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É esta política econômica que queremos?

agosto 26, 2014

O momento é propício a se fazer balanços. Agora que terminei de ler, posso comentar do novo texto para discussão (pdf) que muito tem a agregar ao debate de conjuntura. Escrito por Vinicius Carrasco, Isabela Duarte (ambos da PUC-Rio) e João Manoel P. De Mello (Insper), o texto se propõe a analisar o período de 2003 a 2012, no que se refere a variáveis macro, micro, setoriais e sociais.

A publicação tem 138 páginas e vale ser lida na íntegra; no entanto, se você quiser ter uma ideia do que encontrar lá, faço aqui uma breve síntese. Os autores fizeram uma análise comparativa via controle sintético. O método consiste em estabelecer um grupo de comparação que seja o mais parecido possível com o Brasil de antes de 2003: “se o desempenho dos grupos de tratamento e sintético é similar no período anterior à intervenção, possíveis diferenças em desempenho após o tratamento representam o efeito resultante da intervenção”. Os detalhes da metodologia estão no Apêndice A — há também uma boa discussão (aqui e aqui) sobre o método. Vamos a alguns resultados.

Crescimento econômico

pib per capita

Notadamente, o país cresceu. Em termos comparativos, muito aquém do que poderia. Em todos os grupos de comparação testados pela pesquisa contatou-se que o Brasil poderia estar com o PIB per capita pelo menos 10% superior ao observado no final do período.

Termos de troca, o maná externo

termos de troca

Eis o gráfico para lembrar como o país se beneficiou dos termos de troca (valor relativo dos produtos que o país exporta). Detalhe: mesmo assim as exportações tiveram um desempenho sofrível (vide fig. 34).

Investimento e Capital Humano

O momento era oportuno para investir mais, mas não aproveitamos. Repara a diferença histórica da FBCF comparada ao grupo de controle (aumentando assim a diferença do estoque de capital ao longo do tempo). Tão ou mais importante quanto, o índice de capital humano mostrou-se em situação ainda pior.

investimento e capital humano

Produtividade

Baseado na TFP (Total Factor Productivity), o índice brasileiro de produtividade patina seguidamente enquanto observa o grupo de comparação se distanciar. Os números de P&D, artigos publicados e patentes concedidas também são apresentados lá no artigo. Interessante é que os gastos públicos com educação no Brasil aumentaram consideravelmente nos últimos anos (fig. 74); nota-se, no entanto, que isso não se traduziu em aumentos relativos na produtividade. Será que os gastos estão bem aplicados?

produtividade

Qualidade regulatória e Competitividade Internacional

À esquerda, tem-se um índice do Banco Mundial que mede: “a segurança de que não haverá mudanças nas regras do jogo regulatório e a facilidade em se fazer negócios em um país”. À direita, um índice da World Economic Survey em que o Brasil termina o levantamento batendo recorde em falta de competitividade.

qualidade regulatoria e competitividade internacional _

Os resultados estão aí. Os autores ainda fizeram análises setoriais, de inflação, mercado de trabalho, corrupção e desigualdade. Volto então à pergunta: É esta política econômica que queremos? Fica a reflexão.

___________

P.S: Agradeço o Vinicius Carrasco por liberar o uso dos gráficos no post.

7 Comentários leave one →
  1. plínio permalink
    agosto 26, 2014 2:01 pm

    Muito bom o artigo. Os pesquisadores deveriam pensar seriamente em publicar um livro com estes resultados.

  2. G. Gustavo permalink
    agosto 26, 2014 2:13 pm

    Interessante, o método usado veio de um artigo do Abadie publicado no JASA. Ocorre que me parece que até então ele havia sido aplicado somente para diferentes estados (e não diferentes países). Estou correto?

  3. agosto 26, 2014 2:51 pm

    Ainda não consegui ler esse texto, boa síntese, lerei assim que possível. Escrevi algo nessa direção essa semana: http://www.vitorwilher.com/economia/pib/por-que-e-preciso-abandonar-a-heterodoxia/. Acho difícil algum economista defender a atual política econômica…

    • agosto 26, 2014 3:06 pm

      Valeu Vítor. Leio sempre seus textos, inclusive gostei muito daquele texto dos motivos p/ votar na oposição.
      abraço!

  4. Anônima permalink
    agosto 26, 2014 3:17 pm

    alguem pode me explicar o motivo do gov. Dilma estar sendo ainda pior do que os govs anteriores?

    • agosto 26, 2014 3:29 pm

      Olha, a verdade é que quanto mais a conjuntura se deteriora, mais difícil fica de apontar uma causa. Contribui o fato de o governo ter abandonado (de vez?) o tripé: as metas de inflação, fiscais e o câmbio flutuante que um dia colocaram o país no eixo. A este respeito, o Roberto Ellery (UnB) tem recente post de como tem se dado o abandono de cada perna. http://rgellery.blogspot.com/2014/08/elegia-para-um-tripe.html

      Os textos do Vítor Wilher (comentário acima) também são muito didáticos.

  5. Pedro Américo permalink
    agosto 26, 2014 4:35 pm

    Agora olha a qualidade do discurso ptista: http://brasildebate.com.br/928/

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