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Sua pesquisa na Prosa: uma conversa com Elton Portela

outubro 23, 2011

Conversei hoje com Elton Portela, aluno de graduação em Economia da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) na Bahia. A UESC foi a instituição que sediou o XXVI Congresso de Economia da ANGE e o Elton foi quem esteve à frente da transmissão online.

Elton, acabamos de transmitir o Congresso da ANGE cujo tema foi “Desafios da formação: o que devem os economistas aprender hoje?”. Você que estava lá, participou de perto do Congresso, trocou ideias com professores de diversos centros do país, quais as propostas de reforma curricular que os professores mais desejam?

Elton – Adriano, mais uma vez a ANGE quer que os cursos de graduação em Economia sejam imparciais no ensino aos alunos. Essa imparcialidade, segundo professores e a própria ANGE, é a apresentação aos alunos de todas as escolas e métodos para se fazer ciência em Economia. Outro fato importante, é o link entre o que é ensinado na graduação e as necessidades do mercado. Há uma preocupação por parte da ANGE de formar economistas com alto nível de empregabilidade e houve duas vertentes nesse ponto. Por um lado, alguns professores defendem que as disciplinas ofertadas devem estar diretamente ligadas às necessidades do mercado. Outro grupo de professores avalia essa forma de ensino como uma graduação preocupada exclusivamente com o curto prazo e que muitas disciplinas fundamentais para a formação sólida do economista podem simplesmente não serem mais ofertadas devido à falta de interesse do mercado. E outra questão seria: qual mercado atender? Pois em um país com as dimensões do nosso e com as especificades que cada região, o mercado para o economista se torna amplo e possui vários nichos com demandas diferentes. Por isso, a maioria dos professores acredita que a imparcialidade do ensino de Economia já garante um bom profissional para atuar em qualquer mercado e é possível que cada centro se especialize ofertando determinado grupo de matérias optativas para atender às demandas locais.

Outra questão importante foi a forma de ensino e o peso de matemática e estatística no currículo. Coordenadores de curso de todo o país compartilharam suas experiências com novas metodologias de ensino e com a formação quantitativa do economista. Mais uma vez, a questão é ideológica. Cobrar mais ou menos matérias de cálculo na graduação significa ser mais ou menos ortodoxo ou heterodoxo. E nesse ponto há uma insatisfação dos professores que acreditam que Economia é muito mais que econometria, mas concordam que seja ensinado o suficiente de matemática para o bom desempenho do aluno em matérias que exigem o desenvolvimento de modelos.

Ok Elton,  de fato as discussões no evento da ANGE foram muito proveitosas. Aliás, enquanto assisti as palestras do Congresso sobre reforma curricular percebi como são evidentes as peculiaridades de cada Centro! Vou aproveitar pra falar a minha opinião. Acho que os cursos de Economia podem ampliar mais o leque aos estudantes; não sei, talvez isso esteja demorando para acontecer porque o ENADE e a Anpec ainda cobram só a escola neoclássica. Acredito que o curso ideal de Economia é aquele que tem uma estrutura básica – de história, micro, macro, matemática e estatística – que é fundamental a todo economista, mais uma estrutura complementar em que o estudante aloca suas disciplinas de acordo com suas aptidões e preferências. Isso parece óbvio, mas infelizmente muitas faculdades não oferecem nem o básico e a maioria ainda peca na estrutura complementar. Hoje existem estudantes com pelo menos três perfis: aquele voltado para o mercado financeiro, aquele voltado para métodos quantitativos e aquele voltado para história econômica e HPE. Seria interessante se as faculdades oferecessem disciplinas optativas para suprir, pelo menos, estes três perfis.

Ok, agora vamos falar da sua pesquisa. Conte-nos um pouco sobre ela.

