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A Econometria do Conclave

março 13, 2013

Nunca imaginei que tivessem pesquisas de econometria sobre o conclave. Econometria pressupõe dados, mas há dados sobre a escolha do Papa? Via de regra não deveria haver já que o sigilo total dos votos é determinação no Vaticano. Espera um pouco, a menos que os dados vazem…

Sim, foi exatamente isso que aconteceu. Encontrei uma excelente pesquisa (pdf) do econometrista J.T. Toman (via David Gibson) que a partir de “transbordamentos de informação” analisou os padrões de voto de sete conclaves. Alguns resultados interessantes foram encontrados.

Primeiro dos fatos, o artigo observa que os cardeais agem mais e mais estrategicamente ao longo do conclave. O autor classifica os cardeais eleitores em dois tipos: os sincere voters que votam num mesmo candidato rodada a rodada independente da probabilidade de sucesso; e os strategic voters que mudam o voto a luz dos acontecimentos.

Clique para ampliar.

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A tabela ao lado mostra o comportamento desses dois tipos de eleitores para cada conclave estudado. A primeira linha de cada eleição representa a porcentagem de sincere voting, e a segunda linha a de strategic voting. Veja que ao longo de cada conclave a porcentagem de votantes sinceros cai entre 20 e 60 por cento, dependendo da duração do conclave. De modo análogo há um aumento rodada a rodada de votantes estratégicos. Podemos cogitar várias razões para isso, transmitir coesão dentro da Igreja aos fiéis pode ser um dos motivos em não se estender muito a decisão do conclave.

Segundo, foi constatado que parte desse aumento dos votantes estratégicos comportam-se em efeito de manada com o decorrer das rodadas. Isto é, votos convergem para cardeais que receberam mais votos durante a votação anterior e, especialmente, sobre aqueles cujo número de votos é crescente.

Terceiro, um efeito negativo bastante peculiar de “conversas noturnas” foi identificado. O número de votos do cardeal líder cai consideravelmente na manhã seguinte à última votação. Uma explicação razoável para isso é que as conversas noturnas permitem que os cardeais combinem e dificultem a eleição do cardeal que vinha liderando.

Por fim, há de se considerar que nem todo cardeal é na prática elegível, muitos por serem desconhecidos têm chances mínimas. Isto impõe o problema da heterogeneidade (comum na economia em modelos cujos agentes não são idênticos). Tucker notou que lá pelas tantas do artigo o autor da pesquisa procura entender a existência da heterogeneidade usando um curioso mix de econometria e religião:

Finally, as is seen by the uneven voting activity among the cardinals, there is unobservable heterogeneity among the cardinals that is constant across time. Only a select subset are considered serious contenders for the position of the Papacy. One interpretation is that this is the Word of God. The voters do not perceive the cardinals as equal candidates. More cynically, one might argue that the differences observed are the result of the pre-conclave maneuverings. However, why would the effects of these be constant over time? We could expect these effect to die off after the observations of the first vote count. However, as God is omnipresent and all-knowing, having His effect to be constant over time is less of a surprise. Either way, this unobservable heterogeneity is accounted for in the estimation process through the inclusion of fixed effects parameters.

_____________________________

Prosa 1: Shikida escreveu aqui de outra pesquisa sobre a escolha papal.

6 Comentários leave one →
  1. Anderson Mattozinhos permalink
    março 13, 2013 11:39 am

    Vocês me surpreendem positivamente a cada dia! Artigo excelente! Nossa faltarm palavras realmente muito bom mesmo! PARABÉNS! É por isso que não paro de seguir esse blog!

    • março 13, 2013 10:28 pm

      valeu! 🙂

  2. sgold permalink
    março 13, 2013 2:07 pm

    se todos fossem “sinceros” em todas as rodadas, os conclaves nao teriam fim, certo? entao nao entendo: por que manter o voto é sinceridade? manter o voto nao é também “estratégico”?
    abs
    sgold

    • março 13, 2013 10:38 pm

      Isso mesmo, é uma questão de classificação/nomenclatura usada na pesquisa. Todas as mudanças de voto são consideradas estratégicas e todas as posições estáveis de voto ​​são consideradas sinceras. Na pág 11 do artigo o autor comenta que tais hipóteses fortes são necessárias, dada a informação limitada.

      Sua pergunta procede, só note que manter o voto pode não ser a melhor saída quando o cardeal prefere um candidato que dificilmente é elegível (isso fica claro logo nas primeiras rodadas) ou quando outro candidato da mesma “linha de pensamento” do cardeal votante começa a mostrar chances reais (parte do efeito manada vem daí). Ademais, creio que os ‘voters’ têm em mente que alongar demais o conclave impõe seus custos a Igreja…

  3. Erich Vale permalink
    março 13, 2013 2:53 pm

    Como esses dados foram levantados? (pressuposto que os votos não são divulgados e imediatamente destruídos à cada rodada)

    Um abraço,

    • março 13, 2013 10:48 pm

      Erich, parte dos dados vieram de notas e diários dos cardiais, parte são informações extraoficiais (ou vazamentos mesmo). A seção 3 do artigo comenta de onde vem tudo. É complicado citar tudo aqui porque depende da época, tem uma tabela ao final do artigo (na pág 25) que detalha as fontes de dados de cada conclave estudado.

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