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Otimismo na tragédia?

março 17, 2011

Por Adriano Dutra Teixeira

: )

Seria uma grande insensibilidade da minha parte dizer que existe algo de positivo numa tragédia como a ocorrida no Japão. Mas, os trabalhos que li sobre tragédias anteriores são bastante animadores. Queria comentar alguns pontos da teoria econômica do crescimento e apresentar alguns resultados encontrados em pesquisas da Economia das Catástrofes.

O que diz a Teoria Econômica?

A teoria do crescimento não tem uma resposta clara sobre a questão de se as catástrofes naturais afetam o crescimento econômico. De maneira bem resumida, os modelos tradicionais neoclássicos de crescimento prevêem que a destruição de capital (físico ou humano) não afeta a taxa de progresso tecnológico e, portanto, pode apenas alterar as perspectivas de crescimento a curto prazo, levando o país a inicialmente crescer fora do seu crescimento equilibrado do seu estado estacionário.

Já os modelos de crescimento endógeno fornecem previsões bem menos definidas no que diz respeito à dinâmica de saída. Por exemplo, modelos baseados no processo de destruição criativa de Schumpeter (como este) podem até atribuir um maior crescimento como resultado de choques negativos, levando em conta que podem ser catalisadores para o reinvestimento e modernização de bens de capital.

Em contraste, modelos de crescimento endógeno do tipo AK que apresentam tecnologia de retornos constantes de capital prevêem nenhuma mudança na taxa de crescimento na sequência de um choque negativo de capital; enquanto que os modelos de crescimento endógeno que exploram retornos crescentes de escala  prevêem que a destruição de parte do capital físico ou humano resulta em um menor caminho de crescimento e proporciona, consequentemente, um desvio permanente da trajetória de crescimento anterior.

Assim, a questão de se os desastres naturais afetam ou não o crescimento econômico é, em última instância, uma questão empírica e é sobre isto que falarei agora.

O que dizem as pesquisas empíricas em Economia das Catástrofes?

Um recente estudo de Cavallo e seus comparsas muito contribuiu para esta literatura. O estudo fez uma aproximação comparativa de eventos, através da construção da trajetória contrafactual, ou seja, construindo a trajetória do PIB do país afetado na ausência de catástrofes naturais e comparando com a trajetória real do PIB do país após ser atingido pela tragédia.

O trabalho verificou que as catástrofes naturais não têm qualquer efeito significativo sobre o crescimento econômico subsequente. Na verdade, os únicos casos em que grandes catástrofes naturais foram seguidas por um declínio importante no PIB per capita foram os casos em que a catástrofe natural foi seguida por uma revolução política radical, que afetou gravemente a organização institucional da sociedade.

Um outro estudo de Mark Skidmore e Toya Hideki foi ainda mais ousado. Verificou que alguns desastres podem aumentar o PIB. O argumento defendido é que ao forçar atualizações em tecnologia e infraestrutura e oferecer oportunidades para a reavaliação dos modos arraigados de atividade econômica, um maior nível de produtividade seria alcançado gerando, eventualmente, ganhos líquidos em crescimento. Os autores verificaram isso para alguns desastres relacionados ao clima, mas não para desastres geológicos.

E, por fim, em outra pesquisa, o professor George Horwich lembra que o terremoto de 1995 em Kobe, no Japão, causou cerca de US$100 bilhões em danos. Dentro de 15 meses, a atividade manufatureira estava de volta a 98% dos seus níveis de pré-terremoto. Trecho da pesquisa:

“Destruir qualquer quantidade de capital físico, mas deixar para trás um número crítico de conhecedores seres humanos, cujos cérebros ainda abrigam a cultura e tecnologia de uma economia dinâmica, e o capital físico tende a ressurgir de forma quase espontânea.”

Vale para o caso atual do Japão?

Esperemos que sim. As circunstâncias de hoje são naturalmente diferentes. Reforço, portanto, cada uma das minhas preocupações ligadas à deterioração das finanças públicas descritas no meu último post. Será necessário ver o quanto essa tragédia vai afetar a produção japonesa seja na geração de energia, seja na obtenção de matérias-primas. E averiguar, quanto tempo a demanda do país vai precisar para superar o trauma.

