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Freak, não é tão surpreendente assim!

janeiro 17, 2013

freakonomics obesity

O Freakonomics publicou esta semana um post, aparentemente bombástico, baseado em um artigo que traz novos achados na relação obesidade x mortalidade. Tudo porque o estudo encontrou que (1) a obesidade moderada (grau 1) não está associada a uma maior mortalidade; e (2) o sobrepeso está associado a um nível de mortalidade inferior a de outras doenças. Trabalho interessante mas que não entendi pra quê tanta festa, na verdade, acho que todo cuidado é pouco na hora de interpretar esses resultados.

Vamos em partes. Primeiro, essa associação não é nova. Jeptha Curtis (de Yale) em uma pesquisa de 2005 batizou esse fenômeno de “paradoxo da obesidade”, quando é verificado uma ausência de associação (ou uma associação inversa) entre obesidade e mortalidade.

Agora, repare que a pesquisa citada pelo Freak usou o IMC (a sigla em inglês é BMI) como critério de classificação. Só que na literatura o IMC é cada vez mais conhecido como um substituto imperfeito da gordura corporal. Em outra prosa procurei explicar isso com mais detalhes. Sendo assim, resultados estranhos podem acontecer quando se usa o IMC. Claro, a pesquisa usou o IMC porque provavelmente os microdados disponíveis só dispunham do peso e da altura dos indivíduos. Mas é importante reconhecer essa limitação assim como costumam fazer as pesquisas na área.

Permita-me fazer um chute: se a pesquisa fosse reproduzida considerando outro indicador (como a % de massa gorda ou o valor da circunferência abdominal) é provável que se encontre um resultado mais claro no sentido do excesso de peso estar associado a um aumento da mortalidade. Ao menos os artigos que usam indicadores mais precisos encontram esse resultado.

Segundo, é raro encontrar um caso em que é dito “ele morreu devido ao peso excessivo”. Não, não é por aí. As pessoas morrem de outras doenças que por vezes são acarretadas pela obesidade. Sabe-se que a obesidade aumenta os riscos de diabetes, doenças do coração, infartos e de alguns tipos de câncer. Portanto, analisar o efeito da obesidade na mortalidade implica em levar em conta todas as doenças a esta relacionadas, coisa que infelizmente o artigo não fez.

2 Comentários leave one →
  1. Anderson Mattozinhos permalink
    janeiro 17, 2013 1:08 pm

    Excelente, concordo com você sobre a fragilidade do IMC como medida de avaliação comparação estatística, mas acredito também que outros fatores devem ser levados em consideração como por exemplo pesquisas em que já foi constatado recentemente que pessoas obesas que praticam exercícios podem estar mais saudáveis que pessoas magras. E quando falamos em saúde ai sim faz toda diferença na mortalidade.
    Há ainda que se pensar nos efeitos de hereditariedade e genética como importante fator que determina em muitos casos o aparecimento de doenças em pessoas fora de grupos de risco apenas por ser um problema hereditário.
    Para mim está claro que ainda há muito que se fazer em termos de pesquisas relacionadas à obesidade e doenças e particularmente penso que é muito importante desmistificar a obesidade como grande e maior vilã de todo tipo de doença. Afinal nos dias de hoje se a pessoa está acima do peso, muitos médicos logo se apressam em dizer que é necessário emagrecer, mesmo que nossa queixa não tenha relação alguma com obesidade. Ou seja se está gripado emagreça e tome remédio para gripe. Se está com enxaqueca… emagreça e tome remédios para dor de cabeça e por ai vai. Obesidade sempre a parte da culpa por qualquer coisa! Ainda veremos estudos consistentes em que parâmetros mais diversificados serão analisados e concordo plenamente que todo o alarde do Freakonomics foi um pouco exagerado.

    Anderson Mattozinhos – http://www.nerdup.com.br

    • janeiro 18, 2013 12:46 pm

      Oi Anderson, comentário muito pertinente. O “diagnóstico apressado” é também um problema. Procurei ao longo do texto me basear nas pesquisas mais importantes que li na área, embora concordo contigo, ainda tem muita coisa para ser investigada.

      O que acredito que precisa ser salientado é que mesmo que nos níveis iniciais o excesso de peso não ocasione malefícios, muitas e muitas pesquisas encontraram riscos sérios à saúde à medida que a obesidade se agrava.

      Sobre a genética: ela ajuda a explicar a obesidade em cada indivíduo mas não pode explicar o aumento da taxa de obesidade ao longo do tempo. E os dados ao longo do tempo é que tem assustado. Em questão de 30 anos as taxas de obesidade mais do que dobraram no mundo. Até países que não tinham a obesidade como problema (China, por exemplo) agora já o enfrenta. Além dos custos individuais, a obesidade é um problema de saúde pública que acaba gerando externalidades em outras áreas. Nos EUA, a obesidade é responsável por cerca de 20% dos custos com o Healthcare. Enfim, tem uma lista enorme de trabalhos que buscam quantificar os “custos da obesidade”, por sinal, são pesquisas bem interessantes. São muitos custos e poucas soluções.

      O que o Estado pode fazer? Deve-se taxar pesadamente (como se faz com o cigarro) os produtos gordurosos? Tem muita pergunta ainda sem resposta. Por isso acho que a conscientização ainda é uma das poucas maneiras de encorajar as pessoas a manterem-se saudáveis.

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