Skip to content

O Paradoxo de Jevons

abril 6, 2012

Você quer parar o tempo
 e o tempo não tem parada
(Alceu Valença)

COTA ZERO
Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel?
(C. Drummond de A.)

Findo o primeiro trimestre do ano é hora de checar se as resoluções de ano novo estão sendo cumpridas. Eu também tenho a minha listinha e nesse ano tratei de não deixá-la esquecida na gaveta das boas intenções.

Com alguma variância em algumas metas eu posso dizer que estou me saindo bem, de modo que alguns itens da lista já foram riscados. Parte desse sucesso eu atribuo ao site efetividade.net que através de tutoriais sobre ferramentas de produtividade tem me ajudado a dar cabo em algumas pendências que me acompanhavam desde 2010.

De fato, eu sinto que a minha produtividade tem aumentado cada dia que passa. Por outro lado, o reverso da medalha é o acúmulo de novas tarefas, prazos de entrega mais curtos e compromissos mais importantes. A ficha para essa nova realidade caiu lendo esse post  no mesmo blog citado acima. Depois de uma manhã difícil o autor chega “para tentar almoçar em poucos minutos disponíveis”, ato contínuo é surpreendido com a porta da garagem sem maçaneta. Dado os poucos minutos para o lanche ele desistiria de almoçar não fosse uma multiferramenta de bolso com alicate para abrir a porta.

Comentários anedóticos à parte, a constante falta de tempo causada pelas tarefas guarda certa relação com o problema levantado por Stanley Jevons em 1865 no livro “The Coal Question”. Nesse trabalho, o teórico da teoria da utilidade marginal acreditava que a crescente demanda por carvão esgotaria as reservas inglesas, por isso ele previa que esse fato seria um grande problema ao desenvolvimento econômico da Grã-Bretanha. Da mesma forma que Malthus subestimou a capacidade de inovação tecnológica da produção agrícola, Jevons não conseguiu prever a segunda revolução industrial que mudaria o paradigma da matriz energética da indústria e dos transportes.

Contudo, um insight importante que o ilustre economista teve no livro foi o fato de que a crescente eficiência de emprego do carvão na indústria faria aumentar o seu consumo. Valendo-se do argumento de que a curva de demanda por carvão estava em seu trecho elástico, uma redução pela metade no custo do capital que utilizava o carvão como fonte de energia faria a demanda por esse fator mais que dobrar.

Fato semelhante ocorre na indústria de processadores. Com o advento da física quântica a quantidade de circuitos integrados tem crescido exponencialmente nos chips. Quanto mais eficientes são os transistores, mais eles são explorados para conseguir velocidade de processamento maior. E quanto mais barato eles ficam, maior é a demanda do público por computadores. A sua eficiência crescente vêm impulsionando a venda dos “gadgets” baseados em microprocessamento.

Uma analogia desse fato pode ser estendida à alocação do nosso tempo. Quanto mais produtivos nós somos, isto é, quanto mais racional é a execução das nossas tarefas, maior é a demanda por tempo. Talvez seja por isso que quanto mais se faz, fica mais difícil de terminar tudo que se planeja. Nesse sentido, parece que se todas as tecnologias que nos são vendidas para a economia de tempo: smartphones, tablets, notebooks, internet, viagem a jato e fast-food e que aumentam nossa produtividade realizassem o que prometem, teríamos fartura de tempo. Mas não é o que está acontecendo. Quanto mais eficientes somos no uso do tempo, mais ele nos falta. Portanto, a alocação do tempo fica também caracterizada como um caso do paradoxo de Jevons.

Parece que estamos mais avaros em relação ao tempo. Criou-se uma grande ansiedade em relação a ele. As diversas possibilidades de alocação competindo por nossa atenção nos deixam intranquilos. Estaríamos no ritmo dos outros? Para onde nos levará essa aceleração? Ganhar tempo para quê? Para realizar mais e sentir-se sem tempo.

Em contraposição, parece que as pessoas simples são mais contemplativas e generosas em relação ao tempo. Mario Sérgio Cortella diz que hoje em dia existe um processo de “despamonhalização” do convívio. Quem já fez pamonha em família sabe quantos braços e quantas horas são necessárias para ficar pronto esse quitute caipira. Desde o descascar do milho até o desembrulhar da palha longos dedos de prosa e convívio se esvaí.

Drummond, um mineiro extraviado na metrópole carioca sabia que a pressa não levava a nada e os afazeres que ficassem para a hora do expediente, em sua poltrona somente a contemplação era permitida:

Ó Gozo da minha poltrona!
Ó doçura de folhetim!
Ó bocejo de felicidade!

Para um itabirano vindo de um lugar onde:

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Devagar… as janelas olham.

A vida aferrada de compromisso em compromisso seria muito estressante se a alma de poeta não acompanhasse o burocrata. A pausa era essencial. Talvez seja esse o segredo para encarar as tarefas infindáveis: ter a contemplação do poeta e a determinação do burocrata diligente.

5 Comentários leave one →
  1. Anônimo permalink
    abril 6, 2012 11:46 am

    Ótimo post!
    Lembre-se , contudo, que o Drummond tb escreveu:

    Cidadezinha qualquer.
    Casas entre bananeiras
    mulheres entre laranjeiras
    pomar amor cantar.

    Um homem vai devagar.
    Um cachorro vai devagar.
    Um burro vai devagar.
    Devagar… as janelas olham.

    Eta vida besta, meu Deus.

    De Alguma poesia (1930)

  2. Anônimo permalink
    abril 6, 2012 11:47 am

    (Esqueci de assinar….)
    Leo Monasterio.

    • Luiz Henrique Pacheco permalink
      abril 6, 2012 2:40 pm

      Obrigado pelo elogio e pela citação completa do poema. Esse é o livro de estreia do Drummond, simplesmente impecável.

  3. abril 7, 2012 11:41 am

    Excelente post!

Trackbacks

  1. Top Five Prosa Econômica « Prosa Econômica

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s