5 Comentários leave one →
  1. @maxmiliano permalink
    março 18, 2011 11:27 am

    Engraçado Adriano! Primeiro essas teorias somente funcionam para países ricos. Segundo o post poderia ter o mesmo corpo de texto seguido por três palavras finais: “E o Haiti?”. Me pergunto se não seria este post elitista? Digitei HAITI na busca do blog e nada encontrei, digitei então TRAGEDIA e nenhuma menção sobre Haiti. Uma ultima pergunta: Porque essa teoria não serve para o Haiti?

    • março 18, 2011 6:16 pm

      Olá Max!! Comentei no post que a teoria econômica do crescimento não tem uma resposta clara sobre a questão de se as catástrofes naturais afetam o crescimento econômico, vai da linha de pensamento que escolhermos. Mas posso garantir que a teoria não costuma ser elitista ou preconceituosa. Talvez, você esteja se perguntando porque as pesquisas empíricas que eu mencionei não citam o Haiti. Provavelmente porque a tragédia no Haiti ainda é muito recente em termos de teoria do crescimento que costuma trabalhar com dados de longo prazo.

      Chegou a dar uma olhada nas pesquisas empíricas que mencionei? Vamos analisá-las juntos:

      1) A primeira (do Cavallo), é uma pesquisa que engloba 196 países (portanto ricos e pobres) num período de 1970-2008. Podemos nos perguntar, caso futuramente esta pesquisa seja refeita com os dados do Haiti será que essa tragédia de 2010 teria causado efeitos estatisticamente significativos no crescimento? Lembremos que o artigo diz que catástrofes naturais seguidas por revolução política provoca severas penalidades no PIB, veja que nesse ano mesmo, o Haiti está mergulhado em uma grave crise política com as eleições. Se esta situação política se agravar, o ‘otimismo da pesquisa’ fica inaplicável ao caso do Haiti.

      2) Na pesquisa do Skidmore: “Os autores verificaram isso para alguns desastres relacionados ao clima, mas NÃO para desastres geológicos.” Então também fica inaplicável ao caso do Haiti.

      3)Na pesquisa de Horwich, o autor pressupõe que antes da tragédia o país possua instituições consolidadas (e que estas sejam mantidas com uma tragédia) e tecnologia suficientes para que após o ocorrido, o capital possa ser reconstruído.

      Claro, honestamente, sem dúvida países com maiores níveis de renda, educação e desenvolvimento financeiro sofrem menos perdas de um desastre natural. À medida que a renda aumenta em uma sociedade, sociedades podem dedicar mais recursos à segurança.
      O Haiti além de tudo sofre com a burocracia de suas instituições até para receber ajuda internacional.

      Max, este blog foi criado em meados de julho de 2010 por isso não tem nenhuma matéria sobre a tragédia no Haiti. Abraço!
      Adriano.

  2. João H Baldo permalink
    março 22, 2011 10:32 am

    Relações Interessantes!
    O flexibilidade de relacionar toda e qualquer área com a influência econômica sempre me atrai. As teorias apresentadas, em especial a de Schumpeter, são uma forma não somente de tentar criar expectativas positivas e reais, haja vista o poder das instituições japonesas, como possibilitar ao leitor a oportunidade de abstrair e utilizar do mesmo pensamento comparativo com suas ações e consequentes reações pessoais. Quantos de nós nunca, após ter perdido algo que achava insubstituível, acaba conseguindo algo que, nos satisfez ainda mais que o almejado incialmente?

    Parabéns pelo post.

    • março 26, 2011 6:44 am

      Olá João! Muito obrigado pelo elogio e pelo comentário. Esse é um dos motivos que me faz gostar de economia também. Teoria e ferramentas tornam economia uma ciência muito rica. Compartilho da mesma opinião que você, acredito que o Japão tem a seu favor fortes instituições, tecnologia e elevada poupança que são elementos importantes para o reinvestimento.
      Abraço!
      Adriano.

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  1. Contra a maré « Prosa Econômica

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