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A espiral da competição

maio 23, 2012

Todos nós sabemos que quanto mais progressivo é o imposto sobre a renda do trabalho, menor é o incentivo para trabalhar além de uma taxa ótima. Em trabalho recente um grupo de economistas foi averiguar se os dados corroboravam essa teoria. Para isso, eles dividiram a amostra em dois grupos (mulheres e homens) com dados dos EUA e União Europeia (cross-country) e correlacionaram a taxa de imposto com as horas trabalhadas por ano. Para os homens nenhuma novidade, a correlação entre horas trabalhadas e alíquota imposto de renda é negativa (-0,7), corroborando a teoria. Mas, para as mulheres não existe correlação alguma (zero).  Veja a figura 1 abaixo.

Figura 1- Fonte: Chakraborty et, al. (2012)

Isso indica que a mulher é menos afetada na decisão de ofertar horas de trabalho no mercado. Seguindo a investigação, os pesquisadores averiguaram os dados de incidência de divórcios e horas trabalhadas. Eles descobriram que mulheres divorciadas trabalham mais, com uma correlação positiva de 0,6. Já os homens não se deixam afetar pelo divórcio na hora de ofertar sua mão de obra, com correlação zero. Isso indica que países com maiores taxas de divórcio, têm mais mulheres dispostas a trabalhar e, portanto, avessas a ficar tão dependente financeiramente do cônjuge.  Veja a figura 2.

Estendendo a análise para o estudo entre os países, descobriu-se mais uma causa para a diferença de 30% menor das horas trabalhadas da Europa em relação aos EUA (Prescott, 2004). Além da tributação e benefícios trabalhistas, a estabilidade da união civil é fator importante na oferta de mão de obra.

Portanto, esses dados mostram que a força de trabalho feminina afeta a atividade econômica de forma não negligenciável. Nesse caso em particular, ajuda a explicar o diferencial de oferta de horas-trabalho entre os EUA e UE. Podemos nos estender e comentar algumas consequências sociológicas da mulher competindo em pé de igualdade com os homens.

Notadamente, é no trabalho que o homem busca sucesso para impressionar as mulheres que lhes despertam o desejo. Ocorre que, quando essa mesma mulher atinge os mesmos feitos dos homens, o que este pode fazer? Trabalhar mais e superar a pretendente, claro.

Portanto, desde que o trabalho ganhou maior natureza intelectual, as mulheres tomaram essa cena de assalto. Esse fato gerou maior competição e com isto, acelerou ainda mais a luta para suceder na vida. Com as mulheres participando ativamente, o sucesso para impressioná-las terá de ser ainda maior. Esse fato gera uma espiral que aumenta o desempenho da economia, mas, por outro lado, afeta a vida conjugal, levando a maiores taxas de divórcio. E, como vimos, mais divórcio implica em mais trabalho feminino que por sua vez aumenta a competitividade no mercado de trabalho e esse ciclo se repete ad infinitum.

O fato é que apesar das mulheres ainda ganharem menos, na média, a consolidação do gênero feminino no mercado de trabalho está introduzindo uma competitividade maior nesse mercado. A batalha dos sexos não é mais pelo controle remoto, mas pelos bônus.

Referências:

Gikovate, Flávio (1982). O homem, a mulher e o casamento. São Paulo: M. G. Ed. Associados.

Chakraborty, Indraneel, Hans A Holter and Serhiy Stepanchuk (2012). “Marriage Stability, Taxation and Aggregate Labor Supply in the US vs. Europe”, Working Paper.

Prescott, Edward C (2004), “Why do Americans Work so Much More Than Europeans?”, Federal Reserve Bank of Minneapolis Quarterly Review, 28:2-13.

5 Comentários leave one →
  1. maio 23, 2012 8:23 am

    Excelente post!!! Agora a pergunta que não quer calar, para onde foi aquela história de romantismo, cavalheirismo e etc? As mulheres estão mais interessadas nos dias atuais a conquistar um provedor de recursos ou um bom amante e companheiro?
    Sinal dos tempos, estamos regredindo em nossos relacionamentos? Até onde estudei e pelo que me recordo das aulas de história essa história e homem provedor de alimento e recursos era coisa lá da pré história. Temos, porém uma grande diferença, agora as mulheres também viraram competidores e estão muitas vezes se transformando em provedoras.
    No que isso vai resultar ninguém sabe, é fato de que na vida real muita coisa mudou com a conquista de espaço, mais que justo e merecido, pelas mulheres no mercado de trabalho, agora evoluir essa relação para explicar aumento no número de horas trabalhas pela competição em prover, acho um pouco demais.
    Sobre a correlação das horas trabalhadas com divórcio, nada mais natural, pois muitas mulheres sequer trabalham no mercado (trabalham em casa) quando estão casadas, pois tem que cuidar dos filhos etc e isso por si só já tendencia e muito a análise. gostaria de ver correlacionado o número de filhos por casal acho que seria interessante.

    • Luiz Henrique Pacheco permalink
      maio 23, 2012 2:00 pm

      Obrigado Anderson. Sempre bom vê-lo por aqui. Eu não acho que a paixão entre os sexos tenha acabado. Ainda existe romantismo sim. Agora, esperar que a mulher dependa materialmente do homem é outra história.

      O ponto é: é natural que elas queiram ser provedoras também, mas elas imitam e incentivam o mesmo ambiente competitivo criado pelos homens. Por isso que a taxa de divórcio é alta em economias onde as pessoas trabalham mais.

      • maio 23, 2012 2:16 pm

        Grande Luiz, entendi seu ponto de vista e concordo com ele. Estamos então chegando a conclusão que onde temos acirramento de competição temos crescimento na taxa de divórcio e isso provavelmente deve ser reflexo do aumento na carga horária trabalhada e redução de tempo para romantismo, lazer e convívio familiar, será?

        • Luiz Henrique Pacheco permalink
          maio 23, 2012 6:06 pm

          É isso mesmo. Eu adicionaria até a inveja entre o casal. A mulher que quer se dar bem no mercado e o homem que não quer ficar atrás. Isso pode tornar a vida do casal um inferno. Daí o divórcio é consequencia.

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