:58 pm

    a convicção (de mundanças na aplicação do dinheiro publico) vem de cada um. Essa é uma revolução difícil de acontecer, mas deixar de tentar é a pior solução.

  19. @ Gabrieloeen permalink
    janeiro 29, 2011 4:59 pm

    Vivemos em um país em que a forma política importa mais do que a eficiência, logo, não poderíamos esperar por menos

  20. @airtonteves permalink
    janeiro 29, 2011 4:59 pm

    Falou tudo. O que existe é um tremendo de um tradeoff entre interesses políticos e eficiência social
    Quando existe informação assimétrica (por exemplo de locais de risco para morar) é dever do governo intervir

  21. @FalahSerious permalink
    janeiro 29, 2011 4:59 pm

    Obras de prevenção dão votos???

  22. @ washbonfim permalink
    janeiro 29, 2011 5:00 pm

    o que mais assusta as pessoas na verdade é perder a ilusão de que estamos no controle de nossas vidas..

Trackbacks

  1. Sim, o poder público é o responsável. Opinião dos twitteiros para a tragédia do Rio. « Prosa Econômica

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s