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Feito para durar… não muito

março 19, 2012

“Consumir é viver, conviver é sumir” (Paulinho da Viola)

Lada, relíquia da URSS

Um aviso da barra de status do Windows me tirou um pouco do sério. Em um balão aparece o aviso: “considere trocar a sua bateria”. Faz pouco mais de 18 meses que eu possuo o notebook. Como pode acabar tão rápido a bateria de um produto que supostamente é considerado durável?

O lançamento do novo Ipad deixa evidente um fato que há algum tempo tenho pensado a respeito. Os produtos estão sendo lançados no mercado para que seu descarte ocorra rapidamente. De preferência logo após você acabar de pagá-lo no na fatura do cartão de crédito. O Ipod classic, por exemplo, que foi descontinuado em 2007, em seis anos de existência teve sete lançamentos! O Ipad segue mesma trilha. Esse é o terceiro lançamento em 26 meses de história.

O fato é que parece que as mercadorias estão com data de validade, tudo é perecível.  A cada ano um novo Iphone, um smartfone melhor, um modelo de carro com mais tecnologia. A lógica da sociedade consumista nos faz adorar a “obsolescência programada”. Certa vez uma amiga perdeu o celular e achou ruim que haviam devolvido, assim ela não poderia comprar um novo.

Engana-se quem pensa que isso é um fato novo. No documentário “The Light Bulb Conspiracy (2010)” é apresentada a história da popularização do paradigma de que as coisas duráveis deveriam ter obsolescência.

A história começou na década de 1920 quando um cartel de fabricantes de lâmpadas foi formado. A diretriz dos fundadores era clara: abaixar a vida útil das lâmpadas de bulbo para 1000 horas. Entre os lideres do cartel estavam os maiores produtores de lâmpadas: Phillips e Osran. Empresas que ainda lucram muito nesse mercado. De fato o cartel logrou êxito. Em 1915 uma lâmpada durava 2500 horas, já em 1940 a mesma lâmpada não era feita para durar mais que 1000 horas. Como prova da involução das lâmpadas em virtude do cartel, em Livermore, EUA, existe uma lâmpada que funciona desde 1901.

Como contraponto, a economia soviética que apesar de todos os problemas de alocação causados pelo planejamento central fabricava produtos feitos para durar bastante. Quem já teve um Lada ou uma Zenit-E sabe do que eu estou falando.

O fato é que esse amor à obsolescência programada foi produto do marketing agressivo.  Se o argumento na década de 1930 baseava-se no desemprego causado pela recessão, em 1950 os homens do marketing passaram a vendê-la como fator de desejo.

Ocorre que num mundo de recursos escassos e por isso finitos, essa ânsia por produzir mais pode ter consequências funestas num futuro próximo. Pensar em crescimento infinito em um mundo de recursos finitos é coisa de economista. O problema é que agora, todos nós somos economistas, disse um sociógo.

Schumpeter que era fã de paradoxos estava certo ao afirmar que o capitalismo não seria suplantado pelo socialismo por causa da pobreza, ou escassez dos meios, mas sim pelo excesso, pela escalada tecnológica. A sua maior virtude também será a sua bancarrota. O fracasso do capitalismo não se dará pelo seu esgotamento, mas pelo seu excesso de êxito, pelo rendimento cada vez melhor, pelas datas de lançamentos tecnológicos cada vez mais esperadas.

4 Comentários leave one →
  1. Armando Castro permalink
    março 23, 2012 10:36 pm

    A economia soviética produzia artigos para durar, é verdade. Tornou-se um sistema insuportável para seus habitantes. Por isso foi banido. Não parece razoável supor que, para além das manipulações dos donos do poder, o ser humano não vive sem mudanças ?

    • Luiz Henrique Pacheco permalink
      março 25, 2012 9:18 pm

      A vida é uma sucessão de eternos retornos. A mudança pode ser aparente. “People don’t change”. As coisas mudam. Hoje se conversa pela internet, antes via carta. Mas ainda conversamos. Malthus acreditava que a paixão entre os sexos diminuiria com os avanços da vida moderna, mas o casamento nunta esteve tento em voga.

      Não sei se eu consegui te responder, mas eu não acho que as pessoas queiram mudanças. Tudo já é tao efemero, aquilo que muda pouco ganha ares de tradicional e elegante.

  2. Antônio Galdiano permalink
    agosto 24, 2012 8:05 am

    “Um aviso da barra de status do Windows me tirou um pouco do sério. Em um balão aparece o aviso: “considere trocar a sua bateria”. Faz pouco mais de 18 meses que eu possuo o notebook. Como pode acabar tão rápido a bateria de um produto que supostamente é considerado durável?”

    A partir dessa constatação você possui algumas opções:
    1) Criticar o capitalismo observando onde está seus erros e desejando seu fim.
    2) Criticar o capitalismo observando onde está seus erros e desejando que uma entidade coercitiva armada imponha limites a essa “falha de mercado”.
    3) Correr o risco de abrir um negócio ofertando um produto com durabilidade superior, podendo ou não ser bem sucedido na empreitada. Já que os produtores estão adotando uma estratégia arriscada mesmo, podem se dar mal!
    4) Financiar a aposta de negócio de outros que visem justamente ofertar um produto melhor que o atual.
    Ou: criar qualquer outra hipótese e se arriscar com os resultados.

    Geralmente todas a hipóteses se resumem a duas: 1) arriscar-se com o dinheiro próprio visando produzir algo melhor ou 2) arriscar-se com o dinheiro dos outros visando produzir algo melhor.

    O que a sua ética sugere como correto?

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