Skip to content

Anedotas são evidências? Tome um exemplo!

O best-seller “The Talent Code”, é mais um livro de leitura agradável que tenta te convencer de “receitas” para o sucesso, mas que, ao ser minimamente refletido, vê-se um bocado de fragilidade nos argumentos — devido, talvez, à fragilidade das evidências. Estes dias precisei fazer uma resenha crítica (pdf) do capítulo “The Sweet Spot”; digo que é um interessante texto para discussão, especialmente se o objetivo é encontrar limitações em análise com excessivos exemplos.

Daniel Coyle, autor do livro, estudou o que ele chama de “talent hotbeds“: pequenos lugares que curiosamente produzem pessoas com grandes habilidades. O autor fez uma viagem pelo mundo — que ele compara com a jornada de Darwin — com o único intuito de descobrir “o segredo” de pessoas brilhantes. A conclusão do autor é que as “pessoas que chegaram lá” usaram da prática profunda (deep practice), conceito abstratamente definido com intrigantes exemplos. A prática profunda não se mede por horas dispendidas em uma tarefa, mas na profundidade aplicada. Exige quebrar a atividade em partes, sempre com uma mistura de concentração, pausas, experimentação e saída da zona de conforto. O autor reforça que estas pausas são importantes para aprender com os próprios erros e assim focar na atividade. Ok, prossiga…

O ponto principal aqui refere-se ao tipo de evidência usada. No vídeo abaixo o autor diz — sem nenhum suporte científico ou empírico — que a “prática profunda pode aumentar a velocidade de aquisição de habilidade 10 (!!) vezes mais do que a prática regular”. A partir daí, exemplos e uma porção de anedotas (tal e qual são definidas)  aparecem no vídeo (e no livro) para “comprovar” seu argumento.

Esse fato me remete a outro recente episódio no qual o autor disse de fato acreditar que “People don’t want to read about scientific studies”. Sendo assim, a pergunta que vem é: qual a metodologia do estudo? Ou ainda, como o autor sustenta suas afirmações? Bem, o método usado por Coyle nada mais é do que se basear em suas próprias observações, nenhuma afirmação foi testada, exemplos provaram (?) tudo. O curioso é que o autor não se preocupou de citar — talvez por não ter buscado — pesquisas na área.

Essa fragilidade, claro, tem consequências severas. Questão abordada no livro: Como interpretar a evolução do futebol no Brasil a partir da década de 1950? Resposta: “Simples”. O futsal chegou no Brasil anos antes, a partir daí, o autor “concluiu” (com dois exemplos) que a prática do futsal é responsável (!!) pelo desempenho brasileiro no futebol. Assim como esta, muitas outras interpretações estranhas surgiram no texto. A verdade é que validar o efeito da “prática profunda” exige, primeiro de tudo, pesquisa profunda.

No comments yet

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s