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É muita demanda

março 28, 2012

Em época de eleições para o diretório estudantil (DCE) na Universidade de São Paulo (USP) as diversas chapas tentam angariar o voto dos alunos. Eles prometem que serão a voz estudantil nas esferas administrativas. O objetivo desse texto não é tratar do programa de cada chapa. É apenas fazer uma crítica ao movimento estudantil e as suas reivindicações.

A estrutura do texto será a seguinte. Primeiro apresentarei o que clama os demandantes do movimento estudantil (ME) e depois argumentos econômicos para refutar as reivindicações. E no final eu sugiro um novo paradigma ao movimento.

Em linhas gerais, o ME quer aumentar os benefícios dos universitários e diminuir o sacrifício pessoal. Querem mais circulares, mais moradia, mais restaurante e mais representatividade política na eleição para reitor. Menos polícia no campus, menos controle de visitantes, menos controle para festas dentro do campus, menos punição aos infratores e regras mais amenas de avaliação.

Lê-se muito a palavra “gratuito” nas cartas-programa.  Para não citar Friedman sobre o almoço grátis, eu cito Machado de Assis: “não se pode ir à Glória sem pagar o bonde.” Nada é grátis. Não é obrigação da universidade ofertar coisas grátis. No final alguém paga por isso. Se a universidade não cobra, sempre haverá escassez, porque com preço zero a curva de demanda nunca equilibrará com a de oferta. Portanto, é o preço que carrega a informação necessária para equilibrar oferta e demanda. Se o circular não é cobrado ou se a cada ano que passa o gap entre o preço da refeição do Restaurante Universitário em relação ao da concorrência aumenta, haverá escassez e racionamento. O somatório daqueles dispostos a consumir nessas condições sempre será maior que a oferta no curto prazo, dado que alguns fatores são fixos. Além disso, aumentar a oferta desses “bens públicos” diminuirá os recursos para os cursos de graduação.

Percebe-se que o ME demanda um assistencialismo sem medida. Se esquecem que a atividade fim de uma universidade é formar profissionais. Seria maravilhoso se junto com a matrícula o calouro ganhasse auxílio para suas necessidades: uma moradia digna, uma condução eficiente, uma comida boa. Mas é inviável. Todos iriam protelar o máximo a saída da universidade. Já que existe uma escassez de meios, os alunos deveriam se comprometer em racionalizar mais esses recursos que lhes são entregues de graça. Se o fim é formar profissionais e pensadores para o país, por que perder tempo com tantas reivindicações infrutíferas, valendo-se de expedientes como greve e ocupação?

Já que esse ensino de qualidade é dado de graça, seria interessante se o ME se preocupasse em reivindicar melhorias para a própria formação de seus pares. Já que a sociedade paga pela educação superior deveriam iniciar uma discussão para compensá-la por esses benefícios. A reivindicação deveria ser por mais comprometimento dos alunos, mais comprometimento dos professores, mais aulas, mais silêncio na biblioteca, regras mais rígidas de avaliação, menos picaretagem, menos “malandragem” por parte dos estudantes, menos funcionários, menos gastos com despesas não relacionadas com a qualidade do ensino na sala de aula e/ou de coalizão de uma classe benemérita para a universidade. Chega de demanda.

