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Semente forte, raiz profunda

abril 26, 2012

Aqueles que têm bom estômago estão acompanhando mais um caso de denúncias de corrupção em Brasília. Desta vez, a Polícia Federal descobriu ligações suspeitas entre o senador Demóstenes Torres e o acusado de contravenção Carlinhos Cachoeira.

Há quase sete anos atrás, Roberto Jefferson em entrevista memorável ao jornal Folha de SP denunciava um esquema de corrupção que ficaria conhecido como mensalão que foi objeto de investigação por uma CPI e que derrubou governistas, mas os acusados ainda aguardam julgamento do Superior Tribunal Federal.

Esses dois fatos importantes da história política do Brasil é uma evidência de que a herança colonial portuguesa ainda se faz presente em nossas ideologias. Mais uma vez a previsão de que sociedades liberais caminham para um futuro melhor faz ficar evidente que no âmago a sociedade se repete.

A amizade entre Cachoeira e Demóstenes e as intenções que esta nos sugere ajuda a entender a teoria do patrimonialismo que nos degrada há séculos. Afinal, receber um telefone blindado a grampos, aceitar dinheiro emprestado e tratar como camarada um contraventor soa natural e cotidiano para o senador que confunde a coisa pública (congressista eleito para sugerir e votar em leis em benefício dos brasileiros) e a privada (benefício econômico em sugerir e votar em projetos conforme os camaradas pedem).

Em Raízes do Brasil (1936), Sérgio Buarque do Holanda propôs uma teoria para explicar aspectos importantes da cultura brasileira. Um livro pequeno, mas fundamental para entender nossa nação. Entre as várias teorias discutidas no célebre livro, aquelas que vêm a calhar para o debate em questão é a teoria do homem cordial e a do patrimonialismo.

Com o culto ao personalismo e ao patrimonialismo, o homem cordial é aquele que vê o Estado como prolongamento do remanso familiar. Não percebe que família e Estado se opõem. Antonio Candido define bem esse conceito:

“O homem cordial não pressupõe bondade, mas somente o predomínio dos comportamentos de aparência afetiva, inclusive suas manifestações externas, não necessariamente sinceras nem profundas, que se opõem ao ritualismo da polidez. O homem cordial é visceralmente inadequado às relações impessoais que decorrem da posição de função do indivíduo, e não sua marca pessoal e familiar, nas afinidades nascidas na intimidade dos grupos primários.”

Isso explica o motivo do senador achar que não tem nada de mais aceitar favores de alguém acusado de envolvimento com o jogo de azar. Além disso, qual o problema do governador de Goiás, Marconi Perillo ter vendido uma casa ao Cachoeira e ter aceitado uma caixa do bicheiro com R$ 50 mil dentro? Afinal, tudo faz parte da “la famiglia Brasília”. O Mendonça, chefe do Lineu em A Grande Família, é uma alegoria do homem cordial.

Essa discussão tem tudo a ver com a economia. A “engenharia econômica” popularizada pela escola de Chicago sugere que a economia e ética não se confundem. O mercado prescinde de ética e em busca do auto-interesse o agente pode tirar férias morais na província econômica. Ocorre que, se olharmos para os primórdios da teoria econômica veremos que a economia política surge como matéria da filosofia moral.  Ou seja, a preocupação com o lugar da ética na ação humana tem raízes profundas na história do pensamento econômico. E o estudo de autores como Hume, que hoje, dia 26, comemora-se 301 anos de nascimento, sugere que a ética importa no resultado econômico da sociedade, que a economia de mercado corre sérios riscos se seus participantes não agirem com ética e respeito às normas de conduta aceitas e que somente a coesão social, ideologia tão escassa entre os brasileiros é o vetor que transformará aquilo que vemos no noticiário político. Mas, a semente é forte. Trezentos anos de herança colonial fez nascer uma erva daninha de difícil extirpação.

2 Comentários leave one →
  1. Antônio Galdiano permalink
    abril 26, 2012 5:27 pm

    A própria idéia de preço (valoração) envolve um equilíbrio entre a oferta (seja de produtos, mão-de-obra ou comportamentos) e a demanda. Note que a construção do preço (valoração) é social e representativo dos desejos e escassezes enfrentados pelos agentes envolvidos, e que se a sociedade busca melhor qualidade moral dos agentes públicos (lucro no longo prazo) ela deve primeiro internalizar os custos (prejuízo no curto prazo) de um comportamento realmente adequado, dando o exemplo e buscando esquivar-se das benesses ilegais e lamentavelmente banalizadas em nossa cultura. Ora, se mesmo uma taxa de juros exorbitante (quando referenciada internacionalmente) não é incentivo econômico adequado para direcionar as famílias brasileiras a poupar, a pensar a decrepitude de uma velhice que só será digna com reservas adequadas, a pensar a possibilidade de imprevistos na área de saúde, emprego, etc que possam absorver somas maiores, i.e., a direcionar parte dos resultados econômicos da bonança atual para se contrapor a possibilidade real uma situação pior, ainda que momentânea, no futuro; porque temos a ilusão de que um conceito menos palpável, mais abstrato como ética, também com trade-off entre curto e longo prazo, será corretamente analisado por nosso povo?
    Você enxerga o problema dessa forma também Luiz? Você também tem essa percepção de uma gradação entre conceitos econômicos(mais imediatos, ligados a lida diária) e conceitos éticos(mais amplos e frutos de uma reflexão abstrata maior)? Isso, para mim, parece ser bastante intuitivo.
    Se você tiver um diagnóstico próximo ao meu, verá que estamos em uma situação pior situação do que é noticiada…
    Puxa cara, pra falar verdade isso poderia ser até um tema interessante de pesquisa. Legal! Vou procurar correlacionar essas variáveis e ver o que dá!

  2. Luiz Henrique Pacheco permalink
    abril 26, 2012 8:26 pm

    Claro, concordo contigo Antônio. O juros é o custo da espera. A sociedade brasileira, que não gosta de esperar (50 anos em 5) acaba tendo que experimentar baixas taxas de poupança e de crescimento. Ética é fator de produção e importa tanto qunato a poupança, por isso os dois conceitos se relacionam. Só que eu não acho que ética e outros valores morais sejam coiceitos tão abstratos assim. Eles residem no processo que cria as crenças sub racionais. Não é algo ideológico.
    O brasileiro se confunde com a ética porque achamos que somos melhores do que está aí. Muitos descreem na lei dos grandes números, ou melhor só tomam conhecimento da parte que afirma que a parcela individual não é importante ao todo, o problema é o somatório de cada parte. E o resultado da ética política brasileira é que o todo é maior que a soma das partes, porque não nos reconhecemos no que vemos no noticiário. Olha aí, mais um conceito economico se relacionando à ética.

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