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Três pensadores e o livre mercado

junho 13, 2012

As ideias possuem genealogia. Entre programas de pesquisa diferentes ao longo do tempo elas vão gerando descendentes que guardam certa relação com suas ideias mães. O pensamento sério nessa perspectiva tem duração prolongada no tempo e tem o poder de influenciar gerações de pensadores e criar novos paradigmas de pensamento. Tomemos o conceito de mercado. Esse é um fenômeno que Cantillon no século XVIII já acreditava ser superior ao mercantilismo, sistema de pensamento econômico em voga naquele momento.

Desde então a defesa do livre mercado está presente no sistema de pensamento dos economistas mais influentes da história das ideias econômicas. Podemos citar três autores: Smith, Walras e Hayek como defensores do livre mercado como a melhor ordem social. Portanto o conceito é antigo, tem uma árvore genealógica de peso e pensadores famosos construíram seus argumentos baseados no mercado.

Adam Smith acreditava no mercado como ordem natural, Walras traduziu as assunções teóricas do livre mercado em sistemas de equações que atualmente denomina-se equilíbrio geral e Hayek defendeu o mercado como produto da ação humana que desprovida de informação perfeita elege o sistema de preços em mecanismos descentralizados de escolha como uma ordem espontânea. O mercado emerge nesse sentido como um processo de calibragem.

Atualmente, entretanto, a crise da zona do euro está sendo vendida como uma crise do livre mercado, mas, se nos valermos da explicação liberal alternativa que acredita no livre mercado como ordem espontânea concluiremos que se trata de uma crise de intervencionismo e, paradoxalmente, os governos europeus irão combatê-la com mais intervenção, tornando ainda maiores os problemas das próximas crises. Trata-se da lei de Say do estatismo: o intervencionismo cria sua própria demanda. Os beneficiados pelo socorro agora não abrirão mão dos privilégios adquiridos no aprofundamento da ação estatal. Mas, o conceito do livre mercado que está presente na teoria econômica há séculos continuará existindo para quem quiser defendê-lo.

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  1. Antônio Galdiano permalink
    junho 14, 2012 9:23 am

    Excelente texto Luiz, este texto realmente me levou a considerar que este grupo de discussão realmente como algo especial.

    Eu só vou fazer uma leve provocação ao motivar a percepção da divergência entre as correntes de pensamento. Por motivar, digo que meu precário conhecimento não me permite definir exatamente as referidas correntes, mas sim passar minha impressão pessoal sobre eles.

    Adam Smith teve sua maior contribuição à humanidade ao dizer que o sistema de livres trocas é promotor da prosperidade ainda que seus participantes sejam egoístas e mesquinhos: “não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu próprio auto-interesse”.

    Walras, sob a perspectiva matemática, buscou traduzir o comportamento humano através de formulações as quais permitem chegar a equilíbrios gerais, bem como estudar as formas de como entender matematicamente situações fora do referido equilíbrio tendem a este. Tenho uma crítica simples a esta abordagem, a despeito de eu adorar os números e principalmente todo o progresso tecnológico que eles trouxeram: É possível captar a totalidade do comportamento humano através da matemática? A busca de “modelos adequados” ao entendimento de cada situação em um intervalo restrito do tempo não é reflexo dessa incapacidade dos números, uma vez que não se impõe à realidade o cumprimento dos pressupostos comportamentais do modelo? Tal como o Amor ou o Ódio, comportamentos inerentemente humanos, a Economia, passível de ser entendida dentro do contexto de ação humana dos indivíduos que buscam sair de uma situação subjetivamente pior para uma situação subjetivamente melhor sob a restrição da escassez dos meios, (e portanto inerentemente humana também) pode ser aprendida melhor quantitativamente que qualitativamente? Até o momento minha resposta é não, e garanto que não sou pioneiro nessa linha.

    Hayek fez uma defesa do sistema de liberdade das trocas motivadas por interesses individuais dos participantes do mercado (interesses estes inerentemente subjetivos) entendendo que essas trocas (por ser produto da interação livre entre comprador e vendedor) beneficia aos 2 agentes envolvidos, sob a restrição da escassez dos meios (inclusive sob a escassez da informação entre os agentes). Nesse sentido, qualquer interferência a esse sistema livre reduz a satisfação de seus agentes. Vejam que este modelo não se fecha em si só, ele pressupõe um sistema ético: Hayek, como liberal, defende a moral sob 3 pilares, a saber: liberdade, propriedade e paz. Ou seja, (e me permito ser óbvio sob pena de que a omissão do que segue podem causar dúvidas banais e sorrateiras) a liberdade de alguns agentes do mercado deve ser restrita sim caso ela reduza 1-liberdade ou 2-propriedade ou 3-paz alheia, desde que estas(1,2 e3) estejam sob estas mesmas bases (digressão: boa parte dos sistemas morais se baseiam em tríades de afirmações, pois buscam universalizar seu sistema inclusive sob o ponto de vista geométrico/matemático, o qual pressupõe que para sustentação de sólidos deve haver três pontos não colineares sob uma base de sustentação tais que a projeção ortogonal do ponto de centro de massa sob o plano definido por estes 3 pontos não-colineares estejam contidos dentro do triângulo que forma estes pontos. Ainda nesse contexto os sistemas morais buscam transmitir matematicamente a busca da minimização/simplificação de seus conceitos, haja vista que o conceito de sustentação já descrito pressupõe um mínimo de 3 pontos coplanares e não-colineares). Assim, esse sistema de livre negociação sujeito a essa base moral não elege o sistema de preços como sinalizador das percepções das escassezes dos agentes do mercado, e sim redunda inevitavelmente nele. O sistema de preços é intrínseco à formatação atual, e não elegido (considerando a semântica habitual).

    O último parágrafo de seu texto é o mais contextualizado e que reflete ainda mais as divergências entre as correntes de pensamento. Farei considerações a esse respeito muito em breve.

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