5 Comentários leave one →
  1. Antônio Galdiano permalink
    março 29, 2012 11:13 am

    O texto do Luiz Henrique Pacheco está muito bom e é bastante polido, nesse sentido digo que o que segue é sensivelmente menos polido mas representativo da opinião de boa parte da população.
    É muito engraçado esse pessoal do DCE: defendem assistencialismo e benesses para uma classe de cidadãos que estatisticamente tem renda superior à média da população (isso ocasionaria repúdio mortal de muitos dos autores que os membros do ME costumam ler, não acha?). O corporativismo toma conta das pretensões do ME, sem levar em conta que a escassez de recursos a que se submete o governo o impede de realizar melhor prestação de serviço no que realmente é útil para SOCIEDADE como um todo, a saber: saúde e educação de melhor qualidade, universalização do saneamento básico nos bairros pobres, fornecimento de segurança, etc.
    Sob o pretexto de “exercer a cidadania”, este público (e não só este) pretende alcançar benesses exclusivas ao seu grupo, pois sabem (ou deveriam saber) que se todos grupos sociais demandassem mais benesses simplesmente não haveria orçamento governamental suficiente. Assim, implicitamente, os grupos que defendem reivindicações mais abrangentes na verdade pregam o aumento do tamanho do Estado, pregam aquele grande Estado paternalista, pois a composição das demandas assistenciais individuais ou dos grupos de interesse só pode resultar nisso! Imaginem se todo o funcionalismo público estrasse de greve e de fato conseguissem poder de barganha a ponto de terem suas reivindicações aceitas ainda que de forma parcial: isso inevitavelmente iria aumentar o gasto do governo e exigiria impostos mais altos para quitação das novas obrigações.
    Nessa linha de raciocínio, o que todo movimento grevista deveria levar em conta o fato de que a reivindicação setorial implica ou realocação de recursos entre os setores financiados pelo governo ou aumento da tributação total para fazer frente aos gastos do governo.
    Por último e sinceramente o mais importante, a democracia implica em direitos e deveres. Nesse sentido, é direito dos cidadãos se organizarem em grupos de interesse e fazerem reivindicações; porém nem tudo que é direito é ético, ou alguém aqui acha moralmente correto a autodeterminação dos salários dos governantes ou mesmo o direito que os vereadores de Ribeirão Preto tem de aumentar o número de Vereadores para a próxima eleição? Alguém aqui acha correto sobretaxar a população como um todo para garantir um preço mais acessível no bandeijão aos “pobres” alunos da USP, ou pior, realocar verbas dos demais setores (ex: saúde) para tal intento? Democracia deveria ser muito mais vista como o dever coletivo de promover o bem comum, e não reivindicar direitos corporativistas em detrimento da coletividade. Infelizmente não há político que bata nessa tecla pois é impopular, não gera votos, apesar de ter um forte compromisso com a verdade!
    Entendo, por exemplo, que o direito de greve deve ocorrer quando ou há um descompasso entre ganhos de produtividade do trabalho e reajustes salariais ou quando o reajuste salarial já ajustado pela produtividade do trabalho implica em perdas reais. Tudo que fuja a isso não deveria ser objeto de greve, mas sim de reivindicação de política de Estado. Exemplo: Se a população reivindica melhoria na educação, não deveríamos simplesmente aumentar os salários dos professores sem a contrapartida da produtividade. Uma proposta melhor é estabelecer concursos públicos com remuneração melhor para que a concorrência escolha os de maior produtividade. Aposto que com um salário quatro vezes maior, por exemplo, um percentual baixíssimo dos atuais professores da rede pública conseguiria passar no concurso (o decréscimo dos salários relativos desse setor que ocorreu ao longo de décadas já reajustou negativamente a produtividade de trabalho dos ofertantes de trabalho nesse setor, deslocando os mais produtivos para os setores de maior remuneração). E o referido aumento através dos concursos somente deveria ser feito se de fato houver comprovação de que o melhor que se poderia fazer para melhorar a educação for realmente o aumento salarial em detrimento das outras opções (ex: mais computadores na escola ou mais segurança no ambiente escolar para alunos e funcionários).
    Tenho dito!

    Toda vez que ouço reivindicação por redução no preço do bandejão eu sinto que o mundo já está ruim, mas que pode ficar muito pior!

    • Luiz Henrique Pacheco permalink
      março 29, 2012 9:11 pm

      Antônio, parabéns pelo texto nesse comentário. Realmente você articula muito bem suas ideias com a teoria econômica correlata. Esse tipo de participação na prosa só enriquece o debate e é para isso que serve esse tipo de espaço.

      Como sempre, você pontuou muito bem a questão e fez uma análise precisa da situação. O ME parece um bando de privilegiados exindo um estado de bem estar social já fora de moda há muito tempo. Eles, em geral, se esquecem que a universidade faz parte do fluxo circular da renda. O orçamento da USP está na casa dos 3,6 bi anuais. Maior que alguns estados brasileiros e talvez 80% disso vá para folha de pagamento!

  2. Gustavo Crispim permalink
    março 29, 2012 11:57 am

    Concordo com muito do que expôs, Luiz. Você me conhece e sabe o tamanho da minha liderança no ME, mas ainda assim, devemos ter em mente que a situação é de choques de grupos de interesse.

    O Governo do estado, que é paternalista demais com um grupo (vide a atual relação promíscua Governador-Reitor-Universidade) e o grupo dos “estudantes” e “professores” que em momentos cruciais ficam desamparados, por exemplo com relação a direitos válidos (seja no momento da escolha de representantes, como o reitor, ou com relação a reajustes salariais, ou ainda, assistência médica e maior apoio de serviços de biblioteca, graduação ou transporte interno). E ainda um “limbo”, que são os funcionários: podem permanecer inertes, travando o sistema de ensino, ou sem dedicação profissional, de modo a não cumprir com eficácia seu papel, planejando suas aposentadorias enquanto olham o facebook atrás de uma mesa com pilhas de papéis e reais problemas discentes que poderiam tentar solucionar caso se dedicassem.

    Por isso, ao meu entendimento, apesar de não concordar com muitos pontos reivindicados pelo ME, eles representam uma força muito importante no equilíbrio de poder político e econômico desse complexo sistema.

    Indicação sobre grupos de interesse: só buscar por “Teoria econômica da regulamentação por grupos de interesse”, posso ser mais específico se alguém desejar.

    Enfim, essa é minha opinião. Daí para dizer que a maconha deve ser liberada dentro da Universidade ou um Governador desses dizer que deveriam ensinar democracia dentro da Universidade são outros 500…

    • Luiz Henrique Pacheco permalink
      março 29, 2012 9:19 pm

      Boa Gustavo, de fato sua militância no ME é notável. Lol.

      Bem, o estado brasileiro além de paternalista é personalista. O Estado se opõe ao privado e individual, mas o gestor brasileiro o considera-o como uma extensão natural de seus domínios familiares. Então indicações de cargos importantes se dá na base da amizade. A gestão é avaliada segundo os laços mais antigos de afinidade. Nesse sentido, uma situação promíscua entre Gov-Rei é é resultado dessas relações de “entourage”.

      O ME não pode acabar jamais, eu só queria que as ideias de economia liberal tomasse as reivindicações do movimento.

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