Skip to content

O homem que nunca disse “Eu te amo”: O silêncio de Debreu

janeiro 8, 2013
Imagem: Nobel prize

Imagem: Nobel prize

Na penúltima edição da History of Political Economy, uma ótima publicação sobre história do pensamento econômico, o economista Till Düppe da Universidade de Berlin publicou um paper interessante sobre a vida do Nobel de economia Gerard Debreu. O paper tem por objetivo tratar da vida e da carreira do Debreu tendo como foco a distância e a proteção que a matemática o oferecia. Segue o abstract:

During research seminars, it hardly ever happened that Gerard Debreu posed a question—and if he did, not without already knowing the answer. While some admired him for the tranquility of his austere rigor, others wondered how little he had to say in economics. To whatever effect, Debreu himself was committed to mathematics since he could earn recognition without exposing himself as a person. This essay presents his life and career in light of this personal need for protection by mathematical purity. My account profited from Debreu‘s personal papers as well as the memories of former colleagues, friends, and family who communicated more freely about Debreu than he himself ever could.

Gerard Debreu nasceu em 1921 em Calais, norte da França. A sua infância foi marcada por perdas, começando pela irmã mais nova. Quando tinha oito anos de idade seu pai cometeu suicídio, um ano depois a sua mãe morreu. Como órfão foi estudar em um colégio interno recebendo ocasionalmente visitas de sua avó. As perdas e a solidão dos primeiros anos de vida marcarão para sempre a sua história. Ele se tornará uma pessoa introspectiva e, principalmente, fechada sentimentalmente. Como exemplo dessa introspecção, ele nunca conseguiu dizer “Eu te amo” para a sua esposa. A sua filha relata que ele poderia passar horas em uma mesa de jantar sem dizer, ao menos, uma única palavra.

Algo de diferente e absolutamente interessante que o Düppe tenta fazer é entender a carreira de economista do Debreu diante de sua formação como homem, diante de sua personalidade. Ou seja, a carreira só pode ser entendida levando em consideração seu silêncio, a sua distância e seu perfeccionismo. A sua mania de perfeição era tanta que chegava a assustar os estudantes, a sua filha relata que, após a morte do pai, recebeu uma carta de um estudante dizendo que admirava muito Debreu, mas nunca poderia chegar naquele nível intelectual. Assim, ele desistiu da economia e foi decidir fazer outra coisa, por não conseguir ser um Gerard Debreu.

O silêncio e a introspecção da vida pessoal também se aplicavam aos grandes temas da economia da época. Debreu nunca falava sobre as aplicações das análises de equilíbrio geral, ou sobre a teoria dos jogos, econometria. Nesse sentido, a matemática funcionava como uma proteção, um meio de não se expor. A matemática permitiu que ele mantivesse o silêncio da vida pessoal na vida acadêmica. A tese psicológica que o autor irá colocar é que as perdas do início da vida fizeram com que o Nobel de economia tentasse sempre manter o controle das coisas. E a melhor maneira de se manter o controle é não se expondo, ficando no silêncio.

A parceria com Arrow foi fundamental para a publicação seminal do artigo sobre equilíbrio geral, enquanto Arrow ficava preocupado com as implicações econômicas do artigo, Debreu se concentrava no formalismo matemático. A influência das teorias de equilíbrio geral foi tanta que em 1983, Debreu só era menos citado que Keynes e Marshall. Porém, nem tudo eram flores, o prêmio Nobel surgiu como um grande desastre em sua vida o obrigando a se expor na mídia e opinar sobre os temas mais diversos. O gênio que passou uma vida em silêncio era agora obrigado a falar.

As suas ideias foram tidas como uma prova formal da mão invisível do Adam Smith. O impacto foi tão grande que até o Papa o convidou para uma visita. Aquele que era para ser o melhor momento de sua vida se tornou o pior, Debreu se tornou ainda mais introspectivo, se separou da esposa e fugiu para a Europa com uma professora substituta. Morreu em 2004, sozinho em Paris. Em um discurso em sua homenagem a sua filha narrou as duas vidas que o pai tinha: uma, consigo mesmo e outra com o mundo, separadas pelo muro da matemática, onde nenhum sentimento, significado ou amor poderia passar.

O paper vale a pena ser lido, tanto por seu relato da vida do Debreu como pelas questões que suscitam sobre o uso da matemática na economia. A questão sobre o quanto os dilemas pessoais influenciam nos trabalhos científicos é ressaltado a todo tempo ao longo do paper. E essa questão se mostra muito importante para a história do pensamento econômico, apesar de negligenciada.

No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s