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Sua pesquisa na Prosa: uma conversa com André Santoro

outubro 9, 2011

Tive o imenso prazer de conversar hoje com André Falkenbach Santoro, aluno de graduação em Economia da UFRJ. André faz pesquisa em Economia Ambiental, participa de um Grupo de pesquisa nesta área e fez um intercâmbio na Stanford University. Confira abaixo tudo o que conversamos.

André, conta pra gente, quando foi que os economistas se deram conta que a economia tem ferramentas para estudar o meio ambiente?

André – A economia ambiental existe há um bom tempo, porém só começou a ganhar notoriedade e espaço na mídia a partir dos anos 90, quando a discussão acerca do aquecimento global começou a crescer. Este campo da economia está extremamente atrelado ao conceito de externalidades, por isso, é um erro pensar que a economia ambiental surgiu faz pouco tempo. Desde os princípios da microeconomia neoclássica nós ouvimos como exemplo de externalidade negativa a indústria siderúrgica que joga seus dejetos no rio e afeta os pescadores gerando um prejuízo na economia como um todo. É neste momento que surge a economia ambiental, cujo objetivo é atribuir um valor monetário para o dano gerado pela indústria aos pescadores, no caso do exemplo citado acima. Todo esses estudos foram desenvolvidos ao longo dos anos, e hoje temos uma bibliografia vasta e complexa acerca de como realizar a valoração de danos ambientais e, consequentemente, acerca da economia ambiental.

Os pesquisadores Martin Weitzman e William Nordhaus foram fortes candidatos ao Prêmio Nobel de Economia e quase ganharam o título por seus trabalhos em Economia Ambiental no ano passado. Além deles, para quem deseja começar a estudar essa área, quais são os autores consagrados que você aconselha para começo de leitura?

André – Existe um livro chamado “Natural Resources and Environmental Economics” escrito por professores da Strathclyde University, na Escócia, que é, sem dúvida, a bíblia acerca da economia ambiental. É um livro grande, porque resume tudo o que foi material de pesquisa no campo desde o seu princípio até o fim dos anos 90, quando o assunto já estava presente no mundo todo. Quem se dispor a ler vai encontrar desde capítulos discutindo o lema de Hotelling e seus princípios de uso ótimo de recursos naturais, até outros em que se discute qual o papel do Estado na proteção do meio ambiente.

Porém, nós temos a felicidade de termos um material de alta qualidade nacional acerca do tema. Professores como Peter May, da UFRRJ, Ronaldo Seroa da Motta, da COPPE, e o Carlos Eduardo Young da UFRJ tem uma vasta produção científica a respeito de meio ambiente e economia que é interessante pesquisar. Sugiro para quem quiser conhecer mais, visitar a home page do nosso grupo onde temos boa parte da produção bibliográfica desses autores. Alguns trabalhos que eu recomendaria para quem está começando são: “Projeto de Instrumentos Econômicos para Gestão Ambiental”; “Valoração de recursos naturais como instrumentos de análise da expansão da fronteira agrícola na Amazônia” e “Measuring sustainable income from mineral extraction in Brazil”, onde temos um exemplo prático de um projeto de extração de minério com cálculo de valoração ambiental.

Você comentou que você faz parte de um grupo de pesquisa em Economia Ambiental na UFRJ. Conte-nos mais sobre o Grupo.

André – O GEMA (Grupo de Economia do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável) tem como professor responsável Carlos Eduardo Frickmann Young, mais conhecido como o Cadu. O Cadu é professor do Instituto de Economia da UFRJ há mais de 20 anos. Sua especialidade é macroeconomia e contas nacionais. Porém ele sempre participou do debate de economia ambiental e na segunda metade dos anos 90, decidiu criar o GEMA e focar sua pesquisa nesse tema.

O GEMA sempre foi formado por bolsistas de graduação, que trabalhavam direto com o Cadu na elaboração de produção científica. Foi só a partir de 2004, 2005, que a demanda por trabalhos fez o grupo crescer e, com isso, passou a incorporar bolsistas de pós-graduação e até mesmo economistas já formados e de renome nos projetos do grupo.

Todos os projetos do grupo estão no site, e um dos quais teve maior repercussão foi o trabalho feito pela, na época bolsista, Viviam MacKnight, com orientação do Cadu, que fez a valoração dos danos provocados pelos ônibus urbanos na região metropolitana de São Paulo. O trabalho chegou a ser publicado em jornais e revistas, sendo todas estas publicadas no site.

Hoje o grupo é formado por quatro participantes: Júlia Queiroz, que acaba de terminar o mestrado em economia na UFRJ; Leonardo Bakker, que acaba de terminar a graduação em economia aqui também; e eu e o Guilherme Lima, ambos ainda na graduação.

A sua pesquisa trata do que exatamente?

André – Bom, acredito que já tenha dado uma idéia do que nós trabalhamos aqui no grupo. Atualmente, estamos trabalhando acerca das discussões sobre o novo Código Florestal no Senado Federal e no Congresso. O Cadu hoje tem uma influência muito grande com os ambientalistas, por isso ele já teve duas apresentações esse ano em Brasília, e temos escrito notas técnicas, que infelizmente ainda não foram publicadas e por esse motivo não posso ainda divulgar, para defender a posição ambientalista na discussão. Quando divulgadas com certeza irei mandar para os coordenadores do blog para adicionarem aqui!

A respeito do financiamento, todos nós somos pagos com bolsas de iniciação científica do CNPq, cujo valor é sim, baixo, porém a oportunidade de aprendizado é muito grande e o próprio Cadu serve como uma ótima porta para entrada no mercado de trabalho neste setor ambiental.

Stanford University

Li no seu perfil do LinkedIn que você fez um intercâmbio na Stanford University. Você acredita que o intercâmbio contribuiu para a sua pesquisa?

André – Meu intercâmbio pouco teve a ver com a minha pesquisa em si. Fui para Stanford com o objetivo de aprender mais sobre finanças e computação, ambos assuntos que me interessam muito e que não estão presentes na minha formação acadêmica. Porém, foi possível conviver com profissionais do ramo ambiental que estudavam na faculdade e ficar impressionado com os projetos desenvolvidos por eles. O foco de toda Stanford University é tecnologia (não dá para querer muito mais de uma faculdade no meio do Vale do Silício!) e quando se trata de meio ambiente as linhas de pesquisa são todas voltadas para biologia, química e outras ciências e em como mitigar danos ambientais. Por isso posso afirmar que em termos de economia do meio ambiente, o intercâmbio não acrescentou em muito o meu conhecimento. Porém, não vou negar que aprendi muito acerca de organização, método científico, busca de financiamento, entre outras coisas que estão muito ligadas à produção científica e em que as universidades norte-americanas estão anos luz à nossa frente.

Quer participar do “Sua Pesquisa na Prosa”? Saiba mais aqui.

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