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“O microcrédito cria pobres endividados”

fevereiro 9, 2012

Há algum tempo o microcrédito ganhou fama mundial de milagreiro por supostamente tirar grandes massas da pobreza. Cerca de 200 milhões de famílias de baixa renda em todo o mundo já receberam microempréstimos para iniciar pequenos negócios. A estratégia recebe aplausos de líderes políticos e já rendeu até o Prêmio Nobel da Paz a Muhammad Yunus. A questão é: seria o microcrédito a benção que muitos pensam que é?

Hoje, não mais. Digo isto porque até pouco tempo acreditava-se que sim. Além do discurso empolado de líderes políticos, papers em revistas de prestígio (como este) e trabalhos do Ipea (como este) forneceram evidências equivocadas argumentando que os pequenos empréstimos têm um impacto na redução da pobreza, principalmente se o microcrédito for dirigido a mulheres.

Contra a maré, recentes estudos iniciados por David Roodman, matemático professor de Harvard, estão colocando em descrédito o herói da baixa renda. A metodologia dos novos achados é trabalhar com experimentos aleatórios. Isto é, a ideia defendida por Roodman é que a forma eficaz de separar a causa do efeito seria decidir quem vai receber o microcrédito no “cara ou coroa” e depois observar os destinos dos dois grupos com o passar do tempo. Roodman explica em um post em seu blog que a aplicação desta metodologia é essencial já que a associação positiva entre o microcrédito e as despesas das famílias, por exemplo, pode simplesmente indicar que as famílias mais ricas estão buscando mais microcrédito.

Nos estudos de Roodman foram usados dados da Filipinas, Índia e Mongólia e foi encontrado que o acesso ao microcrédito estimula a criação de microempresas (em geral, atividades como a criação de galinhas e costura de saris). Porém, dentro de um ano e meio a evolução é monitorada e o efeito é que, em média, os empréstimos não melhoram os indicadores de pobreza, nem gastos da família ou o número de crianças frequentando a escola. Portanto, hoje a melhor estimativa do impacto do microcrédito sobre a pobreza é nula.

Sobre isso, o meu amigo, o economista Vanderson Rocha, me enviou uma entrevista muito boa do professor David Roodman dada à Revista Época (link aqui). Na entrevista, Roodman comenta que o movimento das microfinanças oferece hoje novos caminhos de serviços financeiros (como poupança e seguros) alternativos ao microcrédito e que são mais duradouros no combate à pobreza.

6 Comentários leave one →
  1. Anônimo permalink
    fevereiro 9, 2012 2:57 pm

    Um grande esparro

  2. Emazoel permalink
    fevereiro 9, 2012 3:04 pm

    Eu estou fazendo minha monografia (TCC) sobre microcrédito. Vou tentar analisar a relação “microcrédito X pobreza” para Pernambuco ou alguma área específica do Estado. Vou ler a entrevista e ler um pouco mais sobre o trabalho de Roodman e o modelo utilizado.

    Muito obrigado por esse post…

    • fevereiro 9, 2012 3:14 pm

      Ok Emazoel, sobre esse mesmo tema foi lançado há uma semana o livro de David Roodman: Due diligence: an impertinent inquiry into microfinance. Link:

      http://www.amazon.com/Due-Diligence-Impertinent-Microfinance-ebook/dp/B006Z6A5J4

      No blog dele também tem vários capítulos disponíveis para leitura:

      http://blogs.cgdev.org/open_book/

      Abraço
      Adriano.

  3. Antônio Galdiano permalink
    fevereiro 16, 2012 6:25 am

    Desculpe o desconhecimento, mas qual o argumento usado pelos favoráveis a distribuição de crédito às familias mais pobres? Sinceramente não vejo como o financiamento ao consumo possa produzir efeitos de médio e de longo prazo de melhoria de bem estar. A idéia foi realmente financiar consumo ou fiz uma presunção errada? Realmente gostaria de ter mais conhecimento e referências nessa área.

  4. Elisabeth permalink
    fevereiro 16, 2012 8:57 pm

    Realmente acredito que o microcredito deveria ser associado a uma educação empreendedora eficaz, onde a população de baixa renda pudesse realmente fazer um upgrade de classe. Mas o que ocorre, justamente o contrário, a campanha de expansão de credito vem para afundar ainda mais o pobre, que faz empréstimo inconsciente, e quando ele se da conta, já esta no fundo do poço, engordando os índices de inadimplencia. Onde irao parar os MEI’s? Uma pena, temos inúmeras maneiras de fazer isso tudo dar certo …

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