Elton – Bem Adriano, minha pesquisa tem como foco o modelo de crescimento baseado na expansão do crédito para consumo e no favorecimento de políticas sociais, ou seja, hoje o Brasil cresce porque há facilidade de crédito para as classes de renda mais baixa e porque essas classes recebem incentivos monetários do Estado para consumir bens de forma irrestrita. A pergunta que eu faço é até quando podemos suportar esse modelo e se ele é sustentável, isto é, é possível continuar crescendo sem ampliação do investimento privado? Minha resposta é não. E se isso ocorrer a economia brasileira dependerá cada vez mais do gasto público e se tornará uma economia em que todo o incremento de renda será destinado ao consumo.

É uma área bastante explorada com vários dados disponíveis, artigos interessantes e incrivelmente dinâmica. Para verificar esse dinamismo, basta citar as novas regras estipuladas pelo BC para os cartões de crédito. Então, além de ler artigos é necessário estar sempre atento ao noticiário econômico, porque sempre há um dado novo e ter uma boa base teórica.

Me parece muito pertinente sua pesquisa. Pensando nos estudantes que pretendem iniciar uma pesquisa nesta área, que artigos você aconselha para começo de leitura? E quais sites você sugere para coleta de dados?  

Elton – Minhas sugestões são:

DADOS: IPEA DATA e BCB Séries Temporais.

ARTIGOS:
Os sites do BC e da Scielo são minhas fontes básicas de pesquisa. O BC tem uma lista de trabalhos para discussão e a Scielo disponibiliza artigos de várias revistas de economia.

CARNEIRO, Dionísio Dias; SALLES, Felipe Monteiro and YEN HON WU, Thomas. Juros, câmbio e as imperfeições do canal do crédito. Econ. Apl. [online]. 2006, vol.10, n.1, pp. 7-23. ISSN 1413-8050.

Relatório do BC: Recolhimento de compulsórios e o crédito bancário brasileiro.

Esses eu usei mais pelo referencial:

ZOUAIN, Deborah Moraes; BARONE, Francisco Marcelo. Excertos sobre política pública de acesso ao crédito como ferramenta de combate à pobreza e inclusão social: o microcrédito na era FHC. Revista de Administração Pública,  Rio de Janeiro,  v. 41,  n. 2, 2007.

SANTOS, Carlos A.. Análise de impactos socioeconômicos do microcrédito: dificuldades metodológicas e analíticas. Revista de Administração Pública,  Rio de Janeiro,  v. 41,  n. 1, 2007.

TORRES, Haroldo da Gama; BICHIR, Renata Mirandola; CARPIM, Thais Pavez. Uma pobreza diferente? Mudanças no padrão de consumo da população de baixa renda. Novos Estudos – CEBRAP,  São Paulo,  n. 74, 2006.

Quer participar do Sua pesquisa na Prosa? Saiba aqui.

2 Comentários leave one →
  1. Débora Teles permalink
    outubro 23, 2011 12:10 pm

    Em primeiro lugar, tenho muito orgulho do Elton Portela. De amigo a economista: o pequeno espaço de tempo que o separa do diploma é irrisório perto do conhecimento que ele possui. A pesquisa dele é digna de prêmio.
    Em segundo lugar, acerca do discussão do congresso da ANGE , acho que cada vez mais o ensino da economia é confuso.
    Essa coisa de ortodoxia e heterodoxia, necessidades do mercado e exigências da academia acabam por confundir o que realmente nós, estudantes de economia, deveríamos aprender. O economista, enquanto estudante, deve experimentar de tudo e esse conhecimento deveria nos levar a escolher que caminho seguir, já que a formação plural que todas as faculdades deveriam proporcionar seria suficiente pra formar profissionais completos, seja pro mercado seja pra academia. Mas, como brilhantemente disse Adriano, algumas faculdades estão pecando no básico. Viva o autodidatismo.

  2. Juliane permalink
    outubro 24, 2011 6:33 am

    Falando sobre o ambiente e formação de um ecoonomista, em meu ambiente percebo que a grade do curso se volta cada vez mais a visão e ideologias de alguns, que em um ato de egoísmo se volta a fazer uma grade apenas de acordo com a sua , exclusiva e única ideologia.

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