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O efeito do comércio internacional sobre a desigualdade salarial

maio 25, 2012

Se você já estudou economia internacional, você deve se lembrar das teorias de Heckscher-Ohlin, dos fatores específicos ou mesmo do teorema de Stolper-Samuelson. Só para refrescar a memória, o modelo de Heckscher-Ohlin é aquele no qual cada país se especializa na produção dos bens que usam seu recurso abundante de maneira intensiva. Lembrou?

Esses modelos de comércio fornecem previsões do comportamento dos salários relativos entre ocupações ou setores. Por exemplo, o teorema de Stolper-Samuelson prevê que a liberalização do comércio leva a um aumento na desigualdade de renda nos países desenvolvidos (abundantes em trabalho qualificado) e uma queda na desigualdade de renda nos países em desenvolvimento trabalho-abundante. Todavia, estudos empíricos encontram resultados opostos aos previstos pelas teorias. Diversos trabalhos encontraram aumento da desigualdade salarial (tanto em países desenvolvidos quanto em países em desenvolvimento) e aumento da dispersão salarial, seja entre trabalhadores com mesmas características, seja entre firmas de um mesmo setor.

Tendo em vista esta aparente inconsistência, Helpman et al (2012) em recente artigo examinam o efeito da liberalização comercial  sobre a desigualdade salarial com dados brasileiros. Segundo os autores, partindo-se de uma economia fechada, a desigualdade de renda inicialmente aumentará uma vez que apenas algumas firmas aproveitam as vantagens das novas oportunidades que o comércio proporciona. Mas, conforme o custo de comércio começa a cair e mais firmas passam a exportar, a desigualdade atinge um pico e começa a cair.

Essa abordagem implica em uma relação entre desigualdade de renda e abertura comercial na forma de um U invertido (veja a Figura). O raciocínio parte dos custos de entrada ao comércio internacional. Uma empresa exportará seus produtos somente se conseguir arcar com o custo de atuação no mercado externo. Isto é, o custo de entrada no mercado externo geralmente é maior que o custo de entrada com o qual uma empresa se depara no mercado doméstico, em função dos custos de comercialização (custos de transporte, tarifas, etc). Isso explica por que existem empresas que não exportam, mantendo toda a sua produção voltada para o mercado interno.

Fonte: Helpman et al (2012)

Nesse sentido, no início do processo de liberalização do comércio, apenas algumas empresas são capazes de arcar com esse maior custo, e portanto, são poucas as empresas que exportam seus produtos. Todavia estas poucas empresas conseguem auferir grandes receitas em função das vantagens da inserção no comércio exterior. Supondo que essas empresas desejam contratar e manter os melhores e mais qualificados funcionários, uma parte desse aumento das receitas será repassada aos salários de seus trabalhadores, aumentando assim a desigualdade de renda.

Conforme os custos de comércio vão caindo, mais empresas começam a exportar seus produtos, e a desigualdade de renda aumenta até um determinado ponto, a partir do qual diminuições marginais dos custos de comércio começam a se refletir em uma diminuição da desigualdade de renda.

Essa abordagem é interessante na medida em que mostra que os países podem aumentar ou diminuir a desigualdade de renda a partir de um aumento da liberalização do comércio, dependendo do ponto em que este país se encontra, isto é, antes ou depois do pico de desigualdade.

Referências:

Helpman, Elhanan, Oleg Itskhoki, and Stephen Redding (2010), “Inequality and Unemployment in a Global Economy”, Econometrica, 78(4):1239-1283.

Helpman, Elhanan, Oleg Itskhoki, Marc-Andreas Muendler, and Stephen Redding (2012), “Trade and Inequality: From Theory to Estimation”, NBER Working Paper 17991.

3 Comentários leave one →
  1. luiz fernando antonio permalink
    maio 26, 2012 11:19 am

    A materia acima é muito interessante pois nos lembra de estudos de grandes economistas classicos que formataram nossas cartilhas.A dinamica do comércio internacional nos tempos atuais tem outros fatores que naquela epoca nem eram imaginados. Poderiamos lembrar sobre a descoberta de de inumeros recursos que transormaram nossa sociedade em função de sua utilização ( i.e. a televisão, o telefone, ( e agora o celular) a internet,etc), os meios de comunicação em geral, as novas tecnologias, etc. O principal recurso para produção de um bem era a matéria prima hoje é o conhecimento e a tecnologia, a importancia da materia prima e o valor desta tem sido cada vez menor, inclusive no proprio produto.
    É interessante lembrar tambem sobre os conhecimento de administração e controle e em cima destas informações os Governo tentarem desenvolver estrategias para ser players internacionais. Antigamente, os preços tendiam somente a subir em função do aumento dos custos de mão de obra, materias primas, impostos etc nos tempos atuais os preços tentem a cair em função de novas tecnologias, ampliação de mercados, redução dos custos de logistica, redução dos custos financeiros, novos conceitos de formação de custos/preços etc.
    Antigamente, os preços estabelecidos “pelo primeiro mundo” chegavam no terceiro mundo ( Brasil” e eram congelados por um bom tempo e quando mudavam era para cima. O terceiro mundo tomava conhecimento somente 6 a 12 meses depois.As politicas de proteção a industria implantadas pelos Governos tentavam controlar os preços buscando descobrir se não havia sobrepreços! o que era uma inutilidade. Atualmente, os preços flutuam dezenas de vezes no mesmo dia , temos conhecimento desta variação instantaneamente, a tendencia é de baixa, etc mas alguns ainda buscam resolver os problemas de balança cambial, estabilidade da moeda, etc com as mesmas ferramentas medievais.

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